José Mendes-7
Entrevista.com, 29.07.2019 às 12:06
... “o nosso país é reconhecido internacionalmente pela liderança na ação climática”.
José Mendes é Secretário de Estado Adjunto e da Mobilidade desde 2015, tendo assumido o “compromisso de operar uma revolução no sistema de mobilidade”. Em entrevista ao UMDicas falou-nos do seu trabalho e não esqueceu a forte ligação à UMinho.

José Mendes é alumni e professor catedrático da Universidade do Minho. Olhando com “satisfação” para a preocupação que os Serviços de Acção Social da Universidade do Minho (SASUM) têm revelado com o tema da sustentabilidade, o governante assume que é importante envolver os jovens e os estudantes, pois, só dessa forma se conseguirá a tão necessária mudança de mentalidades.
Entre as muitas medidas tomadas pelo seu Governo, assinala a “redução dos tarifários do transporte público” como “a mais poderosa”, afirmando que “o nosso país é reconhecido internacionalmente pela liderança na ação climática”.

Portugal tem uma agenda sólida e conhecida no âmbito da mobilidade. Que balanço faz das medidas que têm sido levadas a cabo no âmbito do sistema nacional de mobilidade?
Quando tomei posse, no final de 2015, assumimos no Ministério o compromisso de operar uma revolução no sistema de mobilidade, começando pela descentralização das competências de autoridade de transporte para as áreas metropolitanas, as comunidades intermunicipais e os municípios. Depois atuámos sobre os diferentes modos, nomeadamente os modos partilhados, como o TVDE, vulgo Lei Uber, a modernização do setor do táxi, o modo ciclável e o transporte público. O programa de redução dos tarifários do transporte público, que arrancou este ano, é a mais poderosa medida, na perspetiva social e ambiental, que se operou em Portugal desde há muitas décadas.

Como é que pensa que será a mobilidade urbana no futuro?
Será seguramente partilhada, descarbonizada, conectada e tendencialmente autónoma. Ao nível da partilha, o transporte público terá de continuar a crescer, de forma que o número de automóveis a circular nas cidades decresça substancialmente. A posse de veículo privado vai reduzir-se muito, dando lugar à utilização partilhada. Os modos ativos, nomeadamente o ciclável, assumirão grande relevância em meio urbano, também como complemento do transporte público. Por fim, as motorizações elétricas, a bateria, híbridos plug-in e a hidrogénio operarão, junto com as bicicletas, a completa descarbonização do sistema, excluindo a aviação e a navegação.

A sustentabilidade é cada vez mais uma preocupação. Quais são os planos e projetos de maior relevo projetados para o país?
A melhor forma de garantir a sustentabilidade é equilibrar uma equação que é, na atualidade, muito desequilibrada: a utilização de recursos naturais e as externalidades socio-ambientais negativas são superiores, em várias ordens de grandeza, ao que o planeta Terra tem para oferecer e pode absorver. Para quebrar este ciclo é necessário, em primeiro lugar, substituir o paradigma linear por um paradigma circular na economia e, depois, reduzir as emissões de gases de efeito de estufa, que aceleram as alterações climáticas e os seus efeitos nefastos. Durante esta legislatura, foi criado o Fundo Ambiental, que disponibiliza hoje e nos próximos anos algumas centenas de milhões de euros, provenientes dos leilões de licenças de emissão de carbono, para financiar projetos tributários da sustentabilidade futura. Este é o instrumento de referência para este efeito.

É sabido, o mundo está em Emergência Climática. Porque é que Portugal ainda não o declarou oficialmente? Quando o fará?
Portugal já fez mais do que isso. Foi o primeiro país do mundo a assumir o objetivo político de atingir a neutralidade carbónica em 2050. Fê-lo em 2016 na COP22 em Marraquexe, apenas um ano após o Acordo de Paris. Mas não se ficou por aí. Desenvolveu já e aprovou em Conselho de Ministros o Roteiro da Neutralidade Carbónica 2050, que estabelece as trajetórias necessárias para, atuando nos setores da energia, indústria, edifícios, agricultura e florestas, resíduos e transportes, reduzir em 85% as emissões anuais de CO2. Isto significa que em 2050 deveremos ter apenas as emissões residuais que as nossas florestas poderão absorver. A declaração de Emergência Climática é uma figura de estilo, que não encerra em si qualquer utilidade. Na verdade, aqueles que o fizeram, como o Reino Unido, estão incomparavelmente atrasados em relação a Portugal no que toca ao combate às alterações climáticas, sendo que o nosso país é reconhecido internacionalmente pela liderança na ação climática.

Na sua opinião, investimos o suficiente na educação, na investigação, nas políticas de promoção da igualdade social e nas reformas necessárias para aperfeiçoar gradualmente as instituições do país e potenciar a necessária mudança de mentalidades?
A tarefa que se nos apresenta é gigantesca e demanda uma ação concertada e transversal. Todos estamos convocados para este desafio de combate às alterações climáticas: os indivíduos, as famílias, as empresas e instituições, as cidades e regiões e os governos locais e central. Nesta legislatura foram preparadas estratégias e feitos investimentos substanciais nos diferentes setores, especialmente através do Programa Operacional para a Sustentabilidade e Eficiência na Utilização de Recursos. A ciência tem um papel central e as academias como a Universidade do Minho podem aportar conhecimento e soluções para este desafio civilizacional. Seria importante que na escolha das estratégias e temas de investigação por parte dos Centros se olhasse para estas prioridades. Sabemos que na preparação do novo programa europeu de I&D os temas climáticos vão ter dotações reforçadas e, portanto, abrem-se oportunidades para os nossos investigadores. E, sim, é necessário investir na literacia climática, de forma a que se produza a necessária alteração de mentalidades.

Como tem visto as políticas de sustentabilidade implementadas pelos SASUM? Que outras áreas de intervenção é que proporia?
Vejo com muita satisfação que os SASUM, que geram uma atividade de grande volume e importância na UMinho, revelem esta preocupação com o tema da sustentabilidade e, mais do que isso, que passem à ação. O seu plano estratégico reflete bem essa opção. E no quotidiano, exemplos como a eliminação de copos de plástico, o destino de sobras de alimentos ou a redução da pegada ecológica dos recentes CNU mostram que levam a sério também esta missão, procurando envolver os estudantes e, assim, contribuir também para a alteração de mentalidades.

Foi – é… - professor e fez parte de duas equipas reitorais da Universidade do Minho. Qual a motivação para enveredar pela política?
A minha vida profissional foi sobretudo dedicada à Universidade do Minho, onde sou muito orgulhosamente professor catedrático e onde assumi responsabilidades institucionais ao nível do Departamento, da Escola de Engenharia e da Reitoria. Acresce que sou também alumni, porque aqui me formei. Por diversas vezes fui desafiado para a política, mas só em 2015, após convite do Ministro do Ambiente e do Primeiro Ministro, entendi estarem criadas as condições para assumir um papel na governação do país, depois de ter servido a universidade por tantos anos e sempre dando o meu melhor.

Após esta experiência no governo, vê a vida política da mesma forma?
Estamos a completar uma legislatura de quatro anos, governando com base num acordo parlamentar que exigiu muito dos membros do governo. Todos aprendemos e, penso que é justo reconhecê-lo, foi possível inverter uma espiral negativa e empobrecedora que se tinha instalado em Portugal na anterior legislatura. O país está hoje bem melhor do que há quatro anos, embora saibamos que há que fazer ainda e sempre melhor. Pessoalmente, sinto-me honrado e realizado com o trabalho que fiz e com a oportunidade de, na qualidade de independente, ter sido desafiado para servir o meu país.

Que mensagem deixaria aos estudantes da Universidade do Minho?
Por ser professor, sou um permanente apaixonado pelos jovens, pela sua energia, vontade e capacidade de abraçar desafios e causas. Assim, aos estudantes desta nossa casa recordo que a formação é um processo abrangente, que não se reduz apenas às aulas e aos exames. Para além das obrigações académicas normais, mobilizem-se por causas que valham a pena. Sejam as causas ambientais, a ação climática, a mobilidade ciclável, a ajuda aos desfavorecidos, algo que faça alguém mais feliz ou que torne o nosso mundo mais vivível no futuro. É para mim claro que os jovens, como os estudantes desta academia, são os principais motores da mudança.

Texo: Ana Marques

Fotografia: Luís Leite

Arquivo de 2019