Célia Pais (3)
Entrevista.com, 06.05.2019 às 09:37
“... a nossa licenciatura é competitiva.”
O UMdicas esteve à conversa com Célia Pais, diretora da Licenciatura em Bioquímica, para quem ser diretora de curso é, essencialmente, coordenar e gerir no sentido do bom funcionamento do curso. Assumindo a licenciatura como de “reconhecido sucesso na UMinho”, a diretora assinala que existe trabalho na área, mas que os recém-formados devem estar preparados não só para sair da região, como de Portugal.


Qual a sua formação e trajeto académico?

Sou licenciada em Biologia pela Universidade de Coimbra. Escolhi o ramo científico e, ainda não tinha terminado a licenciatura, fui convidada a lecionar no Departamento de Biologia da Universidade do Minho (UMinho), onde entrei como assistente estagiária. A Universidade era muito nova, dinâmica, estava a começar, a Unidade Pedagógica de Ciências Exatas e da Natureza tinha sido recentemente criada e os diferentes departamentos estavam em pleno desenvolvimento e necessitavam de novos docentes. Dois anos depois, tive uma bolsa do então INIC (Instituto Nacional de Investigação Científica) para fazer o doutoramento e rumei a Inglaterra para estudar no Imperial College, em Londres. Este contacto com outros laboratórios e outras realidades académicas foi muito estimulante e contribuiu de forma decisiva para o desenvolvimento do meu percurso científico. Fiz lá uma pós-graduação e iniciei o trabalho de doutoramento, que depois vim terminar na Universidade de Coimbra. Ao fim de quatro anos regressei à UMinho e fiz aqui todo o meu percurso até ao momento. 

Como caracteriza a sua função de diretora de curso?

Um diretor de curso tem como missão, de uma forma lata, assegurar o bom funcionamento do curso, ou seja, ser um coordenador. Mas essa não é uma função apenas do diretor, é uma função da comissão de curso, que é constituída por docentes e estudantes, em paridade. No caso da licenciatura em Bioquímica, que nasceu de uma proposta conjunta dos Departamentos de Química e de Biologia, esta comissão tem representantes dos dois departamentos principais envolvidos na licenciatura e ainda um representante do Departamento de Matemática que tem uma componente significativa na estrutura curricular do curso. A comissão conta ainda com um estudante representante de cada ano do curso, com exceção do terceiro ano que tem dois representantes. A comissão reúne regularmente para se discutirem e resolveram problemas relacionados com funcionamento do curso e acompanhar os estudantes em tudo o que eles solicitem.
O diretor tem ainda a seu cargo a organização e elaboração anual do Relatório de Curso, um documento onde se analisam os pontos fortes e fracos do funcionamento do curso, bem como o aproveitamento escolar e se propõem alguns critérios orientadores para um bom funcionamento.


O que a motivou a aceitar “comandar” este curso?

Eu penso que “comandar” aqui é uma palavra muito forte. A direção é uma tarefa mais de coordenação e gestão de eventuais problemas do que propriamente de “comando”. Sendo uma licenciatura partilhada entre dois departamentos, a direção do curso é rotativa entre o Departamento de Química e o Departamento de Biologia, sendo o mandato do diretor de dois anos letivos. Eu estive ligada à licenciatura desde a sua criação, dou aulas aos estudantes do primeiro e do segundo ano do curso, conheço bem o funcionamento do curso que tenho acompanhado ao longo dos últimos dez anos. É um cargo que nos vai calhando a todos, não é algo muito específico.


As experiências anteriores têm-na ajudado no cumprimento da sua função de diretora de curso?

Sim, claro. Durante o meu percurso académico estive ligada ao lançamento de um outro curso da responsabilidade doDB e da qual fui diretora durante 4 anos. É sempre uma tarefa mais desafiadora quando se trata do lançamento de um curso, em que tudo é novo, do que quando já funcionamos em “velocidade de cruzeiro”. No entanto, os tempos mudam e há sempre novos desafios e novos problemas para resolver, mas a experiência adquirida anteriormente naturalmente que ajuda. 

Quais são as maiores dificuldades no cumprimento da sua função?

Posso afirmar que não tenho tido dificuldades de maior no cumprimento desta função. Apesar de existirem pontualmente pequenos problemas, como é natural, a licenciatura em Bioquímica é uma licenciatura de reconhecido sucesso na UMinho. Nesta licenciatura eu não falo de dificuldades, os estudantes são empenhados, colaboram, são ambiciosos no bom sentido e, de uma forma geral destacam-se pela positiva. Há sempre problemas pontuais, mas que de um ano para o outro são detetados e resolvidos. Felizmente não há problemas de maior na gestão desta licenciatura.


No seu entender, por que é que um futuro universitário deve concorrer à Licenciatura em Bioquímica?

Se for uma pessoa interessada nas áreas da Biologia, na Química, nas áreas de interface, na Biotecnologia, penso que a Bioquímica é uma licenciatura que, de facto, é capaz de dar resposta a essas solicitações. Os estudantes adquirem uma preparação abrangente nas áreas da biologia e da química e têm depois a interface da Bioquímica que os torna capazes de concorrer amestrados num grande leque de áreas cientificas pois têm, de facto, uma boa preparação de base para isso. Muitos alunos escolhem a Bioquímica como primeira opção, temos a sorte de ter alunos com uma média bastante elevada e, portanto, a nossa licenciatura é competitiva.


Quais são, na sua opinião os pontos fortes deste curso? E os pontos fracos?

Pode dizer-se que a licenciatura em Bioquímica é uma licenciatura de sucesso. Entre os pontos fortes posso destacar o corpo docente altamente qualificado e a relação de proximidade muito salutar entre estudantes e docentes. Sem dúvida, também, outro ponto forte desta licenciatura é a sua forte componente experimental, traduzida em várias unidades curriculares de carácter unicamente laboratorial. O facto de existir uma unidade curricular no último semestre de Projeto, permite-lhes trabalhar durante oito semanas completas num projeto experimental, isso também lhes dá, de facto, muito boa preparação. Saliento ainda o elevado sucesso escolar dos estudantes, sendo que cerca de 95% terminam a licenciatura nos três anos previstos, cerca de 20% com classificações entre os 16 e 18 valores, o que os torna bastante competitivos para o ingresso em cursos de mestrado e para a candidatura a bolsas, por exemplo.
Os pontos fracos estão mais relacionados com infraestruturas e com recursos humanos. Os espaços laboratoriais e equipamentos destinados ao ensino estão saturados, nomeadamente no departamento de Biologia, dificultando o desdobramento dos turnos práticos; há também um número de docentes insuficiente para garantir o desdobramento dos turnos e uma carência de técnicos de laboratório para apoiar a preparação das aulas e a segurança dos laboratórios.
Outro aspeto que gostaria de referir e que necessita de ser melhorado, é a internacionalização do curso que se reflete num fraco intercâmbio a nível de alunos ERASMUS.


O que caracteriza este curso da UMinho, relativamente aos cursos de Bioquímica de outras universidades?

Já existiam outras licenciaturas em Bioquímica quando a nossa licenciatura foi criada. Sendo as licenciaturas de três anos, há uma formação de base que é comum a todas. Não vou dizer que haja uma grande diferença na estrutura curricular entre a nossa e as outras licenciaturas. Talvez a componente experimental seja o carater diferencial da nossa licenciatura, apostamos bastante na formação laboratorial dos nossos estudantes.


Existem hoje em dia excesso de profissionais em determinadas áreas. O que podem esperar os alunos da Licenciatura em Bioquímica quanto ao mercado de trabalho?

Sem dúvida esse é um problema que se vive em muitas áreas. Uma vez que não existem disponíveis dados concretos sobre a empregabilidade dos licenciados em Bioquímica é difícil prever o que podem esperar os alunos quanto ao mercado de trabalho. Se considerarmos como emprego, o emprego científico, por exemplo, virtualmente não há desempregados. A maioria dos estudantes de bioquímica seguem para uma pós-graduação quando terminam a licenciatura, continuando muitos deles o seu percurso na UMinho em mestrados da Escola de Ciências, na Escola de Medicina e também na Escola de Engenharia, em particular na Engenharia Biológica. De acordo com alguns dados que possuímos, mais de metade do estudantes que completam o 2º ciclo de estudos prosseguem para um doutoramento inseridos em cursos doutorais nacionais e internacionais e, em menor número, há os que iniciam a sua vida profissional integrados em empresas no ramo da química, da indústria farmacêutica ou da biotecnologia.
O que lhes digo sempre é que existe trabalho, mas eles têm que estar preparados não só para sair da região, como de Portugal. Se tiverem este tipo de limitação é bem provável que tenham dificuldades.
Pelo conhecimento pessoal que possuo e que também me tem sido transmitida por vários outros docentes do curso, o desempenho dos graduados em bioquímica pela UMinho é considerado muito bom e a sua formação e capacidade de lidar com os problemas é bastante apreciada pelos empregadores. Temos alunos nossos em todos os cantos do mundo a trabalhar neste momento.


Quais são os maiores desafios de um recém-formado em Bioquímica?

Penso que os desafios de um recém-formado em Bioquímica não serão muito diferentes daqueles que enfrentam outros licenciados em áreas afins. Sendo os primeiros ciclos de estudos graduados, correspondentes às licenciaturas de apenas 3 anos de formação, a maioria dos alunos necessita de ingressar num segundo ciclo, correspondente ao mestrado, para completar a sua formação. Desta forma, um dos desafios desde logo é a concorrência dos alunos que vêm da Biologia ou Biologia Aplicada, por isso têm que ter boas classificações, uma boa performance ao longo do curso para ser bem-sucedidos. Escolher o projeto final de licenciatura é outro desafio, escolher que área seguir, uma vez que acham que escolhendo uma área ou outra podem ter mais ou menos dificuldade em arranjar trabalho. O que lhes digo sempre é que têm de seguir o sonho deles.


Quais são as prioridades do curso nos próximos tempos?

O atual plano de estudos foi recentemente avaliado e acreditado pela A3ES, sem recomendações de alteração, sendo esta acreditação válida até 2022. O plano de estudos foi reconhecido como “de elevada qualidade, capaz de atrair e formar bons alunos, motivados e interessados pela área da Bioquímica”. Nesta perspectiva, não estão previstas alterações de fundo durante este período.
Uma prioridade detetada será fortalecer o suporte da investigação ao ensino. Os docentes, quer do DB quer do DQ desenvolvem um excelente trabalho de investigação traduzido em numerosas publicações em revistas com um elevado factor de impacto e num elevado número de projetos de investigação nacionais e internacionais. Este facto tem um grande impacto na formação dos alunos, particularmente ao nível do desenvolvimento dos projetos de fim de curso. É nossa prioridade, portanto, transmitir o gosto e a motivação para a investigação científica.
Outra das prioridades será fomentar a ligação com o núcleo de estudantes de Bioquímica, o NEBQUM, um maior envolvimento na organização de jornadas, uma maior cooperação com no sentido de os incentivar para atividades mais culturais, um pouco mais abrangentes do que fazem atualmente, de forma a abrir-lhes mais os horizontes e dar-lhes competências que não apenas as científicas e pedagógicas de que eles podem tirar partido no seu futuro profissional.

Texto: Ana Coimbra

Fotografia: Nuno Gonçalves

Arquivo de 2019