Rui_Veira_de_Castro (176)
Entrevista.com, 02.10.2020 às 09:59
Rui Vieira de Castro garante que a UMinho “está preparada” para um ano letivo atípico, mas será necessário da parte de todos a adoção de práticas e de comportamentos adequados.
Na abertura de mais um ano letivo e perante uma nova realidade, o UMdicas esteve à conversa com o Reitor da UMinho, Rui Vieira de Castro, que nos transmitiu que apesar do momento tão perturbador da vida coletiva e daquilo que é a normalidade de funcionamento de uma instituição, a Academia está preparada para este ano letivo atípico, garantindo que caso surjam casos de contaminação na comunidade académica, não se voltará a reagir da forma como se reagiu em março.

Vivemos, atualmente, uma nova realidade, a tão repetida e conhecida como “nova normalidade”. A Universidade está preparada para este novo ano letivo atípico? Como espera que seja o retorno à normalidade possível na UMinho?

Normalidade possível é uma boa expressão! A Universidade está preparada, no sentido em que se foi preparando, ao longo destes últimos meses, para circunstâncias que são imprevisíveis, difíceis e que rompem com aquilo que é o quotidiano da instituição. Relativamente a março, temos uma diferença importante, acumulamos bastante experiência ao longo destes meses, e já não estamos naquela situação de termos de lidar com um fenómeno que nos era desconhecido que foi socialmente pressentido como sendo muito ameaçador. Hoje, sabemos mais sobre o vírus e sabemos mais sobre o modo de lidar com ele. Isso permitiu-nos desde há uns meses, começar a preparar este novo ano letivo. Este processo de preparação tem, evidentemente, uma componente importante, na organização dos espaços (hoje quando entramos nos nossos campi e nos nossos edifícios vemos sinalética distinta e profusa dentro dos edifícios, vamos ter um número menor de pessoas, vamos ter regras diferentes de comportamento dentro desses espaços).Essa preparação foi feita, o nosso plano de contingência foi atualizado, tem havido variadíssimas reuniões no sentido de assegurar uma progressiva internalização por parte da nossa universidade destas novas regras, mas, o difícil vem agora! O desafio agora é, como é que nós (comunidade académica) nos vamos coletivamente comportar, como é que vamos atuar. O facto de ter havido um planeamento, não nos dispensa de uma enorme e continuada atenção àquilo que será o modo como vamos estar na Universidade. Nessa medida, o que estamos a desenvolver há já umas semanas, é uma campanha muito orientada para as novas condições em que o novo ano letivo vai ter lugar (com apelos, chamadas de atenção, mobilização das pessoas no sentido de serem adotados novos comportamentos).

Aquilo que era passível de ser planeado, foi planeado. Mas isso não vai ser suficiente para termos um ano dentro da “normalidade” condicionada que vai ser a nossa. Vai ser necessário envolver, mobilizar, apelar às pessoas para a adoção de práticas e comportamentos adequados. 

Com base no que aconteceu na quase totalidade do segundo semestre de 19/20, que balanço faz do efeito COVID-19 no desenvolvimento das atividades académicas?

Falando enquanto professor e estudante da UMinho, onde passei grande parte da minha vida, nunca vivi, nunca passei por nenhum momento tão perturbador da nossa vida coletiva e daquilo que é a normalidade de funcionamento de uma instituição, como aquele que vivemos a partir de março. Estamos numa instituição em que a atividade de educação é uma atividade essencial, um eixo fundamental de atividade, e ao longo de 46 anos a atividade educativa da UMinho foi feita em regime presencial, é o modelo da Universidade. Subitamente, e em poucos dias, vimo-nos obrigados a interromper esse modo normal, aquele em que nós nos reconhecíamos, e substituí-lo por um outro. Isto foi uma mudança brutal no nosso modo de vida dentro da organização. Se associarmos a isso, o facto de termos tido de colocar um larguíssimo número dos nossos trabalhadores em trabalho à distância, se adicionar ainda que a nossa atividade de investigação ficou fortemente condicionada por regras que têm a ver com distância física entre pessoas, se considerar que tudo à nossa volta, todas as instituições e organizações foram afetadas pela pandemia, nós percebemos a natureza da alteração a que a UMinho foi sujeita na sua atividade. O impacto foi de enorme dimensão e que nos levou a tomar decisões. Tivemos que verdadeiramente reinventar a Universidade, e tivemos de o fazer num tempo muito curto, de forma a continuar a assegurar a missão da instituição. Na resposta que demos aprendemos muito, hoje estamos muito mais fortes, muito mais preparados para responder a situações de emergência do que estávamos. Mas, o que me orienta e à Universidade, é a aspiração de voltarmos aos modos normais de funcionamento. Termos os nossos campi cheios de gente, com os nossos estudantes nas salas de aula, os nossos investigadores nos laboratórios, com as interações sociais continuadas, atividades de natureza cultural, desportiva, a funcionar em pleno, tudo aquilo que representa o nosso modo de entender a Universidade. Houve um severo impacto na nossa atividade, conseguimos reagir… as condições vão ser muito difíceis, mas temos de as enfrentar sempre na perspetiva de regressar aquilo que é o nosso modo próprio de entender a atividade da Universidade. 

Qual o impacto económico esperado do efeito da pandemia e quais as previsões para o ano letivo 2020-2021?

Os dados são conhecidos. Há uma queda do produto interno bruto enorme, uma redução acentuada da atividade económica, o fenómeno do desemprego a ganhar cada vez maior expressão e, naturalmente que a Universidade, como instituição que está ancorada numa sociedade concreta e num momento concreto, não é imune a essas mudanças!

O orçamento da UMinho resulta da conjugação de um determinado conjunto de fontes de receita. O dinheiro que utilizamos para pôr a Universidade a funcionar vem de transferências do Orçamento do Estado (que têm sido feitas com regularidade, até agora sem sobressaltos), resulta também das propinas que os nossos estudantes pagam e, aí, tem havido uma quebra de receita (ainda difícil neste momento de fixar em valores precisos). Resulta também daquilo que são prestações de serviço que os investigadores da Universidade fazem, e quando a atividade económica tem quebras, naturalmente as pessoas que requerem os serviços da Universidade, recorrem menos à instituição. Os projetos de investigação estão a decorrer no quadro de alguma normalidade. Portanto, há aqui fontes de financiamento que estão hoje mais débeis do que estavam!

Para o próximo ano letivo, temos uma perspetiva de quebra de receita, sobretudo, aquela que decorre dos estudantes internacionais. São estudantes cujo custo de propina se aproxima dos custos reais da sua formação e é evidente para todos neste momento que, vivendo-se o que se vive na Europa, na África, na América latina ou na Ásia, que são mercados importantes para o recrutamento de estudantes estrangeiros, verificada a turbulência que existe, estamos convictos, e já temos alguns dados, teremos uma quebra de 20% a 25% de estudantes estrangeiros, afetando também as receitas da Universidade.

Estando o país a viver uma crise económica e social, não é razoável pensar que a Universidade vai ficar imune a essa circunstância e, portanto, vai sofrer os efeitos dessa mesma crise que terão expressão financeira. 

Como vão ser recebidos os novos estudantes da UMinho, e que cenários de aulas estão previstos para o ano letivo que agora inicia? Quais as medidas previstas em caso de deteção de algum caso entre os estudantes?

Para um reitor, um dos momentos simbolicamente mais fortes no ano universitário é a chegada dos novos estudantes e a receção aos novos estudantes. A UMinho tem, desde há muito, a preocupação de tornar a receção dos novos estudantes um momento de festa, um momento marcante na vida dos estudantes, pois ele representa um ritual de passagem, um novo estatuto, uma etapa fundamental nos seus percursos de vida. Portanto, essa entrada na Universidade é sempre um momento de grande significado para todos. Evidentemente, este ano esse momento não pode ser replicado. Temos restrições relativamente ao distanciamento físico, um conjunto de cuidados que é necessário ter e isso vai-nos obrigar, obviamente, a colocar em novos termos a receção dos novos estudantes.

Este ano letivo, em relação às aulas, vamos ter um modelo misto, todos os nossos cursos vão ter componentes que vão ser lecionadas mais à distância e componentes lecionadas presencialmente, mas também assumimos que devemos dar especial atenção aos estudantes do 1.º ano. Esses estudantes têm uma expectativa do que é chegar à Universidade, sobre o que é ser estudante universitário, e essa expectativa, que não vai poder ser cumprida plenamente (vão ter de andar de máscara, não vão poder abraçar-se, tocar-se da forma que gostariam), impede-nos de fazer a receção que gostaríamos de fazer. Ainda assim, queremos dar uma atenção especial a esses alunos do 1.º ano, pois queremos dar a estes estudantes uma vinculação forte à Universidade, às Escolas, aos cursos a que estão associados. Portanto, temos de olhar para eles de uma forma diferente, proporcionar aos estudantes do 1.º ano uma aproximação àquilo que é a experiência de ser estudante universitário.

Outra opção é que tudo o que for trabalho de interação entre professores e estudantes, como o trabalho laboratorial, deve ser, até onde nos for possível, presencial. Mas, objetivamente, não temos condições para assegurar atividade presencial para todos os estudantes e para todos os professores. Isto porque as medidas de gestão de espaços a que estamos obrigados (retiraram-nos quase 50% da nossa capacidade de acolhimento nos espaços pedagógicos), sendo este o modo que encontramos de responder a esta circunstância, isto no que respeita à organização da atividade de ensino e aprendizagem. Depois, há um vasto conjunto de medidas que foram tomadas, que decorrem diretamente das normas da Direção-Geral de Saúde (DGS), que estão orientadas por um objetivo que é, para nós, enquanto Universidade e enquanto sociedade, essencial, que é cortar cadeias de transmissão do vírus, criar condições que evitem a sua propagação. Portanto, as diretivas que estão já disponíveis de organização dos vários espaços da Universidade são determinações que vão regular e condicionar muito a nossa vida. Temos de perceber que este conjunto de normas é uma condição muitíssimo importante para que possamos, enquanto comunidade e enquanto país, regressar àquilo que nós aspiramos, à nossa vida normal, em que as relações sociais tenham a natureza a que nós estamos habituados.

Até este momento, as orientações das autoridades de saúde e governamentais são bastante claras. Não vamos reagir da forma que reagimos em março. O confinamento teve efeitos muito severos na economia, na sociedade, nas pessoas. Há hoje a perceção de que o confinamento não pode ser a resposta a uma situação idêntica à que já vivemos. Portanto, estamos todos à procura de encontrar uma nova forma de conviver com o vírus, uma forma que tem de ser bastante defensiva e, por isso, há um conjunto de regras a que temos de estar sujeitos. Caso tenhamos situações de contaminação na nossa comunidade (e numa comunidade de 23 000 pessoas é muito provável que eles ocorram), temos de dar respostas que sejam adequadas. Qualquer medida mais expressiva, relativa à interrupção de atividades numa determinada turma ou num determinado curso, vai ter de passar pelo envolvimento das autoridades de saúde que vão ter um papel determinante para os procedimentos que devem ser seguidos nesses casos. Sendo certo que devemos estar preparados para a ocorrência de casos. Aquilo que temos acordado com as autoridades de saúde é que serão estas, no caso de casos concretos, que nos dirão qual é o procedimento a adotar. Não haverá uma predefinição, as situações serão determinadas caso a caso pelas autoridades de saúde. É a orientação que temos e é a orientação que queremos seguir, a decisão será das autoridades.  

Quais serão as principais normas adotadas para garantir o ensino e a avaliação presencial, e como vão ser garantidas as medidas de reforço do distanciamento físico, higienização e desinfeção das instalações?

O sucesso que nós venhamos a ter no combate à pandemia e, portanto, na preservação da instituição daquilo que são as ameaças ao seu funcionamento, vai depender muito de nós. Certamente que é fundamental ter regras, mas, tão fundamental quanto isso, é nós termos a consciência que todos somos potenciais alvos e potenciais transmissores do vírus. Há uma responsabilidade individual que não podemos alienar, vai passar pelo comportamento de cada um de nós.

Quanto às regras, a questão do distanciamento é essencial. É por isso que a ocupação das salas de aula, dos anfiteatros, dos laboratórios, vai ser diferente da que era até agora, preservando-se sempre os espaços entre as pessoas (um lugar entre cada pessoa). É por isso que definimos circuitos para a circulação das pessoas nos edifícios, é por isso que nas nossas cantinas estão a ser preparadas disposições que limitam o número de pessoas que podem lá estar, é por isso que nas bibliotecas acontece o mesmo, nos serviços há também regras que condicionam a nossa intervenção. Estas são as regras de gestão do espaço, vamos ter sentidos obrigatórios e sentidos proibidos.

Depois teremos também um reforço das medidas de higienização. Em junho, tomamos uma decisão importante no modo como nos vamos organizar neste novo ano letivo. Alocamos às unidades orgânicas espaços próprios de salas de aula, para além de que, tendencialmente, a determinada turma devia pertencer sempre o mesmo espaço, pois isto permite-nos detetar com maior facilidade as redes de contacto de uma pessoa que eventualmente fique infetada, e queremos também que as pessoas tenham posições fixas nas salas, pela mesma razão. A higienização dos espaços aqui é fundamental, a regra adotada é que cada espaço terá, duas vezes por dia, procedimentos de higienização, a qual se repetirá sempre que o espaço for ocupado por pessoas diferentes daquelas das que o ocupavam até então. Isto vai obrigar a um grande esforço de planeamento desta atividade e a um reforço das ações de limpeza e higienização. É uma condição importante, como é também a desinfeção das mãos com álcool gel, uma prática que queremos que se torne regular entre todos os membros da comunidade, estando a ser colocados dispensadores por toda a Universidade de forma a permitir que todos nós o possamos fazer, várias vezes por dia.

Há uma preocupação que é a dos aglomerados. Vamos fazer recomendações para que evitem essas situações, para que as pessoas se desloquem à Universidade, fundamentalmente, para as atividades que têm de realizar e depois voltem para casa, ou para as cantinas, ou para as bibliotecas. Tudo isto vai-nos obrigar a uma grande disciplina, práticas a que não estamos habituados, mas a minha expectativa é que todos percebam que isto é mais uma condição para que possamos regressar a uma situação de maior normalidade.  

Os Serviços de Acção Social sofreram, em 2020, um corte do financiamento transferido pela UMinho.  Para além disso, os Serviços estão a ter, em consequência da atual conjuntura e da ausência de estudantes e docentes nos campi numa parte substancial do ano económico, uma diminuição drástica nas receitas próprias. Que efeitos entende que estas situações possam ter na atividade dos SASUM e que cenários eventualmente compensatórios antevê para a sustentabilidade financeira destes Serviços?

Sobre os efeitos, evidentemente são negativos e penalizadores. A UMinho tomou há muitos anos, e, a meu ver bem, a opção que foi: a generalidade dos serviços prestados pelos SASUM devia ser prestada no quadro de serviço de ação social com pessoal próprio. Há universidades onde assim não é, o serviço é terceirizado, é prestado por entidades externas. Aquilo que vivemos com esta pandemia merece alguma reflexão sobre a bondade das soluções que foram adotadas num e noutro caso. É verdade que estamos a ser penalizados pelo facto de termos custos fixos elevados com o nosso pessoal, que foi sendo contratado na perspetiva de prestação de um determinado serviço e de uma receita advinda daí. Simplesmente, a partir do momento em que a comunidade académica não está nos campi para usar os serviços, por exemplo, os espaços e os serviços de refeição, nós perdemos essa receita. Foi e é isso que está a acontecer. Este facto está a trazer perdas importantes para os SASUM, os Serviços estão com perdas que se vão aproximar, no final do ano, de 1 milhão de euros. As instituições que terceirizavam este serviço estão confrontadas com situações que também são hoje muito complexas, designadamente, por incumprimento às empresas que estavam contratadas para prestar o serviço e que neste cenário de crise ficaram numa situação insustentável.

Dito isto, continuamos com perdas, mas continua a fazer sentido termos os Serviços com a filosofia que temos tido, porque ela nos tem garantido a qualidade que nos é reconhecida.

A Universidade, nos últimos anos, fez uma redução das transferências para os SASUM e ao fazê-lo, eu sabia que estava a exigir aos Serviços um esforço adicional de geração de receitas próprias. A verdade é que até à situação pandémica, estávamos num bom caminho, havia espaço ainda para a geração de receitas adicionais. Agora é claro que tudo isso fica em causa! Eu diria que os Serviços são Serviços de Acção Social da Universidade do Minho, os SAS, fazem parte do universo da UMinho, portanto, a Universidade vai ter de encontrar mecanismos que permitam reparar, na medida do possível, problemas que não decorrem da má gestão, decorrem, pura e simplesmente, da existência de um conjunto de existencialismos que não conseguíamos prever e que afetaram muito a nossa atividade. O que quero aqui dizer é que havia vozes que diziam que a redução do financiamento da UMinho aos SASUM iria significar uma quebra na qualidade do serviço prestado. Não foi isso que se verificou e os Serviços foram de facto capazes de encontrar novas fontes de receitas. Simplesmente, hoje estão confrontados com uma situação para a qual dificilmente se encontrará uma resposta que permita salvar o ano financeiro nos poucos meses que nos restam.

Ainda assim, os Serviços mantiveram sempre um nível de funcionamento (alimentação) que foi fundamental. Recordo que em março tínhamos mais de 80 estudantes nas nossas residências que estavam em quarentena e os SASUM foram absolutamente decisivos para que conseguíssemos assegurar a esses estudantes, condições de vida digna dentro das instalações. Os SASUM mantiveram sempre algum nível de laboração no setor alimentar que foi importante para apoiar, por exemplo, os investigadores que tivemos na Escola de Medicina, a trabalhar na realização de testes à COVID 19. Há um conjunto de práticas que os Serviços foram capazes de garantir. Falo também da decisão de manter a atividade desportiva durante o mês de agosto, com resultados, também, no plano financeiro. Portanto, os Serviços foram muito capazes de encontrar aqui, formas próprias de responder à situação difícil com que estavam e estão confrontados. Evidentemente, há limites nessa capacidade de resposta, estamos preparados para que 2020 seja um ano com exercício negativo por parte dos SASUM.

O que lhe posso dizer é que, no âmbito do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), tomamos uma iniciativa de fazer chegar à tutela estas situações imprevistas, não controláveis, e que se vão traduzir em resultados económicos negativos, mas que tem uma explicação muito clara.

A Universidade cá estará para desencadear os mecanismos que forem necessários para apoiar uns Serviços que foram essenciais para protagonizarem a resposta à crise pandémica. Lembro o facto de a Universidade ter disponibilizado a Residência Lloyd Braga para apoiar aquilo que as autoridades de saúde entendessem necessário (para receber doentes ou profissionais de saúde) durante um momento de maior aflição aqui na região. A excelente resposta que a Universidade deu não teria os mesmos contornos se não fossem os SASUM e isso a Universidade não pode esquecer! 

A questão do Alojamento dos estudantes universitários continua a colocar-se num cenário de grandes constrangimentos, agravados pelo atual contexto epidémico. Que preocupações adicionais se lhe colocam este ano, tendo em conta a nova realidade, e que soluções se aventam?

que tem maior número absoluto de camas, temos cerca de 1400 camas. Mas, somos também das universidades portuguesas que tem, com maior regularidade, maior número absoluto de bolseiros, anda sempre à volta dos 5000, 5500, 6000 bolseiros. Neste cenário, a nossa oferta atual de camas já era insuficiente. A situação de partida já era má, simplesmente, agora, tornou-se pior. Isto porque vamos ter de reduzir o número de camas, por efeito das orientações da DGS. Estamos a estimar uma perda à volta de 140 camas, fizemos um esforço muito grande de reorganização dos quartos de forma a manter, quando tal era possível, a distância entre camas requerida pela DGS. Portanto, tínhamos um problema que fica inevitavelmente agravado. Previsivelmente, vamos aumentar o número de estudantes de licenciatura e mestrado integrado, por efeito do alargamento das vagas, e este, é outro fator de agravamento.

Quais são as respostas que temos? Eu diria que são respostas insuficientes. O Governo anunciou, mesmo muito recentemente, uma iniciativa que envolve a possibilidade de recurso a alojamento local para ser colocado ao dispor dos estudantes. É uma medida que, quando olhamos para os dados, se orienta para prevenir situações muito críticas que se viverão em Lisboa e no Porto, mas o problema existe cá também!

Existem menos camas, existe algum défice de respostas destes potenciais parceiros, digamos que neste conjunto de medidas recentemente anunciadas, o que de facto tem de mais interessante é o facto do Estado financiar nestas relações com os detentores de unidades de alojamento local, de uma forma mais expressiva, os estudantes, com preços que rondarão entre os 220 euros para o concelho de Guimarães e 240 euros para Braga. Abre-se aqui uma possibilidade que é interessante, embora tardia. Mas mais que isso, é bom dizer que estas não são soluções de futuro. Respondem a uma situação de carência imediata, mas, num eventual cenário de reanimação da procura turística, estes equipamentos deixam uma vez mais de estar disponíveis. O que falta aqui é o que faltava há dois anos, quando foi anunciado um plano ambicioso para o alojamento de estudantes no ensino superior, em edifícios preparados para o efeito, e que até ao momento, pelo menos para a UMinho, produziu zero! Apesar do esforço que foi feito, de identificação de espaços, disponibilidade, da parte da Câmara de Guimarães, para comparticipar na reconstrução, no caso da escola de Sta Luzia. Mas não tem havido capacidade para resolver as situações! Desta forma, a situação que agora temos, é uma situação de remendo, não tendo havido capacidade de enfrentar, de um modo mais definitivo, o problema da carência de espaços de alojamento universitário. É bom que se tenha feito alguma coisa, é pena que se tenha feito tarde e, sobretudo, é pena que as soluções não sejam soluções para o futuro.  

De que forma se envolveu a UMinho, através dos seus grupos de investigação, no combate à epidemia provocada pelo Covid-19?

Se eu quisesse identificar uma área com impacto social naquilo que foi ação da Universidade durante a pandemia, a atividade dos nossos grupos de investigação seria absolutamente inultrapassável. Foram feitas ações que eu reputo de muito interessantes e de uma grande generosidade dos nossos investigadores. No momento em que havia alguma dificuldade com alguns produtos químicos necessários para as unidades do nosso SNS, quando havia necessidade de equipamentos de proteção que não estavam disponíveis no mercado, as nossas unidades disponibilizaram tudo o que tinham. Essa primeira resposta acabou por marcar, de certa forma, a maneira como a Universidade foi atuando. Enumerando alguns casos: primeiro, tivemos e continuamos a ter investigadores que estão na base de uma média de realização de cerca de 300 testes diários aqui na Universidade, pessoas que poderiam estar a dedicar o seu tempo à investigação ou aos seus projetos de vida pessoal e retiram esse tempo para apoiar uma resposta social e sanitária essencial e isso deixa-me muito orgulhoso. Como me deixa também o facto de unidades nossas terem passado a colaborar muito de perto com a indústria para produzirem objetos que nós usamos todos os dias (máscaras), na testagem de máscaras, no auxílio à conceção. Esta foi outra forma de intervenção. No ventilador Atena, desenvolvido pelo CEiiA, tivemos investigadores nossos do centro de medicina a trabalhar no projeto, nesta aplicação que agora temos nos nossos telemóveis, a STAYAWAY COVID, estão fortemente envolvidos investigadores da UMinho, para lá também do que fez o Centro de Medicina P5, ou a associação de Psicologia em prestação de cuidados de saúde, não só à nossa comunidade, como à população em geral. É um leque vasto de respostas que fomos capazes de dar, que nos dignifica, que testemunha o compromisso da Universidade com o bem-estar e com o desenvolvimento das nossas populações e que, mais uma vez, veio dar corpo àquela ideia de que a Universidade também existe para poder atuar de forma direta no desenvolvimento social e económico. Há de facto uma resposta de vários setores, a Universidade foi capaz de se desdobrar num conjunto de iniciativas e contribuir para uma resposta, que foi tão eficaz quanto possível, àquilo com que fomos confrontados.  

Como prevê o cenário no período pós-pandemia, concretamente naquilo que afetará as universidades e o ensino superior em geral?

Quando ainda estamos a viver a pandemia é difícil pensar o pós-pandemia, naquilo que poderão vir a ser os seus contornos. No caso da Universidade, o pós-pandemia vai ser obrigatoriamente diferente do pré-pandemia. Vai ter elementos de continuidade e vai ter elementos de rutura. Entre os elementos de continuidade, aquele que eu entendo que deve ser defendido até ao limite, é o da experiência académica, seja nas atividades de educação, seja nas atividades de investigação, seja nas atividades de interação com a sociedade, como atividade que envolve relações de proximidade entre pessoas. Nesse pós-pandemia, o presencial tem que ser central na atividade da Universidade. Mas é verdade que nós aprendemos outros modos de fazer, outros modos de atuar, outros modos de trabalhar. Tem-se falado muito do tema do teletrabalho e da importância que o teletrabalho pode vir a ter no nosso futuro como sociedades e como instituições. Não tenho dúvidas que há hoje funções que são realizadas no quadro presencial e que a crise pandémica veio mostrar que podem ser realizadas à distância. O que estou a dizer é que há componentes essenciais à atividade da Universidade que têm de envolver relações presenciais, mas há outros trabalhos, nos quais não incluo a atividade docente, nem a atividade de investigação, que podem ser realizados à distância. Portanto, a figura do regime de teletrabalho que está prevista no nosso Código de Trabalho, mas era absolutamente rara no contexto da UMinho, pode vir, provavelmente, a ser explorada no futuro. Portanto, o nosso futuro, desse ponto de vista, pode ser diferente do que é hoje. Ele pode também ser diferente porque houve um enorme acumular de experiência e de saber institucional de resposta a situações graves de crise. A única diferença desta crise é que ela não é apenas financeira, mas algo que afetou na raiz o modo de ser da Universidade, e nós aprendemos a lidar com estas situações, hoje estamos mais bem preparados. Temos hoje consolidada uma prática de formação de docentes que não existia antes, percebemos como a formação dos nossos docentes pode ser importante. Nesse futuro que estou a antecipar, vejo também aí alterações. Há práticas que, a meu ver, se vão alterar de forma significativa. Ao longo destes meses, experienciei situações muito difíceis, mas também situações muito gratificantes. Uma delas foi a de encontrar em muitos professores um “reganhar” de ânimo relativamente às funções da Universidade, um acréscimo de consciência sobre o papel social, cultural, económico e educativo da própria Universidade. As coisas vão ser diferentes. Só espero que essas não ponham em causa o essencial que deve ser permanente, que é o modo como nós interpretamos o nosso modelo de aprender e de ensinar e como entendemos o nosso modelo de produção de conhecimento.  

Que janelas de oportunidade antevê?

Eu esperaria que aquilo que se passou tenha tornado mais evidente, para a sociedade e para o poder político, a centralidade das universidades. Muitas das coisas que se fizeram foram possíveis porque havia universidades e porque havia conhecimento produzido pelas universidades. É bom que se olhe para as universidades e percebam quais são as reais dificuldades das universidades. A UMinho, se quiser responder a necessidades que tem de equipamento científico, de edificado, conservação do edificado, tem que ir às suas receitas próprias, que não são abundantes. É absolutamente necessário um plano de investimentos do país nas suas instituições de ensino superior. As universidades aprenderam muito neste processo e foram capazes de encontrar novos nexos, novas relações com entidades do sistema social e da economia. Por aqui se podem abrir as tais janelas de oportunidade. Mas, para que isto também seja possível, também é necessário que as universidades sejam dotadas de condições de base.  

Que mensagem gostaria de deixar à Comunidade Académica, nesta preparação de arranque do próximo ano letivo?

A mensagem que eu gostaria de deixar é uma mensagem de agradecimento por aquilo que foi feito. Lembro as primeiras declarações que fiz, naqueles primeiros dois dias de crise, que entendia que estávamos perante uma enorme ameaça às instituições, que o que estava a ser colocado em causa era aquilo que define a universidade. Superamos isto pelo esforço das pessoas, dos nossos estudantes, dos nossos professores, dos nossos profissionais que apoiam o ensino e a investigação. Foi isso que permitiu que superássemos esse desafio, demonstramos um grande sentido de responsabilidade, um grande sentido de reinvenção. Isto deve-se a este esforço, a esta disponibilidade, a este compromisso. A este agradecimento eu juntava outra palavra: confiança. Se fomos capazes de numa situação como aquela, reagir como reagimos, então devemos ter confiança em nós próprios, na nossa capacidade de enfrentar desafios muito sérios que vamos ter pela frente. Não é impunemente que se diz que estamos em vésperas de viver a pior crise das nossas vidas. Preparemo-nos para tempos difíceis, mas preparemo-nos com a confiança que advém da nossa capacidade de resposta aquilo que se passou até agora.

Uma palavra para os novos estudantes que chegam agora à nossa instituição, momento de grande valor simbólico para a Academia, que é quando esta se renova. São mais de 3000 pessoas que chegam cá, sem contar mestrados e doutoramentos, que são mais uns milhares. Para estes novos alunos que entram na Universidade pela primeira vez, a primeira mensagem é de boas-vindas e, depois, de compromisso da instituição com a criação de condições, de forma a podermos proporcionar as ferramentas que vão necessitar para construir percursos profissionais e pessoais mais felizes. A Universidade é capaz de proporcionar a todos os que a ela chegam, as melhores condições para um tempo tão importante quanto é a formação superior, esperando, naturalmente, que os novos estudantes se sintam também comprometidos com a sua opção, que se sintam comprometidos com a sua formação, com o curso em que ingressaram, com a sua Escola e com a Universidade. Também uma palavra de agradecimento aos estudantes e às suas famílias que decidiram escolher a UMinho para fazer a sua formação no ensino superior.

Fonte: SASUM

 

 

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