Miguel Bandeira (7)
Entrevista.com, 08.06.2022 às 10:44
Entrevista ao presidente do Conselho Cultural da Universidade do Minho, Miguel Bandeira
Miguel Bandeira é presidente do Conselho Cultural da Universidade do Minho (UMinho) desde março de 2022, é a sexta figura a ocupar o cargo na academia minhota.

Professor doutorado no Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho (UMinho), do qual foi presidente entre 2010 e 2013, o doutor em Geografia Humana assumiu a presidência do Conselho Cultural (CC) da Universidade no presente ano, pretendendo sobretudo realizar um trabalho que deixe as melhores condições de desenvolvimento aqueles que o sucederão.

Quem é Miguel Bandeira?

Diria, um Professor há mais de 40 anos, casado e pai de dois filhos. Nascido na Ribeira, no Porto, e vindo para Braga, vai fazer 60 anos no início do próximo ano letivo. Desde muito novo (1972) esteve envolvido no associativismo e na política, sem que, até hoje, tenha pertencido a qualquer partido, embora os ache imprescindíveis. Seu pai, que era Escultor formado pelas Belas-Artes de Lisboa, e a quem deve os fundamentos de ter tido uma educação artística e cultural, dizia que era o seu filho desportista.

Tomou posse como presidente do Conselho Cultural (CC) da Universidade do Minho no passado dia 11 de março. O que o levou o aceitar este novo cargo?

Desde logo o desafio colocado pelo Reitor, sendo que a cultura foi sempre o meu mundo, a intervenção e a mediação cultural fizeram de forma constante parte do meu modo de ser e estar. Das artes plásticas ao urbanismo, do teatro ao património, o ensaio e experimentalismo decorrente da condição de docente e investigador em áreas afins, fazem parte de mim. Por outro lado, a oportunidade de poder partilhar com a Universidade tudo o que aprendi nestes oito últimos anos de serviço público e participação cívica. Mais a mais pelo privilégio único de ter desfrutado do confronto prático das matérias académicas investigadas e lecionadas.

Como entende a importância da cultura e como perceciona o património cultural das cidades de Guimarães e de Braga e da própria Universidade do Minho (UMinho)?

Como académico, adiantaria que a importância da cultura, por ser óbvia, pode gerar um debate interminável, sendo também, certamente por isso, objeto de muitos equívocos, ou diferentes expectativas. Mas, também é verdade, tem sido alvo da banalização e do desgaste provocado pelo coro valorativo dos unanimismos, com resultados muito desencontrados. Quando uma palavra se torna indistinta corre o risco de perder o seu significado. Porém, para esclarecer a questão, ainda que seja pelo motivo objetivo do património de Guimarães e Braga, muito pragmaticamente ousaria apenas evocar os romanos, quando há mais de dois mil anos nos legaram uma cultura enriquecida e diversificada, pelo modo como plasmaram o que trouxeram com o que pré-existia. Do mesmo modo que, também hoje, temos o vasto desafio de dispor do rasto histórico que originou uma intensa miscigenação, gerou uma língua, criou nações, definiu regiões, tendo na Universidade do Minho um lídimo protagonista de tudo isso na afirmação e abertura ao mundo. Porque a Cultura, no seu sentido mais lato, é hoje um recurso primordial, e não como mero complemento, daquilo que pode ser o desenvolvimento sustentável e integral das nossas cidades, deste território onde estamos instalados. Isto é, tal como de há dois mil anos para cá, querendo que o Minho continue a ser reconhecido à escala mundi pelo encontro de culturas.

Braga e Guimarães são cidades fervilhantes ao nível da expressão cultural, têm equipamentos fantásticos, têm criativos competentíssimos, cabe-nos a todos otimizar a proximidade, facilitar sinergias, para podermos fruir desta oferta que é magnífica.

Como posiciona o CC no âmbito da UMinho e como caracteriza a sua atividade?

O Conselho Cultural é um órgão colegial de âmbito consultivo, que integra membros externos, tendo por principal missão aconselhar o Reitor e o Conselho Geral nos domínios de política cultural. No plano da sua atividade permanente tem por objetivo promover a articulação entre as Unidades Culturais da Universidade do Minho, que são oito, nunca sendo demais nomeá-las, a saber: o Arquivo Distrital de Braga; a Biblioteca Pública de Braga; a Unidade de Arqueologia; o Museu Nogueira da Silva; o Centro de Estudos Lusíadas; a Casa Museu de Monção; a Casa do Conhecimento; e, o Museu Virtual da Lusofonia. Todavia, é, sobretudo, a partir do potencial de interação com a sociedade que vem sendo desenvolvido por estas Unidades, às quais incontornavelmente se juntam as Unidades Orgânicas, os próprios Estudantes e as Unidades Diferenciadas, que o Conselho Cultural se define a si e à natureza da sua atividade. Por outro lado, não poderia deixar de ser relevada a importância da estreita cooperação e articulação que tem havido com a Vice-Reitora para a Cultura e o Território, a Professora Joana Aguiar e Silva, que não conhecíamos até esta circunstância, e com quem tem sido muito gratificante e produtivo trabalhar em conjunto. O Presidente do Conselho Cultural é um mediador e um integrador, em particular, quando solicitado pelas múltiplas e quotidianas ações que a Universidade do Minho desenvolve. Tem por finalidade estabelecer as necessárias pontes internas e, agora mais ainda, também as externas. Apoiando e divulgando a organização de todo o tipo de iniciativas culturais, como debates, exposições, apresentações de livros, concertos, eventos performativos, e outras iniciativas culturais.

É o sexto presidente do CC. Como tem visto a evolução deste órgão e a política cultural da Universidade ao longo dos anos?

Tenho a honra e a responsabilidade de suceder a ilustres Colegas. Ainda sou do tempo em que tudo começou com o Professor Lúcio Craveiro da Silva, quando eu era membro externo do Conselho Cultural, em representação da associação de defesa do património – ASPA. Ainda assim, integro o Centro de Estudos Lusíadas desde a Presidência do Professor Norberto Cunha, faz este ano duas décadas. Verifico com satisfação que as Unidades Culturais, que são o substrato do Conselho Cultural, ampliaram e consolidaram os seus projetos durante estes anos, diria, com o alcance proporcional ao desenvolvimento da Universidade no seu todo.  Os membros permanentes do Conselho Cultural, embora com as dificuldades recursivas que são conhecidas, têm vindo a superar os seus próprios condicionalismos e a adaptar-se à evolução dos tempos. Por exemplo, extinguiu-se a Unidade de Educação de Adultos, que cumpriu, de um modo pioneiro, a sua nobre missão no contexto temporal da implementação da democracia; e, entretanto, foram criadas novas Unidades, como: a Casa do Conhecimento, e o Museu Virtual da Lusofonia, correspondendo às solicitações contemporâneas que hoje são colocadas à Universidade, no plano das redes de conhecimento, promovendo a interação do local ao global.

Quais são as ideias/novidades que podemos esperar do CC para os próximos dois anos? Quais são as grandes apostas deste mandato, sobretudo considerando a aproximação da celebração dos 50 anos da UMinho (em 2024)?

Potenciar as relações da Universidade com a sociedade nos diversos campos da Cultura. Como afirmámos, mais do que prosseguir com as tradicionais boas relações institucionais e empresariais que Universidade sempre mantém, aumentar o portfolio de parceiros externos e promover a sua vinda ao interior do espaço universitário. O Conselho Cultural não é uma estrutura de programação cultural, ou produtora de conteúdos, mas antes um federador de iniciativas e ideias, valorizando aquelas que promovem uma maior ligação da academia à comunidade, em particular, a Guimarães e a Braga. Mas também promover as relações culturais com outras universidades e cidades. Em convergência, pretende-se igualmente tirar partido das demais extensões culturais da Universidade à sociedade, de que é exemplo a participação da UMinho na Fundação Bracara Augusta, ou a proximidade em Guimarães com a Sociedade Martins Sarmento e a Câmara Municipal, que gerou a Casa Sarmento – Unidade Diferenciada.

No que concerne às celebrações dos 50 anos da Universidade do Minho, que é, seguramente, um marco simbólico fundamental da sua existência, recordo que existe já uma Comissão Organizadora encarregue de propor um programa e um conjunto de iniciativas que aguardamos com expectativa. O CC não deixará de estar associado a esta efeméride e está inteiramente disponível e pronto para colaborar em tudo o que for necessário.

De entre os grandes objetivos do CC, há algum patamar que gostasse, particularmente, de ver atingido? O CC pode ir mais além?

Podemos sempre melhorar. O fundamento matricial da universidade é muito dinâmico, é sempre ir mais além e, o domínio da cultura, pela própria natureza humana, é sempre uma obra inacabada. Mais do que um desígnio pessoal, o que interessa verdadeiramente é deixar as melhores condições de desenvolvimento aqueles que nos irão suceder. O CC pode e deve reforçar-se dentro do espírito dos fundadores da Universidade do Minho, pelo pioneirismo da sua transversalidade e da visão irrequieta de desenvolvimento permanente.  O CC poderia desempenhar um papel federador, no mínimo, constituir-se como um fórum mais alargado, no âmbito das Unidades Culturais, Diferenciadas e outras consensualmente relacionadas com a Cultura. No plano externo valerá a pena dinamizar as relações já existentes com os agentes culturais da região e ter bem claro as virtualidades da proximidade à escala do noroeste peninsular.

Ainda que tenha decorrido relativamente pouco tempo, que balanço faz da experiência até ao momento e quais são as expectativas para o futuro?

O Conselho Cultural tem em curso o processo de adequação ao novo mandato reitoral que supõe a constituição de um novo Conselho. Dispõe, neste momento, de Presidente e da Comissão Permanente, mas para estar plenamente regularizado terá ainda de investir os novos membros do plenário, designadamente, os elementos externos referentes ao presente mandato. Como afirmei na minha tomada de posse é necessário aproveitar e dar continuidade ao trabalho de reflexão que a minha antecessora, a Professora Helena Sousa, oportunamente promoveu. Entretanto, foi já praticamente concluída a ronda de auscultação às Unidades Culturais, e estamos a preparar, conjuntamente com a Reitoria, a participação na revisão estatutária em curso, para a qual o CC integrará uma das comissões. Ao mesmo tempo procedeu-se já ao esforço de acertar o calendário das edições do Prémio Vítor de Sá de História Contemporânea, adiadas devido à crise pandémica. Pelo que, presentemente, estamos a ultimar a 30 ª edição-2021 e, ao mesmo tempo, a organizar a próxima edição de 2022, que está já a ser anunciada e cujas candidaturas estão abertas até 30 de setembro deste ano. A este respeito releve-se o facto de o prémio ser uma das iniciativas mecenáticas mais prestigiadas da UMinho, que é organizada pelo CC. Curiosamente a 30ª edição foi a primeira em que se internacionalizou o Prémio. Este vai ser entregue no próximo dia 6 de julho, a uma jovem investigadora que desenvolveu a sua investigação em São Paulo-Brasil. Ao mesmo tempo, foi já reorganizada a Comissão Executiva, de modo a reforçar o testemunho do legado do doador e a aprofundar o envolvimento dos Mecenas na organização do mesmo. Estou convencido que atrairemos mais Mecenas e daremos nova dinâmica às iniciativas em volta do Prémio Victor de Sá de História Contemporânea.

O CC elegeu como prioridade para o ano em curso a dinamização da sua atividade, principalmente uma maior ligação com a Comunidade Académica. De que formas isso está a ser feito?

As ligações internas do CC acontecem naturalmente e no quotidiano da nossa atividade. O CC integra a academia, não podendo ser entendido como um filtro ou uma espécie de central de reservas da atividade cultural. Mais a mais, a atividade cultural da universidade é tão permanente e intensa que a prioridade está mesmo em divulgar e franquear cada vez mais o acesso da comunidade a todas as atividades extracurriculares que diariamente aqui ocorrem. Há principalmente que prosseguir com uma maior agilização de contactos, na promoção e na mediação dos eventos. Para tal temos contado com a disponibilidade e a proximidade grata da Vice-Reitora, Professora Joana Aguiar e Silva. Em nossa opinião, mais do que a ligação do órgão à Comunidade Académica, o seu grande desafio está mesmo em maximizar a ligação da academia à sociedade, nomeadamente nas duas cidades onde a UMinho está mais implantada.

A constituição do CC é bastante diferenciada. Como vê esta diversidade em prol da missão do órgão colegial de consulta?

É extremamente positiva, entre outras razões por isso mesmo, porque a universidade e a cultura têm em comum a diversidade e a universalidade do conhecimento e dos saberes. Há Unidades Culturais centenárias que são anteriores à própria Universidade do Minho. A diferenciação de finalidades é ela própria uma expressão da qualidade e da grandeza da instituição. Transdisciplinaridade e outros modos de cooperação são tanto mais importantes, quanto menos são as redundâncias ou sobreposições. De um modo muito impressivo, dispomos de três tipos de atractores, que não sendo exclusivos, podem agrupar o conjunto das Unidades Culturais deste modo: as que têm uma matriz fundacional voltada para o serviço público, que compreende a prestação de serviços para lá da função tradicional da universidade; as que são resultantes do mecenato; e as que assentam no princípio das redes territoriais, com um espectro de atuação que vai do local ao global, e ao contrário, também. É uma riqueza notável.

Quais foram para si, os maiores reflexos da pandemia na cultura da UMinho e das cidades que acolhem a Universidade?

As cidades e a universidade não são estanques, e interagem entre si de um modo muito direto e imediato. Logo à partida, os campi hoje já dispõem da massa crítica que é própria de um pequeno aglomerado urbano. Os efeitos da pandemia são mundividentes e têm implicações a todos os níveis, sobretudo, onde existe concentração de pessoas. Salientaria a dimensão do isolamento e da quebra dos contextos presenciais. Foram particularmente as modalidades culturais que mais dependem das expressões diretas e ao vivo, dos públicos presentes (as artes performativas e do espetáculo), as que mais sofreram, e que ainda agora sentem os condicionamentos presenciais. Por outro lado, e de um modo geral, a pressão psicológica do confinamento sobre o individuo. Num primeiro momento até, paradoxalmente, seria exultante permitir dispor de tempo extra para determinados tipos de consumo, produção e lazer cultural; depois, com a continuidade persistente do isolamento, pelo estilhaçar, em concreto, dos laços sociais mais frágeis, introduziu-se uma vaga de pressão psicológica sobreaquecida com consequências nefastas na saúde mental das pessoas. Isto é, já não falando de outras implicações mais ou menos indiretas que nos afetaram, ainda não se sabe bem com que extensão.

Na sua opinião, a pandemia poderá ou está a ter efeitos na alteração dos hábitos culturais da comunidade no que respeita à fruição cultural? Como está a ser a retoma à normalidade? Sente que a cultura é uma área valorizada na Academia?

Quando surgiu a pandemia, lembrei-me logo das histórias trágicas que a minha avó me contava em pequeno quando grassou a gripe espanhola, na segunda década do século XX. O tempo encarrega-se sempre de repor todas as normalidades, embora se saiba que tudo nunca fica exatamente como dantes. Neste ponto, a Cultura, pela abordagem da memória, desempenha um papel notável na compreensão do presente e constitui um referencial preventivo para encararmos o futuro. A retoma da normalidade será uma questão de tempo, cuja extensão dependerá do modo como as pessoas lidam com o medo e a razão. O risco das pandemias e outro tipo de catástrofes já vinham sendo anunciadas como eminentes há umas décadas atrás. Será ainda pela educação e o conhecimento, em sociedades solidárias e coesas, que se reunirão as condições para enfrentar cada vez melhor estas, e outras ameaças.

Há que exaltar como muito positivo o desenvolvimento de aplicações, tecnologia e as vantagens que genericamente a pandemia trouxe àquilo a que podemos chamar “Encontros na Web”, onde é manifesta a persistência e criatividade de quem, apesar de fechado em casa, pretendia manter os encontros e gerar novas expressões de cultura.  

No que toca à última parte da pergunta… Se a cultura é valorizada na Academia?! Espontaneamente, diria logo que sim, claro! Mas lá está! Depende do que se entende por cultura, melhor, por culturas. Para lá das hermenêuticas mais ou menos antropológicas e das habituais afirmações políticas de poder, felizmente, é muito difícil “disciplinar” a Cultura. Toda a universidade é cultura e toda a cultura tem lugar na universidade. Agora é também verdade, que os saberes tradicionalmente menos afoitos ao utilitarismo tecnológico, à rentabilidade económica imediata, à quantificação sem alma, diria até, à submissão acrítica aos rankings, tenham vindo a perder carga dramática e a ser supletivas nas políticas das Universidades. Mas isto é um padecimento global da instituição universitária contemporânea, no seu todo e sem lugar específico. Por outro lado, também existem outros tipos de sabedoria externa à universidade – que não somente a das empresas, das instituições políticas e das finanças – e que raramente passa da portaria dos campi. Mas eu sou otimista, porque a Cultura tem sempre o dom de mobilizar a saúde e a felicidade.

Professor, investigador, presidente de Unidade Orgânica, político e agora presidente do CC. Qual, no seu entender, é o papel mais desafiante?

Sem dúvida, o de Professor! Mais a mais num tempo em que o senso-comum, sujeito a um crescente ambiente oclocrata, tem vindo a desvalorizar a função. Mas, o mais difícil, certamente, é o papel do político, sobretudo, quando se trata de ter por missão governar em democracia.

Uma mensagem que gostasse de deixar à comunidade académica…

De alento e de esperança, nos tempos imponderáveis que vivemos. Isso mesmo, exortar os valores da vida e da liberdade fraterna, nestes momentos que também são o de poder voltar a conviver em direto e ao vivo!

Ana Marques

Fotos: Nuno Gonçalves

Arquivo de 2022