tutfu11--3-570
Entrevista.com, 08.02.2017
“O espírito universitário e a alma de equipa que se formou na equipa de futebol da UMinho é algo indescritível.”
UMinho
Tiago Almendra, o futuro médico conseguiu fazer um malabarismo e conciliar os estudos e atividades extracurriculares! O ex-capitão da Seleção Nacional Sub-18 de Futebol é um dos melhores exemplos de sucesso, quer no desporto, quer nos estudos, tendo inclusive em 2015 recebido o Prémio Jogos Santa Casa - Carreira Dual-Desporto Universitário, que visa valorizar este facto.


Com que idade iniciaste a prática competitiva do futebol e onde?

Comecei a prática competitiva do futebol com 12/13 anos na escolinha de futebol Fernando Pires. Nessa altura era atleta de natação do SCBraga e decidi conciliar a prática dos dois desportos. No ano seguinte ingressei na equipa de iniciados do SCBraga e optei pelo futebol.

Achas que o futebol ajudou no teu desenvolvimento enquanto indivíduo?

Sem dúvida alguma. Grande parte dos meus amigos fi-los no futebol... e ainda continuo a fazer. Tive a oportunidade de conviver com pessoas das mais diversas culturas e países. O futebol é também uma grande escola da vida, onde aprendes a conviver com pessoas completamente diferentes de ti e a respeitá-las, tens de trabalhar em equipa para atingir um objetivo final comum. Transmite muito valores: respeito, união, perseverança e dedicação.

Qual foi o papel da tua família no teu percurso enquanto atleta de alta competição?

Na área familiar posso-me considerar um privilegiado. A minha família teve um papel central e fulcral no meu percurso. Sempre me apoiaram, acompanharam e só assim foi possível atingir o nível que atingi. Sempre fui muito acarinhado por toda a minha família. Muitas vezes grande parte dela acompanhava os meus jogos e torneios... mesmo fora do país! Desde sempre foram-me incutidos hábitos que me facilitaram a tornar-me um atleta de alto rendimento, desde um bom padrão de sono, a uma boa alimentação, entre outros.

A maneira como tu lidas com a pressão e a ansiedade antes dos jogos é algo que tu consegues trabalhar e treinar, ou simplesmente é algo com que apenas lidas na hora em que entras em campo?

É algo que se consegue trabalhar e treinar. Pode ser com a ajuda de psicólogos especialistas, nesta área desportiva, como já tive a oportunidade de trabalhar na formação do SCBraga, ou pode mesmo partir da tua forma de encarar a competição. Penso que pelo facto de ter competido em muitos contextos distintos (incluindo o futebol universitário), hoje tenho facilidade em controlar a ansiedade na competição.

Pela UMinho já foste diversas vezes campeão nacional universitário e recentemente, bronze no europeu. Qual foi o momento mais marcante para ti? E o mais importante?

Momentos marcantes tive vários, nos quais realço o bronze no europeu, pois foi um passo de gigante para a nossa equipa a nível internacional, a nível nacional o último título de campeões nacionais teve também um sabor especial, não só pelas várias dificuldades de participação de atletas que tivemos na competição, mas também pelo facto de jogarmos grande parte da final em inferioridade numérica e mesmo assim conseguirmos vencer. Gostava ainda de realçar o último título de campeões europeus, que embora não tivesse tido a oportunidade de participar por motivos académicos, acompanhei todo o percurso e foi um orgulho enorme esta grande conquista.

Qual é para ti a grande diferença entre a competição federada e a competição universitária?

O espírito universitário e a alma de equipa que se formou na equipa de futebol da UMinho é algo indescritível. Sempre que estamos todos juntos em qualquer situação sentimos que estamos em família e isso é o mais importante. Ganhar é importante, mas não é só o resultado que interessa, são também todos os momentos que partilhamos juntos. É uma grande festa e penso que este ambiente foi também uma das principais chaves deste sucesso sustentado nos últimos anos.

Quando é que foi a tua primeira vez de quinas ao peito e contra quem? Qual foi a sensação?

A primeira vez foi quando fazia parte do escalão de futebol sub 16, contra a Suíça num torneio realizado em França disputado a 31/10/2006.

É difícil ser-se capitão, liderar?

Penso que a dificuldade depende principalmente do ambiente do grupo que estás inserido. Felizmente quando fui capitão de equipa, sempre tive inserido em grupos fantásticos, onde de forma natural e simples conseguia orientar e liderar a equipa. Sempre tive uma boa relação com todos os jogadores, das várias equipas onde joguei, o que tornou as coisas mais fáceis.

O que te levou a escolher a UMinho e o curso de Medicina? Está a correr tudo bem?

Sempre vivi em Braga, tinha aqui os meus amigos e família por isso ficar em Braga sempre foi a minha prioridade. Correu tudo muito bem, conclui o curso em julho e já fiz o exame de especialidade.

Para muitos atletas de alta competição torna-se difícil conciliar os estudos com a prática desportiva. Como é que tu consegues gerir esta nem sempre fácil "relação"?

Nem sempre foi fácil, o futebol é um desporto a alto nível competitivo incompatível com a Medicina, por isso tive também que tomar uma opção e ser obrigado a baixar o nível competitivo. Só conseguia treinar ao final de tarde e mesmo assim houve anos mais difíceis, como o ano passado e o ano letivo em que tive destacado no Hospital de Viana. Mas umas vezes melhor, outras vezes pior, lá fui conseguindo conciliar.

Os teus colegas de curso sabiam que és atleta de alta competição? O que é que eles pensavam desse facto?

Os que estavam mais próximos de mim sabiam que fazia parte da equipa da Universidade e sabiam o clube que jogava. Alguns acompanham mesmo o campeonato para poderem mandar uns bitaites. Felizmente fiz um bom grupo de amigos no curso que tornaram todo este percurso difícil um pouco mais fácil.

A UMinho iniciou em Portugal um programa pioneiro no que diz respeito ao apoio aos atletas de alta competição, o TUTORUM. O que pensas desta iniciativa e do programa em si?

Acho que é sem dúvida uma boa iniciativa da Universidade que visa ajudar os estudantes atletas, a alcançar maior sucesso académico e a conseguir conciliar as duas áreas: desporto e estudos. É necessário que este tipo de programas seja implementado na sua plenitude para que o nosso país não trave o talento dos jovens desportistas nas diversas modalidades e não os prive do acesso ao conhecimento. Felizmente, penso que hoje em dia cada vez se dá mais importância ao estudante atleta, o que é algo de louvar e espero que no futuro muitas mais medidas e apoios sejam implementados.

Já recebeste apoio através do TUTORUM? Se sim, em que áreas?

Nunca recebi muito apoio através do programa porque de certa forma eu próprio tomei a opção de treinar ao fim da tarde, pois assim não precisava de faltar às aulas e aos exames. No primeiro ano senti imensas dificuldades porque ainda estava no SCBraga e treinava às horas das aulas, o que não me permitiu ter o devido sucesso escolar, mas de certa forma demonstrou-me que futebol e Medicina eram incompatíveis e que tinha de optar. Mas sempre que necessitei de ajuda, o departamento sempre se mostrou muito prestável para me ajudar a resolver o que quer que fosse.

Os teus objetivos pessoais passam por uma carreira profissional no futebol ou os estudos vêm em primeiro lugar?

Já concluí o curso que era o meu objetivo principal neste momento, agora só o tempo vai revelar o meu caminho. Encontro-me com todas as possibilidades em cima da mesa. Sendo que parar com o futebol é uma opção que posso ter que tomar a curto prazo, a menos que surja uma oportunidade de ser profissional. Mas vamos ver o que a vida me reserva.

E se te surgisse um convite vindo de um dos "grandes"?

Neste momento essa possibilidade não se põe em cima da mesa, pois estou muito longe desse nível competitivo. Mas se subisse alguns escalões e caso surgisse esse convite penso que não hesitaria. Sei como funciona um clube desse nível, pois tive a oportunidade de trabalhar na equipa sénior do Braga e quando se atinge esse patamar, não falta nada. Tens todas as condições e mais algumas para seres o melhor e fazeres bem o teu trabalho que é o melhor que se pode pedir.

Descreve-me um dia na vida do Tiago.

Agora que já terminei o curso, nestes últimos meses limitei-me a estudar durante a manhã e a tarde e as 18:20 saio de Braga para me dirigir para Joane que é o clube que estou a jogar neste momento. Costumo chegar a casa por volta das 22h e janto a essa hora. Descanso um pouco e convivo com a minha família e vou para a cama para acordar cedo no dia a seguir.

Texto e Fotografia: Nuno Gonçalves

(Pub. Fev/2017) 

Arquivo de 2017