ReitorRV2019 BW(3)
Entrevista.com, 06.03.2019 às 12:02
"(...) devemos estar orgulhosos daquilo que conseguimos fazer (...)"
Após um ano de mandato (feito em novembro) à frente dos destinos da Universidade do Minho (UMinho), Rui Vieira de Castro assevera que a Academia é uma “instituição decisiva para o futuro do nosso país”, uma referência nacional e internacionalmente reconhecida e, por isso mesmo, deve ser motivo de orgulho e confiança. O UMdicas esteve à conversa com o Reitor que nos fez um balanço do primeiro ano de mandato, apontou caminhos e traçou metas para o futuro da Academia.

Completou o seu primeiro ano de mandato como Reitor da Universidade do Minho em novembro passado. Do Plano de Ação para o Quadriénio que apresentou em sede de Conselho Geral, resultou o Plano de Atividades para o ano de 2018. Qual o grau de execução e que atividades, neste âmbito, destacaria?

Um plano é sempre um plano, uma projeção relativamente a um conjunto de iniciativas ou ações que se pretende ver concretizadas. Por isso a sua execução está sujeita àquilo que são as situações de circunstância, que ora podem obstaculizar que certas iniciativas previstas se concretizem, ora podem fazer emergir necessidade de novas iniciativas.
O grau de execução daquilo que o Reitor e a sua equipa tinham previsto no Plano de Atividades, foi, do meu ponto de vista, bastante interessante.
Havia um objetivo importante para uma equipa reitoral que toma posse quase imediatamente após a publicação dos novos Estatutos da Universidade, que era pôr no terreno os elementos novos constantes dos Estatutos, designadamente naquilo que diz respeito à orgânica da própria Universidade. Aí tínhamos um dado novo, um dado importante, que era a criação de uma nova unidade orgânica de investigação, a primeira da Universidade. De facto, a entrada em funcionamento pleno do I3B’s é um exemplo da operacionalização daquilo que estava previsto, como estava também prevista a entrada em funcionamento de dois novos órgãos, que são órgãos consultivos da Universidade, o Conselho de Presidentes das Unidades Orgânicas e o Conselho de Ética, bem como a tomada de posse do Provedor Institucional. Portanto, ao longo de 2018, foi possível responder adequadamente àquilo que eram novas soluções organizacionais previstas nos Estatutos.
Quero ainda referir algumas medidas que têm impacto, sobretudo ao nível dos recursos humanos, seja nos trabalhadores técnicos, administrativos e de gestão, seja ao nível dos investigadores que vêm provocar uma recomposição importante nos recursos humanos da Universidade.
Este Governo lançou um conjunto de medidas e lançou às instituições um conjunto de instrumentos, no quadro daquilo que se chamou o emprego científico, que se está a traduzir na chegada à Universidade de um número muito expressivo de investigadores, entre esses instrumentos está o decreto-lei que vem combater o trabalho precário existente entre investigadores e instituições. Entretanto a Universidade candidatou-se a outros instrumentos de capacitação institucional de forma a beneficiar de apoio à contratação de investigadores. Houve também um concurso individual onde os investigadores se propuseram a ser contratados. Basicamente, entre 2018 e início de 2019, vamos contratar cerca de 350 investigadores, um número muito importante e que significa, de facto, a chegada de gente jovem, de gente muito capaz e que vai criar uma circunstância absolutamente nova para a afirmação da UMinho na área da investigação.
Em relação aos recursos humanos houve ainda outro facto importante que foi a concretização do processo da regularização dos vínculos precários na Administração Pública. No âmbito dos SASUM foram integradas cerca de 30 pessoas e na Universidade iremos integrar cerca de 120. Estamos a falar de uma estabilização de relações que vai proporcionar a criação de novas condições de desenvolvimento da atividade das nossas Unidades de Serviço.
Olhando para a Educação, diria que aquilo que é marcante é a entrada em funcionamento de duas novas licenciaturas, pelas licenciaturas que são. A licenciatura em Artes Visuais vem completar o “arco” da nossa oferta educativa nessa área. O outro é o Curso de Proteção Civil e Gestão do Território, este veio concretizar aquilo que a UMinho gosta de fazer, que é explorar novas áreas de formação. Fá-lo num domínio em que claramente o país tem necessidades.
Quanto à investigação, assistimos a uma situação particularmente interessante no ano passado: conseguimos obter resultados muitíssimo interessantes de projetos que foram obtidos. Foram cerca de 250 os projetos financiados no ano passado, projetos que têm um volume de financiamento associado de 43,5 milhões, o que é um valor particularmente impressivo. A situação que temos na Universidade hoje é esta, cerca de 550 projetos em desenvolvimento e um financiamento que ronda os 153 milhões. Esta capacidade que a UMinho demonstrou é também um facto marcante de 2018 e nisto gostaria de destacar dois investigadores nossos que são jovens o Rogério Pirraco e o Agostinho Carvalho. Num outro plano, diria que o facto de a Universidade ter passado a ser sede de uma infraestrutura europeia de investigação na área dos recursos microbiológicos (MIRRI) é um dado particularmente importante.
A nível da interação com a sociedade, conseguiu-se criar uma circunstância que favorece o desenvolvimento da atividade rede Casas do Conhecimento, uma rede que agrega já um número muito significativo de autarquias. Constituem um elemento poderoso de articulação da Universidade com as populações do território que estão razoavelmente afastadas dos polos da Universidade, que estamos a procurar estender no âmbito de uma parceria com a Universidade de Évora. Foi possível garantir um financiamento adicional para este projeto que vai permitir dar-lhe outra solidez. A crença nessa solidez está a desencadear os mecanismos tendentes à constituição da Casa do Conhecimento como nova unidade cultural da Universidade.
Também a entrada em funcionamento regular de uma nova unidade diferenciada, que é Casa Sarmento, em Guimarães, que resulta de uma parceria entre a Universidade, a Câmara de Guimarães e a Sociedade Martins Sarmento.
Destacaria também a conclusão da 2ª fase do projeto UMinho/Bosch. Estamos a falar do projeto mais bem conseguido entre universidade e as empresas, um projeto que teve nesta 2ª fase um financiamento de cerca de 50 milhões e que se traduziu claramente em impactos na atividade económica da empresa e da nossa região e que se traduziu também na contratação acrescida de recursos humanos altamente qualificados.
A nível cultural, destacaria a abertura do Largo do Paço à sociedade, com a abertura da Galeria que tem sido um grande sucesso e que também testemunha a relevância desta iniciativa.
A nível da internacionalização, passamos pela primeira vez os 2000 alunos estrangeiros de grau, obtivemos muito bons resultados nos projetos de mobilidade de estudantes e celebrámos uma parceria estratégica com a Universidade de São Paulo.
A nível interno tivemos a revisão do Sistema Interno de Garantia da Qualidade, bem como o processo de avaliação dos docentes. A nível das infraestruturas, foi resolvido o problema das instalações do Departamento de Geografia.

Quais as principais ações/projetos e investimentos para o ano em curso?

Naturalmente que a questão dos recursos humanos e a sua integração continua a ser, para nós, essencial. Estamos a falar, a nível de investigação, da chegada de umas centenas de pessoas. E, quando uma determinada organização chega a tão elevado número de pessoas, esse é um facto que tem impactos a vários níveis. E, desde logo, impactos na própria organização da Universidade, nos serviços nas Unidades de Serviços que ela presta.
Esta chegada, vista sobretudo pelo lado dos investigadores, vai representar um incremento na atividade científica e vai requerer das nossas Unidades de Serviço, que estão constituídas como lugares de apoio à atividade dos investigadores, um exercício de reinvenção de si próprias para serem capazes de atender a estas novas necessidades. Nesta perspetiva, a discussão que lançámos em torno do regulamento das Unidades de Serviço vai ser particularmente importante. São aspetos da natureza mais organizacional, dos recursos, é uma espécie de pano de fundo em que a nossa atividade se desenvolve.
Relativamente às iniciativas pensadas para as várias áreas de atividade da Universidade, aquilo que eu esperaria como resultado maior da atividade da Universidade na área de Educação neste ano de 2019, seria a aprovação e entrada em funcionamento da Escola Doutoral.
Tem havido um conjunto de debates, de decisões, de deliberações, nos órgãos, mas a Escola Doutoral, a sua criação e a sua entrada em funcionamento, é para nós certamente um objetivo maior. A formação doutoral, hoje, confronta-se com múltiplos desafios. É objeto de atenção muito particular nas várias instituições, nas organizações das universidades, etc. Há uma grande preocupação com a formação. Temos também, obviamente, estas preocupações e vamos conduzindo a nossa própria reflexão. A expectativa é que a Escola Doutoral possa de facto, dar respostas produtivas a alguns dos desafios mais importantes que existem nesta área. Precisamos de repensar esta formação, desde logo e a partir do momento em que não estamos a falar de uma formação que exclusivamente alimenta o funcionamento do sistema científico.
Temos cada vez mais e felizmente, com impacto positivo, doutorados a trabalhar em outros setores que não o sistema científico propriamente dito. Essa é uma realidade nova para a qual a Escola Doutoral poderá ajudar a encontrar respostas.
Por outro lado, hoje, a questão da qualidade da formação doutoral, é muito crítica. A questão do recrutamento dos estudantes, a questão do acompanhamento dos graduados, dos doutores graduados na sua inserção no mercado de trabalho, é também uma questão pendente. Encontrar passos de geração de novos projetos doutorais é também uma preocupação nossa e, de certa forma, a este conjunto de preocupações, a Escola Doutoral pode responder de uma forma que esperamos que seja muito positiva.
Também na área da educação, devo mencionar outras duas iniciativas. Uma prende-se com uma aposta que queremos absolutamente forte, sólida, consolidada, com capacidade de envolvimento da comunidade, que é a formação dos nossos
docentes que tem constituído preocupação da Universidade. É verdade que vamos assistindo a mudanças significativas dos públicos que chegam à Universidade.
A oferta educativa é cada vez mais complexa, requer novas capacidades e novas competências. Estamos a fazer apostas, por exemplo, no ensino à distância que exige o desenvolvimento de novos saberes nos nossos docentes. Queremos que a universidade assuma a construção desses novos saberes como um objetivo seu. Portanto, a formação dos nossos docentes, através de um conjunto de iniciativas que se vão desenvolver em múltiplos formatos ao longo do ano, é qualquer coisa que será central na nossa atividade.
Depois, vamos também procurar refazer o modo como nos apresentamos e apresentamos a nossa oferta educativa à comunidade. Temos ensaiado várias soluções, participando regularmente em iniciativas de divulgação da oferta em feiras educativas, que são realizadas no Porto e em Lisboa. Já fizemos ensaios dessa natureza aqui na região, mas vamos avançar para uma iniciativa completamente diferente ou pelo menos largamente diferente daquilo que tem sido, associando, de uma forma muito mais incisiva, aquilo que é a mostra da nossa oferta educativa, a mostra do que a Universidade é. E, portanto, fundamentalmente, o que queremos é assumir a realização de um evento que significará abrir totalmente a Universidade ao exterior, mostrando a oferta educativa, mas também o que é a Universidade no seu funcionamento. A lógica é explorar aquilo que é uma marca também da própria Universidade, que se quer ser uma universidade aberta, com interação muito direta com os territórios, com as comunidades onde está inserida e mostrando-se totalmente. Mostrando a sua atividade de ensino, a sua atividade de investigação, a sua atividade cultural, a sua atividade desportiva, etc. Essa será uma grande aposta que vamos fazer este ano.
No domínio da investigação, diria que há dois grandes desafios: um tem a ver com o reequipamento científico e tem estado a ser negociada entre as universidades do Norte a CCDR, a abertura de uma call que permita atender àquilo que é uma necessidade que nós temos. Começamos a ter, em várias áreas científicas, equipamento obsoleto e precisamos, nesta perspetiva, de fazer um grande reinvestimento que será fundamental para nos mantermos na linha da frente da atividade de investigação em várias áreas. Esta será uma preocupação fundamental para nós. A outra será, naturalmente, aquilo que é habitual das candidaturas a projetos e da obtenção de bons resultados. Há necessidade de se avançar com a construção do novo edifício a que chamamos TERM HUB – uma hub em engenharia de tecidos e medicina regenerativa que será construído no AvePark, e que será uma infraestrutura certamente marcante para a atividade que, no âmbito do I3B’s, vem sendo desenvolvida.
Ao nível das infraestruturas de suporte à atividade de investigação, o centro multimédia continua a ser um objetivo que está na nossa mente e que precisamos de começar a concretizar este ano.
Para além disso, e ainda no plano da investigação, temos também no âmbito do UNorte PT, o consórcio entre as universidades do Norte, um programa integrado de investigação traduzido num conjunto de projetos que vão ser financiados no âmbito do Norte 2020.
Basicamente, na área da saúde, na área do mar e na área das ciências agrárias, que serão projetos estruturantes da atividade de investigação.
Olhando para a interação com a sociedade, no dia da Universidade iniciamos a atividade da Editora UMinho, altura em que foram lançadas as primeiras edições de livros e revistas, sendo nossa intenção consolidar a atividade desta Editora e o lançamento do Observatório de Políticas
Públicas.
Cabe à Universidade, um compromisso forte com a capacitação da opinião pública. A universidade não se pode alhear nos grandes debates que atravessam o nosso país, que atravessam a nossa sociedade, deve envolver-se nesses mesmos debates, promovendo uma cidadania mais informada. Este observatório de políticas públicas é para nós absolutamente importante.
No plano da internacionalização, o programa Erasmus, que está em desenvolvimento, prevê uma nova figura no contexto Europeu, que são as alianças das universidades. A realidade que se criou é a possibilidade de haver redes do ensino superior que se queiram articular em torno de terminada temática que garanta a defesa dos valores europeus e que garanta a mobilidade de estudantes, de professores, de trabalhadores, não necessariamente investigadores, e que garanta também essa articulação através de graus conjuntos. A nossa expectativa é primeiro concluir o período de candidatura e depois que ela seja uma candidatura vencedora.
Temos a expectativa de conseguir um bom resultado no programa. Tenho dito que, independentemente das relações internacionais que temos que estabelecer com universidades de outras geografias, como a Universidade de São Paulo, somos uma instituição que está localizada no espaço europeu do ensino superior, e é neste espaço que temos que encontrar os nossos principais parceiros. Neste processo de candidatura, as alianças das universidades permitem abrir novas pistas de operação, novas frentes de colaboração com universidades europeias. E este é um caminho que, de facto, temos que prosseguir.
Depois, na frente mais interna e mais organizacional, de facto eu diria que a conclusão do processo de reorganização das Unidades de Serviço é para nós um objetivo essencial.

Que importância atribui e que expectativas deposita nos Serviços de Ação Social (SASUM) no âmbito da prossecução da missão da universidade?

O país deve assumir - e eu acho que tem assumido - uma aposta no ensino superior. Apostar no ensino superior significa criar condições para que cada vez mais um número mais alargado de pessoas possa aceder ao ensino superior. Nós vivemos numa área que do ponto de vista socioeconómico continua a ter grandes debilidades e o papel da ação social é, aqui, fundamental. Não é suficiente um jovem chegar ao ensino superior. Essa é uma etapa importante, mas depois temos que perceber se somos capazes de criar as condições que garantam a sua permanência no ensino superior, pois muitas vezes vivem em situações de abandono, e criar circunstâncias que possibilitem também
um percurso de formação bem-sucedido.
Nós queremos formar bons estudantes, bons cidadãos e bons profissionais dentro da Universidade.
É reconhecido que a Universidade do Minho, mais de uma vez, teve o número absoluto mais elevado de bolseiros da ação social e isso reflete o que são as debilidades do tecido social que temos à nossa volta. Portanto, cumpre-nos criar as condições para que essas debilidades não afetem os percursos dos nossos estudantes e é aqui que, de facto, os Serviços [de Ação Social] ganham toda a sua relevância.
Não é apenas providenciando as condições de alimentação ou alojamento, tem que ser muito mais do que isso. Têm que proporcionar um conjunto de atividades que contribuam para aquilo que é a nossa ambição de permitir sempre a educação integral das pessoas e, desse ponto de vista, as práticas culturais e desportivas são absolutamente essenciais. Por isso, também, este modo como entendemos o serviço de ação social deve ser valorizado.
Os Serviços de Ação Social são isso, são o que a expressão diz: são serviços orientados para o apoio social predominantemente e preferencialmente, aos nossos estudantes. Portanto, a lógica que preside ao funcionamento dos SASUM não pode ser uma lógica de lucro, não é isso que nós procuramos com a atividade dos nossos serviços. É verdade que, no que respeita às transferências do Orçamento do Estado para os Serviços de Ação Social, se nós nos mantivéssemos apenas e só dependentes desse financiamento, veríamos a nossa atividade de apoio social fortemente constrangida. Temos um entendimento, que julgo ser o correto, no sentido em que percebemos que falar da ação social é falar de uma ação multidimensional. A atividade desportiva por exemplo, e a sua promoção, não é reconhecidamente alheia à atividade dos Serviços de Ação Social e tem sido assumida, e muito bem assumida, como uma vertente fundamental de atividades. Portanto, neste quadro, por um lado temos um financiamento que nos é atribuído, com o qual temos que trabalhar, mas que sabemos ser insuficiente para o desempenho da missão, tal como nós entendemos dos Serviços, sendo que temos que procurar fontes de financiamento alternativas, por exemplo, através da prestação de serviços que é feita pelos SAS.
Esta consideração de que por um lado o financiamento é menor do que aquilo que é desejado face ao que nós entendemos ser a complexidade e diversidade da ação dos serviços e, portanto, há uma necessidade de encontrar financiamento complementar, não devendo em caso algum, tornar o lucro como objetivo primeiro. São Serviços que, através de um conjunto de iniciativas que promovem, buscam criar nos nossos estudantes alvo primeiro- as condições necessárias para terem um bom desempenho académico e, nessa medida, corresponder às expectativas, primeiro, que as suas famílias nos colocam e, depois, que o próprio país nos coloca.

A UMinho registou, na sequência do último Concurso Nacional de Acesso, um aumento do seu número de alunos. Existe capacidade - e infraestruturas - para continuarmos a aumentar?

Os 800 alunos são 800 alunos globais e não só apenas do concurso nacional de acesso. No conjunto a Universidade passou a ter mais 800 estudantes, embora uma parte desse crescimento tenha tido a ver com a formação inicial. Mas esse é um problema. A pergunta supõe um diagnóstico e um diagnóstico que eu acho que é correto. A universidade começa a confrontar-se com dificuldades no acolhimento, em boas condições, que é aquilo que se espera, dos estudantes que chegam até nós. Este facto depois agrava-se em certas áreas de formação onde nós temos vindo a alargar o número de vagas e vai criando constrangimentos à própria Universidade.
A verdade é que o espaço é hoje um bem particularmente escasso dentro da Universidade. Não estamos propriamente numa situação de rotura, mas começamos a perceber que esta nossa capacidade de expansão em termos do número de estudantes que queremos aqui acolher tem limites. Naturalmente que aquilo que esperamos é que haja a compreensão desse facto, uma vez mais por parte do Estado. Hoje não há programas que sustentem a construção de novos edifícios e esta é uma matéria que nos preocupa porque, de algum modo, o alargamento da nossa capacidade de recrutamento requer necessariamente que se cuide das instalações e dos edifícios que temos disponíveis. E, como antes referi, não temos capacidade de dispor de apoios financeiros estatais à construção de novos edifícios, sobretudo edifícios que tenham uma utilização pedagógica.
Esse é um problema e uma preocupação grande e para a qual temos vindo a tentar sensibilizar os responsáveis.

Em relação à nova sede da AAUM – algum desenvolvimento que nos possa adiantar?

Tive recentemente numa reunião com o senhor presidente da Associação Académica e esse é um tópico que, invariavelmente, é colocado em cima da mesa - é um clássico, é verdadeiramente um clássico. A situação que se vive hoje é insustentável, o edifício da Rua D. Pedro V não tem condições de dignidade para acolher a sede de uma Associação Académica que, ainda por cima, gosta de se apresentar, e justamente, como uma associação moderna, e arejada e atenta àquilo que de novo vai acontecendo. As alternativas não são muitas, depois de um conjunto de cenários que foram sendo colocados em cima da mesa e que iam desde o edifício da fábrica Confiança até à Quinta dos Peões, etc…. Verdadeiramente, só vejo, neste momento, duas alternativas: uma delas já a coloquei aos estudantes. Há um espaço no campus que eu julgo que pode ser cedido à Associação.
Julgo que esta, naquilo que me têm dito, teria expetativas de uma localização tida como mais adequada. Essa solução é uma solução que supõe a cedência de terrenos à Universidade e, portanto, é um processo necessariamente mais moroso e de fim sempre incerto. Quando o Senhor Primeiro Ministro esteve na Universidade, tive ocasião de lhe dar conta da nossa pretensão de sermos beneficiários da cedência de terrenos que são contíguos ao campus de Gualtar. O Senhor presidente da Associação Académica sabe isso, julgo que ele terá alguma expetativa de que este processo chegue a bom termo e, se assim for, naturalmente, ter-se-á encontrado uma solução para a sede da Associação.
Agora, não é uma solução imediata, não é para amanhã. Eu compreendo as aspirações e acho-as absolutamente justas. Acho que o edifício da D. Pedro V não oferece hoje as condições de dignidade adequadas. As alternativas são: ou é no interior do campus, ou é, naquilo que pode ser uma eventual expansão do campus. Aqui a Associação tem uma palavra importante, eu diria quase decisiva, sobre esta matéria.

As universidades iniciarão em breve o processo tendente à extinção de grande parte dos Mestrados Integrados. Como antevê este processo e que perspetiva de implementação existe, quer na forma quer na duração do processo?

O decreto-lei sobre graus e diplomas que foi publicado já no ano passado, de facto, fixou de modo mais restritivo as áreas em que a figura do mestrado integrado pode operar e no que diz respeito à Universidade do Minho, ficou restrita a Escola de Medicina e a Escola de Arquitetura. O que significa que quer a Escola da Engenharia, quer a Escola de Psicologia vão ter que rever a sua oferta e estamos a falar de duas Escolas nas quais estas alterações vão ter um impacto importante.
A [Escola de] Psicologia tem no seu mestrado integrado o seu grande curso estruturante. Depois participa noutros cursos - por exemplo, na licenciatura em criminologia e de forma expressiva – mas é no mestrado integrado em Psicologia que está o maior número de estudantes e em que estão alocados mais ETI de docentes. A Escola de Engenharia tem, com exceção de uma licenciatura, toda a sua oferta inicial alicerçada em mestrados integrados, portanto, saber o que é que se vai fazer é premente. Claro que aqui essa decisão sobre o que é que se vai fazer vai depender de muitas variáveis, desde logo uma reflexão fundamental interna a cada uma dessas unidades orgânicas e que vai obrigar estas unidades a tomarem decisões sobre aquilo que pretendem com a sua oferta educativa, designadamente como é que vão articular aquilo que pode ser formações de banda mais larga ao nível da licenciatura e formações mais especializadas ao nível dos mestrados ou, se em algum caso, ou em todos os casos, pretendem manter uma solução que seja basicamente equivalente àquilo que temos hoje, não apenas por uma segmentação de licenciatura ou de mestrado.
Essas são decisões muito complexas que têm que ser muito bem pensadas, porque a verdade é que aquilo que nós oferecemos não é independente daquilo que as nossas universidades parceiras oferecem também e do modo como organizam os cursos que oferecem. Isso obriga então uma segunda frente. Temos uma espécie de frente interna daquilo que são os objetivos que se quer associar aos cursos da Escola e, depois, há uma frente externa que passa por perceber, entre as várias escolas de engenharias e as várias escolas de psicologia, quais são as soluções organizacionais curriculares que podem ser consideradas.
A minha expectativa maior é que se aproveite este momento para uma grande e intensa reflexão sobre a oferta educativa. É verdade que, ao nível da formação inicial, a oferta educativa na área de Engenharia está estável há muitos anos e não tem sofrido mutações significativas. Julgo que esta é uma ocasião excelente para se pensar de um modo novo a oferta educativa em Engenharia e é uma oferta que também não pode parar, obviamente, de garantir aquilo que são as condições necessárias ao exercício da profissão e não pode, também, descuidar aquilo que é uma necessidade que nós temos, que é alargar o nosso campo de recrutamento de estudantes estrangeiros. Julgo que essa pode ser uma boa circunstância para se pensar as respostas que nós queremos dar a uma procura que é cada vez mais intensa no ensino superior português por estudantes estrangeiros.

A UMinho é um dos grandes atores desta região com significativo impacto na sociedade. Como caracteriza a relação da UMinho com a Sociedade, nas suas várias dimensões: cultural, social e com as empresas?

Se eu quisesse encontrar uma marca distintiva da UMinho face às outras universidades, se procurasse uma marca provavelmente encontrá-la-ia aí, no modo como nós nos relacionamos com o exterior, no modo como interagimos com a sociedade, como interagimos com as várias organizações e instituições.
Isso é uma marca muito própria da Universidade. Não seria difícil encontrar a génese desta atitude no próprio ato de fundação da Universidade. Esta Universidade foi criada com um mandato, um mandato que era da contribuição para o desenvolvimento do país e da região, e a UMinho tem interpretado muito bem esse papel, desde logo aquilo que foi um exercício feito no início que era procurar áreas ainda não exploradas e que correspondam a necessidades do país e das pessoas. É na busca por uma investigação aplicada, capaz, numa mais direta apropriação por empresas - e basta ver o excelente portefólio de projetos que temos em colaboração com empresas; a própria atividade cultural muito intensa, não só protagonizada pelas unidades culturais, mas também pelas unidades orgânicas, pelos grupos culturais, pela Associação de Estudantes.
Há uma rede de relações intensíssima entre a Universidade e a sociedade, acho que somos verdadeiramente universidade em contínua interação com sociedade. É uma marca nossa que vamos reforçando em contínuo. A Universidade é um fator de desenvolvimento e deve assumir se como tal.

A Universidade em cooperação com os SASUM e a AAUM organizará em 2019, os Campeonatos Nacionais Universitários e o Europeu Universitário de Futsal. Quais as perspetivas para estes eventos?

Quero deixar aqui a minha satisfação pela organização desses dois eventos, pelo facto de aqui ocorrerem, de podermos ter entre nós estudantes nacionais e estudantes estrangeiros em número significativo, a oportunidade de eles nos conhecerem melhor e de nós os conhecermos é, em si, virtuosa. Estes eventos mostram também que, para a nossa Universidade, a prática desportiva está absolutamente enraizada e a competição desportiva ser algo que também já nos é natural. Depois, o que isto significa de reconhecimento de capacidade organizativa, que só se consegue criando um ambiente favorável à ocorrência destes eventos e dispondo das pessoas capazes de apoiar e protagonizar eventos que, do ponto de vista organizativo, são altamente complexos. Tudo isto são razões de satisfação. Como a Universidade, a AAUM, os SASUM estão muito rotinados na organização de grandes eventos, estou em crer que estes vão ser mais uma vez um sucesso organizativo. Isso será bom para a Universidade no seu conjunto. Este nosso envolvimento neste tipo de organizações, como também nas competições e na forma tão intensa como o fazemos – de tal forma que o ano passado ganhamos o prémio de Universidade Mais Ativa da Europa em Desporto - é também um bom indicador da internacionalização da Universidade. São razões que temos para estarmos satisfeitos, para estarmos confiantes e termos a certeza de que o que estamos a fazer corresponde de facto àquilo que é a missão da Universidade.

Uma mensagem que gostasse de deixar à Academia?

Se olharmos para história da Universidade e verificarmos o que a Universidade é hoje, percebemos que num caminho que muitas vezes teve muitas pedras no meio, devemos estar orgulhosos daquilo que conseguimos fazer, daquilo que as sucessivas levas de estudantes que
passaram pela Universidade conseguiram fazer, aquilo que os professores e investigadores conseguiram fazer, aquilo que os trabalhadores técnicos, administrativos e de gestão conseguiram fazer, e o que conseguimos fazer foi construir em 45 anos uma instituição de referência nacional e internacionalmente reconhecida. E isto deve ser motivo de orgulho. Depois deve ser também fator de confiança. Confiança em que, apesar das dificuldades que vamos tendo, vamos conseguir vencer essas dificuldades e cada vez mais seremos capazes de afirmar a Universidade do Minho como uma instituição decisiva para o futuro do nosso país.

Texto: Ana Coimbra
Fotografia: Nuno Gonçalves

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