Pontes (16)
Entrevista.com, 04.04.2019 às 16:14
"Não imaginava que esta parceria conseguisse ter a dimensão que neste momento possui "
A parceria entre a Bosch e a UMinho abriu um novo caminho nas relações entre a indústria e as instituições de ensino. António Pontes, Professor Associado da Escola de Engenharia da UMinho, é o coordenador desta parceria Universidade-Indústria que já permitiu desenvolver tecnologias de elevado grau de inovação com extrema relevância para o setor multimédia automóvel. O UMdicas esteve à conversa com o coordenador que define a parceria como uma das mais ambiciosas em Portugal entre uma Universidade e uma Empresa. Presentemente, já na terceira fase, a parceria conta com o maior investimento de sempre (ultrapassando os 110 milhões de euros), tendo alcançado ao longo destes anos um forte reconhecimento e sendo uma referência nacional e internacional.

Como surgiu esta parceria entre a Universidade do Minho e a Bosch Car Multimédia?
Esta parceria surgiu da determinação de ambas as partes em mudar o status quo da inovação e, em conjunto, alcançar desenvolvimento estratégico de nível nacional e internacional. O primeiro passo aconteceu em outubro de 2011 com a primeira reunião na Reitoria da Universidade do Minho, onde foi proposto realizar algo diferente e inovador em Portugal, na relação entre o mundo da indústria e o mundo académico.
A proposta foi aceite e iniciou-se uma parceria que leva já quase oito anos. No âmbito do protocolo de cooperação assinado em 2012 entre a UMinho e a Bosch Car Multimédia Portugal, foi submetido e posteriormente aprovado o primeiro projeto de I&DT e Inovação, intitulado HMIExcel (Human Machine Interface Excellence), que se enquadrava em três grandes áreas tecnológicas: eletrónica e instrumentação, tecnologias de informação e engenharia mecânica e de materiais. O projeto HMIExcel, que contou com um investimento de 19 milhões de euros, foi o ponto de partida para um dos maiores e ambiciosos projetos de investigação em copromoção, sob um desígnio de colaboração entre Universidade e Indústria numa escala única em Portugal.
Esta foi, e é, sem dúvida, uma das mais ambiciosas parcerias em Portugal entre uma Universidade e uma Empresa.

Em linhas gerais, em que consiste a parceria entre a UMinho e a Bosch?
A Universidade do Minho e a Bosch em Braga desenvolveram nos últimos anos um modelo de parceria singular e exemplar que é uma referência para a indústria e para a universidade. Esta parceria centra-se no desenvolvimento de novos produtos, soluções inovadoras e processos de fabrico, para o automóvel do futuro (autónomo, elétrico, amigo do ambiente, seguro, ...).
A Bosch e a UMinho combinam os seus pontos fortes, sendo que a Bosch acrescenta as especificações técnicas, o roadmap, e os processos de desenvolvimento do automóvel, considerando sempre os aspetos com aplicação industrial enquanto que a UMinho contribui com o amplo conhecimento científico, infraestrutura laboratorial e a experiência na execução e gestão de projetos, relevantes para os diversos projetos de inovação.
Esta cooperação já revelou e confirmou que é possível integrar o mundo académico e a realidade industrial com benefícios mútuos.

Qual o impacto deste projeto quer na UMinho quer na Bosch Car Multimedia e que grandes números estão, em cada fase, envolvidos e que destacaria? Quer referir algum(uns) resultado(s) mais visível (eis) (projetos, patentes, etc.), resultantes desta parceria?
Como referido antes, iniciamos a primeira fase da parceria com o Projeto HMIExcel (2013-2015), que consistiu em 14 subprojectos com um investimento total na ordem dos 19 milhões de euros.
Após a conclusão do primeiro projeto iniciamos de imediato a segunda fase da parceria com os Projetos INNOVCAR e iFACTORY (2015-2018) que consistiu em 30 subprojectos com um investimento superior a 54 milhões de euros.
Entre 2013 e 2018 esta parceria já contou com um investimento total na ordem dos 73 milhões de euros (cerca de
29,2 milhões de investimento UMinho) e já envolveu mais de 500 investigadores (licenciados, mestres e doutorados) que realizaram 570 relatórios técnicos, 104 publicações científicas e que participaram ativamente na submissão de 40 patentes.
Estes projetos reforçaram o posicionamento da Bosch em Braga como um centro de desenvolvimento.
A parceria tem tido um grande impacto na atividade científica e de promoção da inovação da Universidade, na qualificação
de equipas e de gestores de projetos de I&DT, em projetos de formação avançada, inclusivamente a nível doutoral, no reforço das infraestruturas de investigação traduzido, designadamente, na instalação do Done Lab: Laboratório de Manufatura Avançada de Produtos e Ferramentas.
Atualmente estamos na terceira fase da parceria, que é o maior investimento de sempre, ultrapassando os 110 milhões de euros e prevendo inovação efetiva na área da mobilidade do futuro.

No âmbito da UMinho, a parceria engloba diferentes centros de investigação e diferentes unidades orgânicas. Quais e como se concretiza e desenvolve esta interação?
Uma das mais valias da UMinho é a abrangência de conhecimentos e o conhecimento inter e multidisciplinar. Nesse sentido, no âmbito da parceria UMinho-Bosch, a Universidade do Minho aloca os seus melhores recursos humanos e técnicos ao serviço do conhecimento, desenvolvimento e inovação. A concretização desta interação é feita sempre com base nos desafios propostos pela Bosch, definimos as competências necessárias (por vezes de várias áreas do saber) e alocamos os recursos humanos e infraestruturas mais adequadas para dar resposta no mais curto espaço de tempo.
Os centros de investigação são um parceiro fundamental na prossecução dos objetivos propostos pois detêm conhecimento específico de cada área, e no conjunto conseguimos realizar a ligação ao meio com um conhecimento abrangente, diversificado e fundamentado cientificamente.
Para além dos diversos de centros de investigação alocados a algumas Escolas da Universidade do Minho, em especial a escola de Engenharia pelo número de centros envolvidos, a parceria conta ainda com o CVR (Centro de Valorização de Resíduos), CCG (Centro de Computação Gráfica), PIEP (Pólo de Investigação em Engenharia de Polímeros) e a TecMinho, como parceiros estratégicos no percurso de sucesso que temos vindo a desenvolver.

Quais as mais-valias que a Universidade retira desta parceria no que respeita à estratégia e qualidade da sua investigação, inovação e consequente impacto na sociedade?
A parceria Bosch-UMinho permitiu, antes de mais um reforço dos recursos humanos e de infraestrutura na vertente da investigação. Foi clara a aposta no aumento da qualidade da investigação que a UMinho realiza, o nível dos seus recursos humanos, recursos laboratoriais (nomeadamente o DONE Lab – que está instalado no Campus de Azurém e a criação do espaço Bosch no mesmo Campus), que permita a realização de uma investigação alinhada com os desafios do presente e do futuro.
Com a parceria foi possível provar que é praticável a coprodução de conhecimento entre as universidades e as empresas, capaz de gerar inovação e transformações tecnológicas, social e economicamente relevantes. A Universidade do Minho desempenhou um papel importante na promoção de emprego qualificado e de emprego científico, fator essencial da promoção do desenvolvimento do nosso país e, também, demonstrou que é possível assegurar a inovação, promover o crescimento da economia e o desenvolvimento sustentado no conhecimento.

Ao nível de impacto na dimensão Ensino, que aspetos ressaltaria no desenho de projetos pedagógicos, quer novos quer existentes?
Ao longo dos anos e no seguimento dos excelentes resultados alcançados, a parceria alcançou um forte reconhecimento e tornou-se numa referência nacional e internacional.
Hoje os alunos querem fazer parte da investigação dos projetos com a Bosch, porque têm a noção de que este trabalho em conjunto, os prepara melhor para a entrada no mercado de trabalho.
Por outro lado, a UMinho e a Bosch têm a decorrer o Programa Doutoral em Sistemas Avançados de Engenharia para a Indústria, que é um exemplo de como se pode formar pessoas com doutoramento, com temas relevantes para a indústria.
Muito em breve também iremos avançar com a Academia Bosch-UMinho, com o apoio do Compete, que pretende capacitar colaboradores das empresas em assuntos importantes para a sua atividade.
Não menos importante é a própria capacitação dos docentes que ao participarem nos projetos de Inovação usufruem de uma experiência enriquecida do saber fazer e contactam com o roadmap da mobilidade do futuro. O contacto com o que de melhor se faz na indústria automóvel é certamente uma mais-valia para as aulas, com experiências na primeira pessoa, possibilitando uma frutifica passagem do conhecimento para os alunos.
Este posicionamento da UMinho permite que estes projetos sejam uma preciosa fonte de criação de conhecimento e tecnologia para as atuais e futuras gerações.

E ao nível de perspetivas de transição para o mercado de trabalho/empregabilidade dos nossos estudantes finalistas e recém-diplomados? Este é um projeto aliciante para os atuais e futuros alunos?
Sem dúvida. Atualmente, os alunos de engenharia já reconhecem o potencial dos projetos UMinho-Bosch e procuram saber mais informações acerca do funcionamento da parceria.
Os alunos que dedicam as suas dissertações de mestrado e doutoramento no âmbito da parceria, começam desde logo a desenvolver o seu trabalho em contexto industrial, com muito tempo passado entre a Universidade e a Empresa.
Isso é, sem dúvida, uma preparação antecipada para aquilo que os alunos podem esperar quando ingressarem no mercado de trabalho.
O f a c t o d e c o n h e c e r em antecipadamente o contexto e lidarem com o dia a dia industrial torna estes alunos mais bem preparados no momento de abraçarem uma carreira profissional.
Aliás, muitos dos alunos, ainda durante o ciclo de vida dos projetos, mal terminam a sua formação académica, são convidados a trabalhar para a Bosch.
Até ao momento já foram mais de 100 os alunos/investigadores contratados pela Bosch.

Qual é, na sua opinião, o segredo do sucesso desta parceria?
Para além do muito trabalho que é necessário para manter ativa esta parceria, a sinergia entre a experiência, organização e conhecimento dos colaboradores da Bosch em conjunto com a competência, dedicação e criatividade dos investigadores da UMinho é um fator chave para o sucesso desta parceria.
Para além da cumplicidade entre os elementos das equipas dos projetos, é notório o alinhamento e entendimento que existe entre a administração da Bosch, a Reitoria da Universidade do Minho e demais elementos que constituem a comissão de acompanhamento da parceria.
Não é uma tarefa fácil, mas é possível porque toda a estrutura de governação está assente em alicerces seguros e bem sustentados pelas pessoas que compõem esta parceria e o trabalho em equipa é o grande segredo para o sucesso alcançado.

Há espaço para evoluir (ainda) mais. Em que sentido(s)?
Eu quero acreditar que sim. A parceria já tem 6 anos, com 2 fases concluídas, mas muito mais ainda poderemos fazer.
A terceira fase também está em curso. Três novos projetos com assinatura dos seus contratos em 2019, são um recorde de investimento e são a prova da relação consolidada entre a UMinho e a Bosch, com vontade de evoluir em conjunto de forma permanente. A nova fase da parceria contempla os projetos Easy Ride (Experience is Everything), Sensible Car (Sensores inteligentes para a Condução Autónoma) e Factory of Future (Smart Manufacturing) que preveem um investimento que ultrapassa os 110 milhões de euros.
Mas podemos ainda evoluir mais. Exemplo é a iniciativa clube de fornecedores da Bosch que decorre da necessidade da Bosch em encontrar fornecedores capacitados em Portugal.
No âmbito desta iniciativa a UMinho, CCG, PIEP, Centi e INL, submeteram muito recentemente 34 projetos (I&DT, Inovação produtiva e qualificação PME,) em parceria com 29 potenciais fornecedores de produtos ou tecnologias.
Iremos ainda avançar com a capacitação de recursos humanos. Em breve a Academia Bosch-UMinho irá nascer....

Entende ser este modelo o caminho a seguir pelas universidades?
Este é um modelo possível e validado, na construção de uma sociedade de ensino mais bem preparada para as necessidades do contexto do mercado empresarial e industrial. Quanto melhor prepararmos os nossos estudantes, mais perto estamos de um caminho alicerçado em conhecimento sustentado e efetivo, com aplicação imediata de conhecimento académico ao contexto profissional. Em termos de geração de conhecimento científico e melhoria das condições de investigação, também é possível demonstrar que os projetos multidisciplinares de I&DT com Inovação são um caminho possível a seguir. Na parceria com a Bosch foi possível criar conhecimento com impacto económico, emprego qualificado, melhorar a preparação dos docentes para a coordenação de projetos de I&DT e ainda apresentar resultados científicos relevantes, 40 patentes e 104 publicações cientificas.

Como tem sido a experiência de coordenar a maior parceria universidade-indústria em Portugal? No essencial qual é o seu papel?
Quando participei no início processo de estabelecimento da parceria, não imaginava que esta parceria conseguisse ter a dimensão que neste momento possui. Estamos neste momento na terceira fase da parceria. Os resultados obtidos nas duas primeiras fases são excelentes, e conseguimos ainda promover e dinamizar uma iniciativa que me dá muita satisfação, que é o Clube de Fornecedores da Bosch. Tem sido uma experiência fantástica trabalhar com todas as pessoas envolvidas e sinto que os investimentos abrangidos estão a promover mais emprego e a ajudar a Universidade do Minho a afirmar-se como uma instituição essencial para desenvolvimento cultural, social e económico das pessoas, no território onde se insere e no país.
O meu papel tem sido fundamentalmente o de dinamizar e manter viva a parceria. Sempre que necessário usar a minha experiência, de cerca de 20 anos a trabalhar em projetos de I&DT e de Inovação com a indústria (já são mais de 35 projetos nacionais ou europeus em que participei ou fui responsável), e promover o envolvimento dos diversos docentes e investigadores, trazendo para a parceria as suas competências.

Uma mensagem para quem ambiciona desenvolver trabalho na área de investigação de inovação automóvel?
A primeira condição para quem quer desenvolver investigação, pessoas ou empresas, com retorno económico e criar inovação na área da mobilidade do futuro, é sem dúvida a dedicação e empenho pela procura de conhecimento e de soluções inovadoras. A segunda condição é que estejam propensos a aprender, evoluir e acrescentar valor.
Para criar Inovação no sector automóvel é necessário estar muito bem informado sobre o seu roadmap. É um sector que tem sido a “locomotiva” da inovação no meio industrial, mas que necessita de conhecimento transversal e multidisciplinar. Acredito que é por esta razão que as universidades e suas interfaces (centros de conhecimento multidisciplinar por excelência) são os melhores parceiros para quem quer inovar nesta área.

Texto: Ana Coimbra

Fotografia: Nuno Gonçalves

Arquivo de 2019