Luis Valente de Oliveira (3)
Entrevista.com, 09.02.2021 às 09:33
Entrevista ao Presidente do Conselho Geral, Luís Valente de Oliveira
Presidente do Conselho Geral (CG) desde 5 de junho de 2017, Luís Valente de Oliveira termina o seu mandato com um balanço positivo e com o sentimento de dever cumprido.

O UMdicas esteve à conversa com o professor catedrático que nos falou das dificuldades sentidas, do que mais o fascinou, da Universidade que ajudou a orientar nestes últimos quatro anos, do futuro, entre outras coisas. 

Ao cabo de quase quatro anos à frente do Conselho Geral (CG) da Universidade do Minho, que balanço faz do seu papel e do caminho percorrido por esse órgão colegial?

Suponho que cumpriu as funções que lhe estão reservadas nos Estatutos.

Fê-lo sempre de forma viva, ouvindo e integrando as posições das diversas sensibilidades e grupos representados no seu seio. Com isso permitiu à equipa reitoral auscultar a opinião de todos e afinar as suas propostas no sentido de corresponder à natural pluralidade de posições que sempre existem numa instância como esta.

Trata-se de um órgão de decisão. Por isso, na minha função procurei que as diversas opiniões fossem expostas, mas sempre com a preocupação de definir claramente o caminho a seguir. Suponho que isso foi conseguido. 

Fale-nos um pouco sobre as maiores dificuldades que sentiu no exercício desta função bem como daquilo que mais o regozijou…

Os documentos para discussão e apoio das decisões tomadas foram sempre distribuídos com antecedência, permitindo a todos formar uma opinião acerca das diferentes matérias. As maiores dificuldades a que alude tiveram a ver com a prática corrente em Portugal de alguns intervenientes pensarem que tinham todo o tempo do mundo para fundamentar as suas posições, apesar de haver regras para a distribuição da duração de cada intervenção. Esta é uma pecha nacional que afeta a eficácia de funcionamento dos órgãos de decisão no nosso país. Por isso, eu recordava algumas vezes a natureza do órgão em que estávamos.

Aquilo que mais me regozijou foi o comportamento dos representantes dos Estudantes. Traziam os assuntos estudados, muitas vezes tendo reduzido a escrito as suas intervenções e dando mostras de uma maturidade grande na apreciação do que estava em discussão. Por alguma razão eles tinham sido escolhidos para integrarem o Conselho!...

Mas também se salientaram, pela qualidade das suas intervenções, os Administradores e os membros da equipa reitoral que nunca deixaram dúvidas acerca da profundidade da sua preparação para ocuparem os seus postos. 

Que leitura faz do papel do Conselho Geral e dos domínios da sua intervenção na Academia em geral e na UMinho em particular?

A Comissão Especializada de Governação, Assuntos Institucionais e Assuntos Financeiros fez uma proposta para se proceder a um balanço do funcionamento do modelo fundacional para a condução da atividade da Universidade do Minho. Vamos agora com cinco anos de adopção do mesmo e há sempre ajustamentos que se revelarão úteis. Quando me falaram na vontade de lançar esse exercício, manifestei-lhes imediatamente o meu apoio e a minha disponibilidade para participar no trabalho. Ele terá lugar em breve; esperemos que a pandemia não atrase muito a sua realização, porque importa muito conciliar a representatividade com a eficácia e a existência de um Conselho Geral facilita muito a realização dessa ambição.

Considera a composição atual do CG equilibrada em termos dos diferentes grupos que o compõem? Há alguma alteração que achasse pertinente fazer-se nesse particular?

Parece-me que o tamanho atual do Conselho Geral está ajustado. Verificou-se que ele permite ouvir todos os seus membros e, se houver disciplina no uso do tempo, até poderá assegurar a participação de mais membros. Os grupos que estão representados são os docentes, os discentes, os trabalhadores técnicos, administrativos e de gestão e um grupo de membros externos cooptados pelo Conselho.

Dado o papel importante que a Universidade do Minho tem desempenhado nas suas relações com o tecido produtivo circundante através do conjunto dos seus investigadores, qualquer adição de novos membros ou de transferência dos existentes, deve respeitar a esse grupo. Não é difícil vaticinar que os bons resultados obtidos irão aconselhar a que se dê uma atenção muito particular a essa parcela dos nossos membros; a questão é decidir se eles são adicionados ou transferidos da classe dos docentes. 

Quase em final de mandato, que opinião nos deixa sobre esta Academia com 47 anos?

A Universidade do Minho teve um percurso muito particular. 

A principal intenção era proporcionar oportunidades de formação superior a um vasto grupo de jovens que não podiam suportar os custos de uma mudança de residência em cima de mais alguns anos de estudo sem integrar o grupo dos que já trabalhavam.

É evidente que foi feita uma escolha criteriosa dos cursos ministrados, com alguma inovação em certas áreas, de modo a não confinar a oferta aos setores tradicionais.

A verdade é que se foram selecionando os campos de atividade, articulando na oferta cursos com imediata aplicação nos sectores carecidos com outras áreas em que se tinha de desbravar caminho novo. Deu-se natural atenção aos cursos que surgiram com maior procura e manteve-se a capacidade de propor a abertura de novos cursos e o encerramento de outros, mais ajustados à procura, tal como ela se manifestava.

Os efeitos da Universidade sobre o tecido social e económico circundante têm sido manifestos e com dimensão apreciável. O Noroeste do nosso país não teria evoluído do modo como o fez sem o concurso competente da Universidade do Minho. O papel que têm tido os seus “Alumni” na profunda transformação e revigoramento da produção de bens transacionáveis e sua consequente exportação, devem-se à existência da Universidade, com as caraterísticas que ela possui. Mas a sua ação estendeu-se a muitos outros domínios que complementam de forma equilibrada o espetro da formação superior em toda a área e, na realidade, também no resto do país porque os diplomados espalharam-se por todo ele, consoante as oportunidades de emprego que se apresentaram. Há, contudo, especialidades que só se encontram na Universidade do Minho, tendo contribuído para o prestígio da Casa.

Por outro lado, as dimensões das duas cidades em que a Universidade está localizada revelam-se muito atrativas, no que respeita ao chamamento de estudantes estrangeiros, no quadro do programa Erasmus e de outros de natureza semelhante. A reputação da Universidade do Minho como polo de atração de formandos estrangeiros é conhecida. A isso ajuda, naturalmente, a qualidade do acolhimento que lhes é reservado, mas o principal tem a ver com a qualidade do ensino e da investigação que nela são praticados e com a forma como docentes e investigadores orientam a preparação dos que vêm de fora.

A Europa e o Mundo estão cheios de novas universidades e centros de formação. Quando se começa a esboçar uma preferência marcada por uma delas, não tendo isso a ver com facilitismos ou com fatores exógenos, estamos diante de uma escolha fundamentada que assenta na qualidade da formação que se oferece. Foi isso que aconteceu no caso da Universidade do Minho. 

Num quadro mais geral, como prevê o futuro das Universidades e do Ensino Superior em Portugal após esta pandemia?

A pandemia está a ser uma dura prova imposta a toda a gente em todas as instituições.

No caso das universidades houve que proceder a numerosas adaptações para não perder um tempo precioso na formação e na educação dos estudantes. A possibilidade de se recorrer ao teletrabalho foi bem aproveitada nos setores em que isso é possível. Muita atividade laboratorial ou operacional não é, contudo, suscetível de substituição total por essa forma. Mas foram introduzidas regras específicas e todos têm compreendido as exigências da nova disciplina a que é necessário que todos nos submetamos. Além dos efeitos nefastos que a pandemia tem diretamente sobre aqueles a quem afeta, a pior consequência respeita à perda de tempo que ela implica. E isso prejudica muita gente, muitos setores e tem efeitos graves sobre a forma com que muitas atividades de relação são conduzidas. Ora, a verdade é que as universidades em geral e a Universidade do Minho em particular souberam adaptar-se, de boamente, às exigências, conseguindo conciliar a nova disciplina de comportamento que é reclamada com os atributos da atividade docente e de investigação tendo logrado alcançar um patamar de compromisso razoável. É evidente que vai haver consequências negativas e que ainda não estamos cientes acerca de todas elas e dos seus efeitos profundos. Sossega-nos a certeza de que se fez o máximo para minimizar os inconvenientes, nisso tendo méritos todos os agentes que integram a Universidade. Agora que chegamos à fase da vacinação e que podemos começar a pensar na retoma, talvez seja a ocasião para começarmos a fazer o balanço da extensão das perdas e gizarmos as necessárias ações de compensação.

Daqui a uns tempos, quando a procela tiver passado, poderemos ter a dimensão da violência a que ela nos sujeitou. A nossa vida foi alterada de uma maneira que nós não éramos capazes de prever. Mas soubemos adaptar-nos e minimizar os estragos. Nomeadamente, na Universidade, onde se encontram agentes de tão diversas qualidades e responsabilidades. Há de chegar o momento de avaliar os estragos e de conceber as necessárias medidas para reparar os danos. 

Como vê a situação atual do país, e como vê e futura o país do ponto de vista político, social e económico depois desta fase destruidora em todo o mundo?

O país soube reagir a tempo e de forma disciplinada.

A única forma de consolo é verificar que todos no mundo sofreram o impacto da pandemia. Uns souberam-se proteger melhor do que outros por terem sido mais rápidos e rigorosos e por terem optado pelas melhores estratégias. As consequências são, contudo, negativas para todos. Talvez nos tenha ficado a lição de que é preciso sempre pensar em termos estratégicos, seja para salvar uma empresa ou para proteger uma universidade, minimizando os estragos e preparando as coisas para a retoma.

A grande lição da pandemia reside na evidência de que apostar na Ciência compensa. Se foi possível afinar tão depressa tantas vacinas, isso deve-se ao facto de já se ter avançado muito em diversas vias que foi possível juntar, articulando conhecimentos que já se haviam descoberto e avançando rapidamente em direção a um objetivo que foi apontado com prontidão. Mesmo tendo disponíveis tantos novos conhecimentos, o hábito de investigar facilitou muito a focagem em caminhos que se vieram a revelar promissores.

Talvez tivéssemos lucrado em termos desenvolvido mais estudos de futurologia. Muitos especialistas teriam apostado em crises atribuíveis ao terrorismo ou a desastres ecológicos. Poucos teriam apostado numa pandemia como esta para colocar todo o mundo às avessas, sem saber como desencadear as ações de salvamento. Todos tateámos na procura de respostas eficazes. Alguns negaram o valor da ciência e conduziram os seus povos ao desastre. Quem foi mais humilde e procurou respostas fundamentadas no conhecimento, foi conseguindo emergir da crise e, no meio de imensa dor e sacrifícios impostos a todos, foi logrando minorar os danos e procurar um caminho para sair crise. Poucos imaginariam a dimensão dos danos causados pela libertação de um vírus capaz de atingir toda a população do mundo.

A principal lição a recolher é de modéstia e de confiança no valor da ciência. Só ela nos está a servir para sairmos de um inferno. Quem está a repousar no método científico para atuar, parece estar na via certa.

É imperioso retirar desta experiência funesta todas as lições que ela encerra. A maior delas respeita, seguramente, ao valor do conhecimento. Se esta pandemia tivesse acontecido há dois ou três séculos atrás, pode-se ficar seguro de que só escapariam as populações absolutamente isoladas. Qualquer relação estabelecida seria uma via certa de contágio. A comparação com a “influenza” (gripe espanhola) de há um século atrás, ilustra claramente a dimensão que a do nosso tempo (Covid-19) teria se não dispuséssemos do conhecimento e da capacidade de ação que está a permitir limitar os seus danos, apesar dos sacrifícios que ela causa.

Nenhum setor escapará à sua malignidade e aos seus efeitos perversos. 

Quer deixar uma mensagem à Academia?

A Universidade do Minho soube vencer as dificuldades que rodeiam sempre o nascimento quer de uma pessoa, quer de uma nova instituição. Estes são factos comuns que, no caso de uma entidade tão complexa como a Universidade, assumem dimensões enormes e, muitas vezes, insuspeitadas que a qualquer momento podem pôr por terra todos os esforços desenvolvidos.

A Universidade do Minho beneficiou de um enorme sopro de sorte quando apostou na descoberta de novos conhecimentos científicos e tecnológicos e se ligou ao tecido empresarial local. Encontraram tanto a Universidade como as empresas a via certa para sobreviverem, para se reforçarem mutuamente e para se situarem no futuro.

A grande lição é que só há caminho com sucesso através da aplicação no trabalho, na inovação, na ciência e na consciência de que tudo repousa no esforço de cada um e no de todos. É preciso olhar continuamente para fora e ver como os outros resolvem os seus problemas. Devemo-nos deixar estimular pelo que eles fazem, mas procurar ganhar autonomia porque nos sentimos suficientemente confiantes no nosso próprio julgamento para sermos capazes de definir uma via original para prosseguirmos.

É essa confiança que eu desejo que nunca abandone a Universidade do Minho. Confiança nos seus conhecimentos, na apreciação das diversas vias por onde prosseguir, na capacidade para inventar futuros e na vontade de seguir um caminho que será sempre árduo, mas que se revelará compensado porque todos se hão de rever na sua ação e acreditar na justeza da via que escolheram.

Fonte: UMdicas

Fotos: Nuno Gonçalves

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