Laurinda Leite (11)
Entrevista.com, 05.01.2021 às 16:44
..."a minha principal preocupação é com a qualidade da formação que facultamos aos nossos estudantes"...
O UMdicas esteve à conversa com a Vice-reitora para a Educação que nos falou de si, da UMinho, do pelouro que lidera, do futuro... revelando que tinha consciência de que este seria um pelouro exigente, agora agravado pela pandemia.

Laurinda Leite é alumna da Universidade do Minho e Professora Catedrática do Instituto de Educação, desde 2004.

  • É Vice-reitora da UMinho com o pelouro da Educação desde novembro de 2018. De que modo estas novas funções impactaram sua vida quer pessoal quer profissional?

Têm sido tempos de constantes e renovados desafios, em que, profissionalmente, passei a concentrar-me, quase exclusivamente, nos assuntos da universidade afetos ao pelouro da Educação. O primeiro ano foi, naturalmente, um ano particularmente exigente porque tive que me familiarizar com o pelouro e que concluir os dossiers que estavam em curso. A par com isso, havia que não descurar os assuntos correntes, internos e externos, sendo que entre estes últimos se incluem os relativos a (re)acreditação e registo de cursos conferentes de grau - cerca de 60 por ano - junto da A3ES e da DGES. Quando aceitei, já tinha consciência de que seria um pelouro exigente!

 

  • Quais são os principais objetivos da vice-reitoria para a Educação em 2021?

Como disse no discurso de tomada de posse, a minha principal preocupação é com a qualidade da formação que facultamos aos nossos estudantes, sejam eles mais ou menos jovens. Temos que pugnar por facultar a formação de excelência, que eles merecem e que a UMinho, graças à qualidade dos seus recursos humanos e materiais, tem condições para dar. Mas, em minha opinião, a qualidade da formação não pode ser analisada de uma forma desligada da relevância da mesma. Por isso, o que pretendemos é contribuir para que, cada vez mais, a UMinho faculte uma formação de excelência, em áreas relevantes, e que seja internacionalmente reconhecida. Quando refiro a relevância, faço-o num sentido abrangente, que vai da saúde à qualidade de vida e do ambiente, da inovação tecnológica à cultura e ao lazer, dos interesses individuais aos sociais, do âmbito local ao global, etc. E quando falo no reconhecimento internacional estou a pensar, também, nos países mais avançados do mundo. Em articulação com a pró-reitoria para a internacionalização estamos a planear trabalhar no sentido de conseguir captar mais estudantes desses países, começando pelos cursos que são lecionados parcialmente em língua inglesa.

 

  • No âmbito da sua tutela, quais são os projetos/planos mais importantes a curto/médio prazo?

Há sempre muita coisa para fazer! Acabei de nomear um grupo de trabalho, no seio da Comissão Pedagógica do Senado, para fazer uma avaliação da Opção UMinho e pretendemos concluir este processo até abril, de modo a que os seus resultados tenham efeito em 2021/22. Os objetivos que presidiram à criação da Opção UMinho são muito relevantes para a formação dos nossos estudantes de 1.º ciclo e mestrado integrado e estão bastante alinhados com o que atualmente conhecemos como objetivos de desenvolvimento sustentável. Decorridos mais de 5 anos considerámos que era importante avaliar o grau de consecução dos objetivos com que foi criada, do ponto de vista dos intervenientes, docentes e discentes, e identificar eventuais necessidades de alteração.

Criámos, em articulação com a Pró-reitoria para a Investigação e Projetos, o Prémio de Iniciação à Investigação Cientifica que visa fomentar o interesse de estudantes, de 1.º ciclo e dos primeiros anos de mestrado integrado, pela investigação. Devido à pandemia, o prazo para conclusão dos projetos teve que ser adiado até ao final de 2020. Em janeiro organizaremos a apresentação dos resultados e a atribuição dos prémios e faremos uma análise do modo como correu a primeira edição para ponderarmos a eventual necessidade de rever o regulamento antes de abrimos a segunda edição.

No âmbito do processo de revisão do Regulamento Académico, reconcetualizámos a oferta educativa de cursos não conferentes de grau. Isso obriga a várias alterações que estão em curso e que esperamos concluir a curto prazo. Algumas Unidades Orgânicas já formularam as normas regulamentares que orientam a sua oferta de cursos breves não creditados e começaram a oferecê-los em conformidade. Também com as Unidades Orgânicas, iniciámos o processo de adequação ao previsto no RAUM dos cursos não conferentes de grau, creditados, existentes, na modalidade presencial e de ensino a distância. Um deles, na área da Psiquiatria em Medicina Geral, já está em funcionamento; outros, na área da optometria e ciências da visão e na área da engenharia de tecidos, entrarão em funcionamento, no início do ano, nas modalidades, de e-learning ou de b-learning. Esperamos consolidar este processo e ampliar a oferta, quer de curso breves creditados, quer de cursos de formação especializada (de nível 2.º ciclo) e de cursos de estudos avançados (de nível 3º ciclo) em 2021.

 

  • Estava previsto o lançamento de um programa de cursos breves, de nível superior, orientado para o desenvolvimento de competências profissionais avançadas. O que nos pode adiantar desta ação e dos seus propósitos?

Além da restruturação dos cursos que já tínhamos - a que me referi anteriormente - temos estado a trabalhar nisso, em articulação com a Pró-reitoria para a Avaliação Institucional e Projetos Especiais, juntamente com empresas e instituições da região. Pretendemos organizar cursos com os nossos parceiros, para responder às necessidades de qualificação ou de requalificação dos seus profissionais. Os cursos podem ser mais ou menos breves, consoante as necessidades de formação identificadas pelas empresas e os objetivos a alcançar com o curso. Neste momento, há alguns cursos já em fase avançada e que deverão ser aprovados pelas unidades orgânicas e pela Comissão Pedagógica do Senado no inicio do ano. A proposta de curso que está em fase mais avançada é um curso de formação especializada na área da Tecnologia de Fachadas e Envolventes de Edifícios. Este curso está a ser desenhado pelas Escolas de Engenharia e Arquitetura, em articulação com a empresa Bysteel.

Embora com um enquadramento diferente, penso que vale a pena referir dois cursos criados para responder a necessidades académicas especificas. Um exemplo, já a iniciar funcionamento, situa-se na área da Investigação em Psicologia e foi proposto pela EPsi para colmatar competências de investigação na área. Outro curso, que acabou de ser criado, em articulação com a Pró-reitoria para a Investigação e Projetos e com as unidades orgânicas - nove Unidades orgânicas - é um curso de formação especializada (com 30ECTS) em Fundamentos para a Investigação Cientifica. Este curso visa desenvolver competências na área da investigação e que tem como destinatários prioritários os candidatos a bolseiros, de qualquer área, que não inscritos em cursos conferentes de grau, e que, de acordo com as regras da FCT, só podem ser contratados se estiverem inscritos num curso que confira um diploma. No entanto, e como não poderia deixar de ser, o curso está aberto a outros interessados, internos ou extemos à UMinho. Este curso vai começar no início de janeiro.

 

  • Volvido um ano após a criação do Colégio Doutoral da UMinho, que balanço faz da sua atividade?

O Colégio Doutoral constituiu os seus órgãos, incluindo a Comissão Externa de Acompanhamento, e tem vindo a desenvolver normalmente a sua atividade, apesar dos constrangimentos impostos pela pandemia. Depois de um trabalho de reconhecimento das especificidades dos doutoramentos nas diversas áreas de conhecimento e unidades orgânicas, elaborou e está já a implementar um plano de formação, centrado em competências transversais, para doutorandos. Este plano teve uma enorme recetividade, preenchendo todas as vagas disponíveis. Ainda este mês, a Comissão Externa de Acompanhamento terá a primeira reunião, a qual constituirá uma oportunidade ímpar para consolidação da missão do Colégio. Acredito que o Colégio Doutoral dará uma contribuição importante para o aumento da qualidade da formação dos nossos estudantes de 3.º ciclo, não apenas pela formação que poderá disponibilizar, mas também pelo contributo que dará para a definição de padrões de qualidade dos trabalhos de doutoramento.

 

  • Face ao contexto pandémico que vivemos presentemente, como está a decorrer até ao momento este ano letivo 2020-2021 e quais os principais impactos na atividade pedagógica?

Não estamos a funcionar no modo normal; estamos a funcionar bem, no modo possível. Tentámos encontrar soluções de compromisso - sensíveis às especificidades dos diferentes cursos - entre a segurança de estudantes, docentes e funcionários e a qualidade da aprendizagem. Começámos a preparar tudo desde cedo, com as Unidades Orgânicas e com a Associação Académica, e, felizmente, não temos tido surtos de COVID-19, os quais seriam muito perturbadores. Em síntese, considero que o ano letivo está a decorrer com uma certa normalidade, graças a uma enorme cooperação de todas as partes envolvidas. Esse grande espirito de cooperação tem sido muito importante e tem evidenciado a grande dedicação dos nossos docentes e dos nossos estudantes.

 

  • Fruto da crise sanitária provocada pela Covid-19, grande parte do ensino está a ser ministrado à distância. Que avaliação faz desta experiência na UMinho?

Quando, em março passado, por indicação da Direção Geral da Saúde, tivemos que suspender as aulas presenciais, tivemos uma preocupação: não ter interrupção ou ter a menor interrupção possível nas atividades letivas. Não podíamos ter atividades presenciais; teríamos que ter atividades tecnologicamente mediadas. Não falámos em ensino à distância; não havia tempo para mudar da filosofia presencial para a filosofia do ensino a distância, que eu conheço bem, mas que também, por isso, sei que é exigente, especialmente para quem nela se inicia. Nessa altura, alguns professores fizeram um esforço monumental para se conseguirem adaptar à nova realidade. Quando percebemos que iriamos ter um 2020/21 diferente do habitual, quisemos que os docentes tivessem tempo e condições para se adaptar a essa realidade. Por isso, decidimos, em junho, como iria ser o presente ano letivo, para que os docentes pudessem reorganizar as suas unidades curriculares e, se assim o entendessem, pudessem, em julho ou em setembro, participar em ações de formação para ensino a distância, com cariz mais pedagógico ou mais tecnológico, disponibilizadas pelo IDEA ou pela USAAE, respetivamente.

 

  • Há estudantes na UMinho em situações de insucesso e abandono, designadamente por dificuldades financeiras? Estava previsto o desenvolvimento de novas medidas de apoio aos estudantes com dificuldades financeiras. Quer falar-nos um pouco do que tem sido feito nesta matéria?

A pandemia afetou negativamente as condições de vida de muitas famílias, nacionais e estrangeiras. Temos consciência disso. Por essa razão, foi reforçado o fundo social de emergência e foi criado um programa de apoio informático a estudantes da UMinho.

O fundo social de emergência apoia estudantes nacionais em situação de comprovada necessidade e, sob proposta da Provedora dos Estudante, pode apoiar, também, estudantes internacionais que se encontrem em dificuldade económica.

O programa de apoio informático, que foi coordenado pelo Pró-Reitor para a Avaliação Institucional e Projetos Especiais, contou com a colaboração de alumni e de empresas e permitiu que todos, sublinho todos, os estudantes que, no semestre passado, informaram ter necessidade de computador, internet ou câmara de vídeo pudessem ser apoiados com os equipamentos de que necessitavam para acompanharem as atividades letivas a distância. Este programa teve uma segunda edição no início do presente semestre, tendo sido apoiados perto de uma centena de estudantes.

Também nos preocupámos com os horários, tentando, sempre que possível, concentrar as aulas numa parte da semana, o que faz com que alguns estudantes não precisem de estar deslocados das suas residências, aspeto que se traduz numa redução de encargos.

 

  • Umas das grandes opções da UMinho tem sido na distinção da excelência dos seus estudantes. Porquê esta aposta?

Nós queremos que a UMinho seja reconhecida internacionalmente e acreditamos que os nossos estudantes são as pessoas melhor colocadas para levar o nome da UMinho aos quatro cantos do mundo. Isso só acontecerá se os nossos estudantes vierem a ser excelentes profissionais. Como dificilmente haverá excelentes profissionais se não tiver havido excelentes estudantes, consideramos que a atribuição de prémios de excelência é uma forma de reconhecer a qualidade dos nossos estudantes e de lhes agradecer antecipadamente o contributo que darão para o reconhecimento da universidade.

 

  • A UMinho tem investido na qualificação e capacitação pedagógica dos seus docentes. Que avaliação faz e que reflexos está a ter esta aposta?

As ações de formação, organizadas pelo IDEA, sob a coordenação do pró-reitor para os Assuntos Estudantis e Inovação Pedagógica, e, em alguns casos, em articulação com outras universidades, têm tido muito boa adesão por parte dos docentes. Contudo, não se dispõe, ainda, de informação sobre o seu real impacto nas práticas letivas dos docentes nelas envolvidos. Parece, no entanto, haver uma concordância generalizada de que as atividades, de natureza diversa, organizadas durante os meses em que as atividades letivas presenciais estiveram suspensas – durante a primeira vaga da pandemia - foram muito importantes para partilha de experiências entre docentes, que assim “aprendiam”, uns com os outros, a enfrentar as adversidades associadas à COVID-19 e a minimizar os seus efeitos na formação dos estudantes.

 

  • Uma das medidas do Plano de Ação 2017-2021 é melhorar as condições infraestruturais dos espaços de aprendizagem. O que foi e vai ser feito neste âmbito?

A melhoria das infraestruturas é um aspeto sempre mais complexo e lento do que desejaríamos, desde logo por questões orçamentais que a própria pandemia não veio facilitar. Contudo, e embora eu não seja a pessoa mais indicada para entrar em detalhes nesta matéria (é um assunto do pelouro da Qualidade de Vida e Infraestruturas), posso dizer que, em algumas áreas, com necessidades específicas e urgentes, tem havido progressos importantes. Disso são exemplo a área das artes visuais, que passou a beneficiar do aproveitamento de um espaço anexo à Escola de Arquitetura, da área do Teatro, que beneficiará das obras no Teatro Jordão, as quais estão a avançar a um ritmo muito bom, e da área da Enfermagem, caso em que está em curso a requalificação de espaços para fins laboratoriais, que, previsivelmente, entrarão em funcionamento no próximo semestre. 

 

  • Para 2019 - 2021 estava programada a reorganização da oferta educativa de 1º ciclo e mestrado integrado. Em que ponto de situação se encontra este dossier?

Sim, foi efetuada a reorganização de 14 mestrados integrados – 13 de Engenharia e um de Psicologia - que originaram 14 licenciaturas e 19 mestrados, alguns dos quais com áreas de especialização. Foi um trabalho realizado entre março e maio, durante o confinamento, o que exigiu um esforço acrescido das Presidentes dos Conselhos Pedagógicos das Escolas envolvidas e dos funcionários das mesmas, bem como do núcleo de acreditação. Já começaram a sair resultados da acreditação de alguns desses cursos – muito positivos – mas ainda faltam muitos.

A Escola de Economia e Gestão fez também uma restruturação global da sua oferta educativa e outras Escolas têm-na vindo a fazer aquando da autoavaliação que efetuam para fins de re-acreditação de cursos.

Num futuro próximo, será necessário analisar alguns cursos que têm vindo, repetidamente, a ter menos sucesso no concurso nacional de acesso ao ensino superior, de modo a perceber o tipo de intervenção de que necessitam.

 

  • Que mensagem gostaria de deixar à Academia?

Gostaria de dizer que a crise pandémica, apesar de todo o mal que trouxe ao mundo, serviu para evidenciar o espirito de missão dos membros da Academia e para mostrar o quão vibrante é a comunidade UMinho. Desde os que deram aulas a partir de casa, aos que receberam aulas em casa, aos que geriram a partir de casa, aos que, a partir de casa, garantiram que a máquina administrativa continuava a funcionar, aos que não puderam trabalhar a partir de casa porque tinham que garantir, in loco, que tudo o resto funcionava, todos merecem a minha admiração e a minha gratidão profunda.

Mas a Universidade do Minho é uma universidade de ensino presencial. Por isso, oxalá o novo ano nos traga uma vacina eficaz e possamos voltar ao nosso funcionamento normal, presencial, embora rentabilizando as aprendizagens, de diversa natureza, que fizemos no contexto pandémico, a bem da formação dos nossos estudantes, que são a razão de ser da Universidade.

Fonte: UMdicas

Arquivo de 2021