Reis (20)
Entrevista.com, 05.02.2019 às 10:34
"É uma experiência de constante aprendizagem, em que me coloco à prova numa base diária."
Após um ano à frente da Associação Académica da Universidade do Minho (AAUMinho), Nuno Reis foi reeleito presidente no passado dia 5 de dezembro, com a tomada de posse a realizar-se a 6 de janeiro. Encarando este, como o maior desafio da sua vida, até ao momento, Nuno Reis não faz planos para o futuro, assumindo que pretende colocar em prática muitas das competências adquiridas enquanto Presidente da AAUMinho. O UMdicas esteve à conversa com o represente máximo dos estudantes, que nos deu a conhecer os planos, objetivos e lutas da Associação para 2019.

Venceste as últimas eleições com 86,14 % dos votos. O que significou para ti este resultado?

Encaro o resultado das últimas eleições como o reconhecimento do mérito do trabalho desenvolvido ao longo do mandato anterior e, simultaneamente, do projeto que encabecei na Lista A – Academia A Crescer. Foi um enorme reforço da confiança da comunidade estudantil neste projeto de continuidade.


Tomaste posse recentemente para um segundo mandato à frente da Associação Académica. Como tem sido a experiência de presidir a AAUM?

É uma experiência de constante aprendizagem, em que me coloco à prova numa base diária. A AAUM assume desígnios em múltiplas dimensões de atividade, pelo que presidir a esta instituição exige conseguir acompanhar o ritmo da atividade e a multiplicidade de funções que adquire em todos os seus eixos de missão. Sou constantemente chamado a decidir em áreas tão distintas como o desporto ou o empreendedorismo, muitas vezes de um minuto para o outro, e creio que é este exercício que me obriga a estar constantemente informado e atento. É o maior desafio da minha vida, até ao momento.


A ideia que tinhas do papel de presidente da Associação Académica, antes de o ocupares, era diferente da que tens agora?

Certamente que sim. Creio que é normal que assim seja. Mesmo fazendo parte da estrutura durante vários anos antes de ocupar o cargo, nunca soube bem o que seria a rotina de um presidente da AAUMinho, antes de a viver pessoalmente. A verdade é que os estudantes e os próprios dirigentes da AAUMinho tendem a conviver com uma figura de presidente que é muitas vezes mais próxima deles nas áreas com as quais mais lidam. Um estudante-atleta é capaz de reconhecer o trabalho desenvolvido pelo presidente e pela direção na área do desporto, assim como um dirigente de um núcleo é capaz de reconhecer esse trabalho na área do associativismo, mas poucos, senão apenas aqueles que ocuparam o cargo, conseguem entender a multiplicidade de papéis que se exige que um presidente da AAUMinho assuma.


O que é que os estudantes poderão esperar desta renovada direção da AAUM? Quais são as principais mudanças em termos estruturais?

Podem esperar essencialmente compromisso: com a inovação e, simultaneamente, a consolidação da atividade desta instituição. O mandato que acaba de começar ficará marcado por profundas transformações na estrutura da direção da AAUMinho, desde logo na estrutura departamental da entidade. A partir de agora a AAUMinho conta com uma estrutura de departamentos voltada para a criação de sinergias entre áreas muito complementares (como um departamento de Desenvolvimento de Carreiras, onde se incluem as áreas do emprego, empreendedorismo e formação), marcada também pela introdução de áreas como a gestão de recursos humanos, qualidade & sustentabilidade, agregadas no novo departamento de Administração. O novo formato do funcionamento interno da estrutura permitirá tornar a AAUMinho uma instituição cada vez mais próxima da comunidade estudantil e eficiente, no que diz respeito à gestão, comunicação e produção da sua atividade.


No discurso de tomada de posse voltaste a insistir na necessidade de se encontrar uma solução para se avançar com a nova sede da AAUM. Que perspetivas existem neste momento?

A verdade é que cada ano em que a AAUMinho continua sem conseguir resolver esse problema agravam-se exponencialmente os problemas da sede onde nos encontramos neste momento. Quer para utilização da direção da AAUMinho, quer para utilização por parte da comunidade estudantil e dos muitos grupos culturais que também possuem sede neste local. Não existem quaisquer perspetivas concretas por dois motivos: a direção da AAUMinho considera complicada a coexistência de determinados serviços, como o Bar Académico, no interior da Universidade do Minho, onde já foram apontados possíveis locais para a construção da mesma, por parte do Reitor; por outro lado, a solução que apontamos é um terreno localizado perto de um abandonado hospital psiquiátrico, junto ao Campus de Gualtar, neste momento utilizado como parque de estacionamento clandestino que pertence, neste momento, a uma divisão do Estado. Esta segunda opção, que me parece francamente a melhor, apesar dos vários apelos públicos e de alguns contactos já feitos, admito que esta questão ultrapassa o alcance da capacidade de influência política da AAUMinho. O apelo que tenho deixado, e que me parece mais do que razoável, é que o Reitor da Universidade do Minho e o Presidente da Câmara Municipal de Braga façam chegar o apelo às entidades governativas nacionais. Não é admissível continuarmos no espaço em que estamos e esta solução beneficiará não apenas a AAUMinho mas toda a envolvente da Academia e daquela zona da cidade, por requalificar um espaço que está abandonado e onde se têm protagonizado inúmeros episódios de sinistralidade e violência.


Outra das grandes preocupações tem sido o alojamento. Consideras que as soluções anunciadas até ao momento são suficientes?

A resposta para essa pergunta não reside apenas na matemática simples. É preciso, em primeiro lugar, garantir que as mesmas se efetivam e, posteriormente, ser capaz de analisar as tendências do Ensino Superior e da própria demografia da Região. É expectável que Braga e Guimarães continuem a crescer em termos de população residente, não só pela fixação de estudantes do Ensino Superior e trabalhadores das inúmeras empresas em expansão económica, como também, pela grande vaga de imigração que temos assistido. O alojamento estudantil deve ser tratado como um caso específico, dentro de um grande quadro do problema do alojamento, em geral. É nesse sentido que acredito que o Estado e as instituições não podem investir desmedidamente na construção de soluções, devendo ser capazes de identificar como prioritário e alvo da sua ação as faixas mais desfavorecidas, como os bolseiros deslocados. As instituições de ensino superior, as autarquias e o Governo, devem ser capazes de promover a reflexão social junto desta temática e introduzir mecanismos que promovam o investimento privado no alojamento para o público académico, mas não só. Resolver o problema do estudante que, depois de terminar o seu curso, se fixa na cidade, ou o problema do imigrante que, por falta de alojamento, escolhe residir em zonas habitualmente destinadas a estudantes do ensino superior, é também resolver o problema do alojamento estudantil. Esta é a mensagem que temos passado e defendido em todas as intervenções públicas sobre o assunto.

Está também em curso um processo de revisão dos Estatutos da AAUM. Como é que o processo se vai desenrolar daqui em diante?

Praticamente findada a constituição da comissão de revisão estatutária, seguir-se-ão um conjunto alargado de reuniões para definição das áreas de intervenção prioritárias, identificando aquilo que precisa ou pode ser alvo de alteração estatutária. Existirá, também, um período de auscultação pública desta revisão, onde a comissão pretenderá analisar as sugestões deixadas pela comunidade estudantil. Por fim, a nova proposta de redação dos estatutos terá de ser aprovada em RGA, bem como o momento do referendo, e, por fim, será levado a sufrágio universal dos estudantes da Academia Minhota uma proposta de estatutos, que, se aprovada, entrará em vigor após publicação em Diário da República.


Como caracterizas a relação da Associação Académica com a Reitoria?

É uma relação de proximidade, mas simultaneamente de independência. Cooperantes na defesa dos interesses da Academia, no seu todo, mas ocupando papéis diferentes. A melhor forma de descrever será, certamente, citando o mais recente sócio honorário da AAUM, o Professor Álvaro Laborinho Lúcio. A AAUM deve ser capaz de “fazer cócegas” nas decisões da Reitoria, especialmente naquelas que digam respeito aos estudantes. O Reitor deve encontrar na AAUMinho uma instituição conselheira dos direitos e interesses dos estudantes da Academia que tem na sua independência jurídica e legal, bem como na sua capacidade mobilizadora, as forças necessárias para criar oposição, quando essa for a única via de resolução possível. Não obstante, é na confiança institucional e, acima de tudo, no clima de proximidade existente que tem residido a capacidade de conseguir excelentes resultados em áreas como o desporto, a cultura, a pedagogia ou o empreendedorismo, entre outras.


Uma das grandes questões do momento tem sido a discussão em torno das propinas. Qual é a posição da AAUM: é a favor ou contra a existência de propinas?

A posição da AAUMinho é a posição do Movimento Associativo Nacional: defendemos uma redução progressiva das propinas e um Ensino Superior progressivamente gratuito, tal como expresso na Constituição da República Portuguesa. Só não somos totalmente a favor de uma ação política no Ensino Superior que priorize a redução das propinas, como se sucederá a partir do início do próximo ano letivo, quando existem muitos outros indicadores que nos levam para a necessidade de priorizar outras áreas, como é o caso da ação social escolar. Quando 68% do investimento na ação social é proveniente de fundos europeus que deviam ser canalizados para a construção de infraestruturas, como residências universitárias, reside a pergunta: faz sentido baixar o valor das propinas quando o Estado não é sequer capaz de pagar a totalidade dos custos com o investimento nas famílias mais desfavorecidas? A verdade é que o maior impacto, embora indireto, será nas instituições de ensino superior que já muito sofrem com as constantes cativações dos organismos do Estado. Como dizia Zeca Afonso, o que é preciso é “ter coragem”, a coragem necessária para efetuar reformas estruturais, ao invés de medidas que têm um timing político que vem mesmo a calhar para as futuras eleições legislativas.


O ano de 2019 será marcado por eleições europeias e legislativas? Como é que a AAUM se vai posicionar no sentido de garantir compromissos para as suas reivindicações?

De duas formas distintas. A primeira passará por garantir a informação da comunidade académica: no plano de atividades para 2019, constará a nossa associação a campanhas nacionais e europeias que visam a redução da abstenção eleitoral e consciencializar para a importância do voto; por outro lado, vamos promover um ciclo de conversas e debates em torno das estratégias apresentadas pelos diferentes partidos candidatos e do próprio movimento associativo nacional. A segunda passará por garantir que, em 2019, teremos uma presença política forte, em conjunto com as restantes associações e federações estudantis, a nível nacional. Não podemos restringir-nos a informar e debater dentro de portas. Pela experiência que temos tido, é certo que será necessária uma forte mobilização da comunidade estudantil para garantir que somos ouvidos e achados. É preciso garantir compromissos, em todas as frentes, porque independentemente do emblema político vencedor, urge uma política de compromisso para o Ensino Superior, que, até ao momento, não tem sido demonstrada.


A nível local, o ano será marcado por grandes eventos desportivos como as Fases Finais dos Campeonatos Nacionais Universitários em Guimarães e o Campeonato Europeu Universitário de Futsal em Braga. O que representa a organização destes eventos para AAUM e para a própria Universidade do Minho?

Estes eventos representam e potenciam a afirmação da nossa Academia como um espaço onde o desporto é valorizado e faz parte da vida da nossa comunidade. Ambos os eventos terão preocupações sociais, mas embora as fases finais dos CNU’s 2019 se foquem no seu programa de sustentabilidade ambiental, a maior preocupação será envolver as diferentes comunidades na prática desportiva. Vamos procurar divulgar estas atividades junto do público estudantil mais novo, como os estudantes do ensino básico e secundário, dentro da Academia e junto dos munícipes de Braga e Guimarães, que serão também chamados a participar nos eventos paralelos à competição principal. Estamos expectantes que ambos os eventos deixem um legado e consolidem a Academia Minhota e as cidades de Braga e Guimarães como locais que sabem receber, organizar e promover grandes eventos de desporto universitário.


Recentemente foi também anunciada a candidatura ao Campeonato Europeu Universitário de Voleibol em 2021. Qual a motivação desta aposta?

Existe um conjunto de motivações que estão por trás desta candidatura. O voleibol sempre foi uma modalidade acarinhada pelos estudantes da Academia Minhota, como demonstram os excelentes resultados das nossas equipas nas várias competições nacionais e internacionais onde estivemos presentes, ao longo de décadas de prática desportiva. Não obstante, tencionamos trazer para Guimarães uma organização internacional, depois do sucesso do Campeonato Mundial Universitário de Andebol e a passagem do Campeonato Mundial Universitário de Ciclismo neste município. Por último, estamos certos de que esta competição promoverá a consolidação do nosso projeto desportivo na vertente do voleibol, incluindo a relação com os clubes locais, onde muitos dos nossos atletas praticam desporto federado. Se a resposta à nossa candidatura for positiva, estou certo de que este será mais um episódio memorável da nossa já longa história de organizações desportivas.


Relativamente ao Enterro da Gata, concretiza-se a intenção de mudar a sua localização para o Altice Forum Braga?

Essa é uma informação que a AAUMinho se reserva no direito de anunciar à comunidade académica, em momento e local próprio. Até ao momento, não existe um local definido para a organização das Monumentais Festas do Enterro da Gata. A única coisa que posso garantir é que estamos a fazer todos os possíveis para encontrar um espaço e um projeto de implementação que faça jus à dimensão deste evento, garantindo uma convivência saudável do mesmo com a cidade que o recebe. É uma oportunidade de repensar o evento, com a certeza de que é necessário respeitar o legado deste grande evento.


A nível pessoal, onde te imaginas daqui a 10 anos?

Se há algo que não consigo fazer é planear a minha vida para um período tão longo. Acima de tudo, espero ter saúde e ter uma vida que me concretize. Nunca fiz planos prévios para chegar a Presidente da AAUMinho, foi algo que aconteceu naturalmente. A curto prazo, espero ser capaz de terminar o meu curso e de colocar em prática muitas das competências que tenho adquirido enquanto Presidente da AAUMinho, e, por isso, espero que, também naturalmente, possa ir escrevendo muitas páginas da minha vida que ainda espero ter oportunidade de fazer: viajar e aprender (muito), construir uma família e, principalmente, manter-me fiel à pessoa que tenho sido e que acredito que me carateriza – ser compreensivo e dedicado, especialmente naquilo em que acredito.


Que mensagem gostarias de deixar aos estudantes e à Academia?

Sou um adepto incondicional de que devemos desejar aos outros aquilo que desejamos a nós próprios e, por isso, deixo a mensagem que deixo a mim próprio, todos os dias. Que nunca nos esqueçamos que existimos porque existem pessoas, sítios e condições que nos permitem existir e, por isso, garantir as condições para que as futuras gerações possam também existir é a maior responsabilidade que podemos ter perante o Mundo e a vida. Utilizem o associativismo, o desporto, a cultura, a participação cívica, a produção científica, o vosso trabalho e a vossa maneira de estar na vida como um constante legado que deixam aos outros. Não assobiem para o lado quando vêm uma injustiça. Não se resignem à condição de “homenzinhos” e “mulherzinhas”. Não fiquem em casa em dia de eleições. Nunca se esqueçam que o direito de existir é também ele um dever. Sejam felizes, a fazer os outros felizes.

Texto: Ana Coimbra

Fotografia: Nuno Gonçalves

Arquivo de 2019