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Entrevista.com, 03.11.2021 às 17:28
Entrevista a Pedro Dias - diretor executivo da Federação Portuguesa de Futebol
Pedro Dias é diretor executivo da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) desde 2011, responsável pelas modalidades de Futsal e Futebol de Praia e coordenação da formação dos treinadores de futebol, futsal e de futebol de praia e de alguns programas de desenvolvimento com os sócios ordinários da Federação. Apaixonado por desporto desde criança, tem como grande desejo ver aumentar a taxa de prática desportiva regular da população portuguesa.

Ligado à Universidade do Minho/Serviços de Acção Social da Universidade do Minho entre 1998 e 2011, o dirigente foi cedido à FPF por interesse público, ao serviço da qual tem mostrado a sua ampla experiência e competência. 

1- Quem é Pedro Dias?

Nascido e criado em Vila Nova de Gaia, na freguesia de Mafamude, onde viveu até aos 19 anos.

Viveu na Covilhã onde estudou e iniciou a sua carreira profissional na Universidade da Beira Interior (UBI), vive desde 1998 em Braga, ano em que ingressou nos quadros dos Serviços de Acção Social da UMinho.

2. Atualmente é diretor executivo da Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Quais são as suas funções e responsabilidades?

Exerço essas funções desde 17 de dezembro de 2011, como membro da direção, tenho a responsabilidade de analisar, refletir e propor estratégias que visem o fomento, a promoção e o desenvolvimento das modalidades que a FPF tutela, com particular enfoque no Futsal e no Futebol de Praia. Tenho ainda a responsabilidade de coordenar a formação dos treinadores de futebol, futsal e de futebol de praia, e de alguns programas de desenvolvimento que temos implementado com os sócios ordinários da FPF.

3- Fale-nos um pouco sobre o seu trajeto académico, profissional e desportivo…

A minha ligação ao desporto começa no bairro onde nasci em Vila Nova de Gaia. Esse bairro na freguesia de Mafamude tem um clube, o Futebol Clube de Gaia, que nos anos setenta já tinha instalações próprias (pavilhão desportivo, ginásio, salas polivalentes,…) cujas instalações desportivas estavam abertas diariamente à comunidade das 8h da manhã às 23h. A maioria das crianças do “meu” bairro encontrava no “Gaia” uma oferta de prática desportiva muito interessante (Andebol, Basquetebol e Ginástica), passávamos várias horas diariamente a praticar desporto ou assistir a treinos e jogos. Iniciei a prática desportiva no FC de Gaia com 5 anos, no Basquetebol, depois pratiquei Andebol, fui atleta federado nas duas modalidades, fui campeão distrital em Basquetebol e Andebol representando o FC Gaia.

Mais tarde, com 13 anos, participei num recrutamento para os iniciados do FC Porto, fui selecionado e fiquei no clube até aos Juniores.

Ingressei na Universidade da Beira Interior em 1988, no curso de Engenharia Têxtil, tendo praticado futebol e futsal universitário em representação da UBI/AAUBI e federado em 3 clubes da região: Unhais da Serra e AD Manteigas no futebol, e no GD Mata no Futsal. Neste período na UBI, iniciei o percurso no Futsal, com a participação no torneio intercursos em 1988, fui selecionado para representar a seleção da UBI/AAUBI que foi campeã nacional em Coimbra, desde então, tive o privilégio de participar na conquista de vários títulos nacionais universitários de futsal e de futebol, e de representar a seleção nacional universitária de futsal no Mundial Universitário de 1992. 

Em 1995, a convite do Reitor da UBI, Professor Cândido Passos Morgado, iniciei a minha atividade profissional, exercendo as funções de assessor do reitor para o desporto universitário e respetivas instalações desportivas, tendo a responsabilidade de coordenar a atividade desportiva em estreita cooperação com a AAUBI, nesse momento iniciei o curso de Gestão na UBI. A minha atividade profissional tem estado relacionada com a gestão desportiva, de 1995 a 1998 na UBI como assessor do Reitor para o Desporto Universitário, de 1998 até 2011 como técnico superior no Departamento Desportivo e Cultural dos Serviços de Accão Social da Universidade do Minho e desde 2011 como diretor executivo na Federação Portuguesa de Futebol.

4- Esteve ligado ao desporto desde criança, quais as melhores recordações que tem e como vê, hoje, a relação das crianças com o desporto?

Fui um privilegiado, desde criança que tive livre acesso à prática desportiva. Quer na escola que frequentei do 1º ao 6º ano (Colégio Nossa Senhora da Bonança em Vila Nova de Gaia), na década de setenta esta escola tinha um pavilhão desportivo com piso de madeira, além disso, as instalações desportivas do Futebol Clube de Gaia estavam sempre de portas abertas para as crianças, proporcionando experiências fantásticas, os meus tempos livres eram passados na íntegra nas instalações do clube, sempre a jogar e a transpirar. As crianças de hoje necessitam de ter acesso a mais oportunidades de prática desportiva, em contextos diversos, que enriqueçam as suas capacidades motoras, que enriqueçam a experiência de prática em contexto seguro e com qualidade, com um sorriso nos lábios.

5- Durante um longo período da sua vida esteve ligado ao desporto universitário. O que destaca dessa experiência?

A ligação ao desporto universitário nunca se perderá, iniciou-se no final da década de oitenta, farei sempre parte dessa família. Tive a oportunidade de contribuir como colaborador do movimento associativo ligado ao desporto no Ensino Superior, fui praticante, fui dirigente federativo/associativo, fui membro do comité executivo da Federação Internacional do Desporto Universitário, participei na génese da criação de uma rede europeia de serviços desportivos universitários, em suma, tive imensas oportunidades, contactos com experiências e contextos diversos, maioritariamente ligados ao alto rendimento desportivo, que me deram “mundo”, foi um processo que me proporcionou a aquisição de inúmeras competências e experiências enriquecedoras.

6- Foi presidente da Federação Académica do Desporto Universitário (FADU) entre 1993-1995. Como vê, atualmente, o desporto universitário?

Volvidas cerca de três décadas, é complicado fazer comparações, é necessário contextualizar. Destaco os aspetos que considero mais relevantes: a maioria das Instituições do Ensino Superior (IES) tem instalações desportivas próprias, a maioria da IES tem um departamento de desporto na instituição, a maioria das IES tem uma oferta desportiva regular para a comunidade, a maioria das IES criou mecanismos de apoio à carreira dual, a maioria das IES considera estratégico ter uma orientação definida para o desporto. Estamos a caminhar, três décadas é muito tempo, é necessário realizar uma ligação forte à comunidade onde as IES estão inseridas, para dar sentido e coerência aos projetos, como a Universidade do Minho fez, e muito bem. 

7- Durante a sua ligação ao desporto universitário fez parte do Comité Executivo da Federação Internacional de Desporto Universitário (FISU) durante alguns anos. Qual a importância para o nosso desporto universitário, de termos um representante português num órgão desta dimensão?

Na minha opinião, a presença de Portugueses em organismos internacionais é muito importante para o país, seja em organizações desportivas ou de outro âmbito. Temos a possibilidade de contactar com as melhores práticas, temos acesso a informação privilegiada sobre o que de melhor está a ser feito no mundo, esta “internacionalização” cultiva uma visão mais abrangente e estratégica das organizações, temos a oportunidade de tentar influenciar as decisões, algumas com forte repercussão na nossa atividade nacional.

8- Esteve ligado à UMinho e em particular aos SASUM - que o cedeu por interesse público à FPF - durante largos anos. Quais são as melhores recordações que guarda do período em que desempenhou funções nos SASUM e quais os fatores que destacaria no sucesso da UMinho e da AAUM no panorama do desporto universitário?

Estou ligado à UMinho/SASUM desde 1998, não deixo de estar ligado à UMinho/SASUM pelo exercício das funções profissionais que exerço desde 2011 na FPF. A UMinho/SASUM foram importantíssimos no meu percurso profissional, tive a oportunidade de contactar com as melhores práticas de gestão e organização no âmbito do desporto, onde a missão, visão e objetivos estratégicos foram o nosso farol. A forte liderança estratégica da UMinho e dos SASUM, aliada à fantástica visão do diretor do departamento desportivo, influenciaram de forma significativa o percurso de sucesso que o desporto na Universidade do Minho foi construindo, tendo na AAUM um parceiro estratégico, o que falta referir, foi conquistado com o trabalho árduo dos estudantes e treinadores.

9- Na Federação Portuguesa de Futebol está, já, há 10 anos. Que balanço faz do seu trajeto nesta organização?

A experiência de 118 meses de trabalho na FPF tem sido uma viagem extraordinária. Uma liderança muito forte e competente, aliada a um grupo de trabalho coeso e experiente, permitem olhar para o passado com orgulho e para o futuro com ambição. Os compromissos assumidos e respetivos indicadores de performance estabelecidos para os dois primeiros mandatos (2011-2020) foram superados com distinção. Quando olhamos para fatores de desenvolvimento desportivo e os relacionamos com a atividade da FPF nesse período, constatamos que foram feitos progressos assinaláveis, em suma, a oferta de atividades na FPF cresceu significativamente, o número de praticantes cresceu mais de 40%, o número de seleções nacionais aumentou, qualificamos o processo de formação desportiva dos clubes, qualificamos o processo de formação e capacitação dos diversos stakeholders ligados à família do futebol, os títulos internacionais no escalão sénior e na formação são uma realidade, o património da FPF cresceu, são alguns factos.

10- Tem uma grande experiência em gestão desportiva adquirida a nível nacional e internacional, nomeadamente por ter integrado diversos comités organizadores de eventos importantíssimos de futsal e não só. Considera terem sido estas experiências, as grandes bases para estar na posição que ocupa hoje?

Todas as oportunidades para crescer profissionalmente são relevantes. Estou certo que a minha disponibilidade para participar de forma voluntária durante mais de duas décadas na organização de eventos desportivos a nível local, regional, nacional e internacional, contribuíram de forma relevante para elevar a minha experiência profissional, ampliar as minhas competências e conhecimento, foram experiências muito ricas que me ajudaram a criar uma base sólida para os desafios profissionais que, entretanto, foram surgindo.

11- Foi condecorado com o Grau de Comendador da Ordem do Mérito pelo Presidente da República em 2015. O que significou para si esta condecoração?

Muito orgulho e satisfação, considerando que o reconhecimento do mérito foi feito tendo por base a conquista de títulos internacionais (europeus e mundiais) para Portugal.

12- Para além do Futsal, é também responsável pelo Futebol de Praia. A que patamar quer elevar estas duas modalidades?

Desejamos registar uma evolução qualitativa e quantitativa das modalidades, consubstanciada num aumento muito significativo do número de praticantes desportivos. A FPF pela forte responsabilidade e reconhecimento social que tem na sociedade Portuguesa, pode dar um contributo decisivo para melhorar os índices de prática desportiva regular da população Portuguesa, estamos empenhados na criação de condições para contribuir de forma ativa para melhorar essa realidade. Alcançando estas metas, estaremos sempre mais próximos do sucesso.

13- O futsal tem, nos últimos anos, alcançado uma enorme visibilidade e impacto. A que se deve esta aposta tão forte da FPF na modalidade?

Decorre da visão que o Presidente apresentou aos sócios em 17/12/2011, tornar o Futsal a modalidade coletiva de pavilhão mais praticada no nosso país, tudo o que aconteceu desde então, é consequência da visão e do processo que foi implementado para a alcançar.

14- Integra o painel de delegados de Futsal da UEFA desde 2003. Isto tem sido importante para a evolução do futsal nacional?

Desde 2016 que sou vice-chair do Comité de Futsal e de Futebol de Praia da UEFA. Como referi anteriormente, é minha convicção que a presença de portugueses em organismos internacionais é muito relevante. Temos a possibilidade de contactar com as melhores práticas, temos acesso a informação privilegiada sobre o que de melhor está a ser feito no mundo, esta internacionalização cultiva uma visão mais abrangente e estratégica das organizações, temos a oportunidade de tentar influenciar as decisões, algumas com forte repercussão na nossa atividade nacional. As recentes decisões do Comité Executivo da UEFA sobre proposta do Comité de Futsal são exemplo disso, foram criados dois campeonatos europeus (feminino e sub-19 masculino), foi alterada a estrutura e a denominação da UEFA Futsal Cup para UEFA Futsal Champions League, o formato do Europeu masculino foi alterado para 16 seleções (eram 12) com os jogos da qualificação a serem disputados no sistema casa fora.

15- Como viu e o que sentiu ao ver a seleção nacional de futsal sagrar-se campeã mundial, depois de em 2018 já ter conseguido o título de campeã europeia?

Vi uma seleção competente, muito bem preparada, ambiciosa, com uma liderança fortíssima, que se superou para alcançar um título inédito para Portugal. Vi também um staff de apoio altamente qualificado e comprometido, na Lituânia e na Cidade do Futebol, que contribuiu de forma decisiva para o sucesso alcançado por Portugal. Senti um orgulho tremendo, por fazer parte desta organização de excelência que é muito mais que uma federação desportiva, que nos tem proporcionado todas as condições para que o nosso foco esteja no processo e que este processo seja qualificado e fortalecido a cada dia que passa. 

16- Quais são os projetos da Federação Portuguesa de Futebol para o contínuo desenvolvimento das modalidades que enquadra?

Destaco 5 medidas:

  • Articular com o Ministério da Educação e o Ministério da Ciência Tecnologia e do Ensino Superior medidas específicas conducentes à implementação de projetos conjuntos que visem o aumento do número de crianças e jovens a praticar desporto de forma regular e a qualificar os projetos de iniciação/formação desportiva (1º Ciclo, 2º e 3º ciclos do Ensino Básico e Ensino Superior).
  • Qualificar a formação e intervenção dos treinadores que participam de forma ativa nas etapas iniciais de formação dos jovens praticantes
  • Reforçar e qualificar o Programa Deteção e Seleção de Talentos
  • Reforçar e qualificar o Programa de Comunicação entre as equipas técnicas das FPF, das Associações de Futebol e dos clubes.
  • Reforçar a Formação Creditada destinada aos Professores de Educação Física (Responsáveis por grupos/equipa do Desporto Escolar).

17- Atualmente, e, apesar de muito se falar no desporto para todos, essa é ainda uma realidade muito longínqua no nosso país. Como vê esta questão e como gostaria de ver o desporto nacional daqui a 10 anos?

Desejo muito que consigamos alterar o indicador que aponta Portugal como um dos países da União Europeia com menor taxa de prática desportiva regular da sua população. Considerando a importância que os mais recentes estudos europeus apontam para a relevância do desporto ao nível social, económico, na saúde na performance desportiva, é de capital importância que o desporto e a prática desportiva tenham lugar de destaque em diferentes agendas, para podermos alterar este paradigma de forma célere.

19- Uma mensagem à Academia e a todos os que gostam ou gostariam de praticar desporto?

A mensagem para a Academia está intrinsecamente relacionada com a visão que a Universidade do Minho definiu para o desporto na Academia, continuem a ser uma referência Europeia no Desporto Universitário, mantenham a aposta em disponibilizar instalações desportivas de qualidade à comunidade académica, mantenham a aposta em programas desportivos de excelência, e numa relação forte com a comunidade, proporcionando desta forma vivências extracurriculares positivas e gratificantes aos alunos, docentes e funcionários.

Fonte: SASUM

Fotos: FPF

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