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Entrevista.com, 14.02.2017
“É uma das áreas onde a procura excede largamente a oferta”
UMinho
O UMdicas esteve à conversa com Luís Costa, para quem ser diretor de curso é "Deveras exigente". O diretor assume o facto de ser um curso com valências em várias áreas e que prepara especialistas multifacetados como os pontos mais fortes deste. Para além disso, o curso tem "desemprego zero", estando entre os melhores da área em Portugal.

Qual a sua formação e trajeto académico?

Academicamente falando, sou totalmente made in Universidade do Minho. O que considero, digo já, uma mais valia. Fiz todo o meu trajeto académico por aqui, desde Licenciatura em Engenharia de Sistemas e Informática, Mestrado em Informática (Sistemas Distribuídos, Comunicações e Arquitetura de computadores) depois e Doutoramento em Informática, também na área de Comunicações por Computador. Fiz estágio de licenciatura com o Professor Joaquim Macedo, agora meu colega e amigo. Na sequência desse estágio publicámos o primeiro artigo juntos. Depois entrei para a carreira docente e fui orientado no mestrado e doutoramento pelo Professor Vasco Luís Barbosa de Freitas (já aposentado), o fundador do nosso Grupo de Comunicações e Redes no Departamento de Informática, que teve um papel pioneiro decisivo na criação da infraestrutura de rede académica do nosso país e consequentemente da Internet em Portugal, juntamente com o Professor Alexandre Santos (nosso atual chefe de grupo).

Como caracteriza a sua função de diretor de curso?

Assim muito rapidamente? Deveras exigente. É um curso relativamente pequeno, quando comparado com outros desta casa, e ainda assim exige muito tempo e muita dedicação. Imagino como serão os outros! O facto de ser um curso com três Departamento específicos (Eletrónica Industrial, Sistemas de Informação e Informática) também complica um bocado as coisas porque obriga a um maior esforço. Mas é também uma enorme mais valia. O curso é talvez neste momento dos poucos que se mantém fiel ao modelo matricial que desde sempre foi defendido nesta Universidade. Não um departamento por curso, mas um curso com o melhor dos vários departamentos. Sem duplicação de recursos. Felizmente tenho mais dois docentes na comissão diretiva, a Professora Maria João Nicolau (do DSI) e o Professor José Manuel Cabral (do DEI), que me ajudam muito na articulação entre departamentos e mesmo nas tarefas de gestão do dia a dia do curso. E que me emprestam toda a sua experiência como ex-diretores deste curso. Estamos bastante sintonizados nas decisões que tomamos, o que é ótimo! Seria muito mais difícil se assim não fosse. Mas tem de se gostar muito do que se faz, para não desesperar com as burocracias, a papelada, os sistemas de informação que é preciso alimentar e manter atualizados, etc. E como eles são famintos e gulosos! Não nos dão descanso. Faz lembrar os tamagotchis, para quem sabe o que isso eraJ. Tenho a sensação que por vezes não consigo fazer tudo em condições e a tempo e horas e isso gera-me ansiedade. Depois sobra pouco tempo para efetivamente ouvir os alunos que era onde eu acho que devíamos gastar mais tempo. Preferia estar muito mais com eles do que com os sistemas informáticos. Por mais que goste de sistemas informáticos.

O que o motivou a aceitar "comandar" este curso?

Há várias motivações, de que já vou falar de seguida, mas aquela que eu acho mais determinante é que eu gosto realmente deste curso. Gosto de pensar que seria a minha escolha, se pudesse ser novamente caloiro. Salvaguardadas as devidas distâncias temporais, parece-se aos meus olhos com a LESI dos meus tempos. Claro que estou a ser faccioso, porque este curso é o que está mais próximo das minhas áreas preferidas e quiçá do meu percurso académico. Mas há outras motivações. Vi nascer este curso do zero dentro da Universidade. De parto algo difícil (há algum que não seja?). Braga ou Guimarães? Telecomunicações ou só Comunicações? Mais informática ou mais eletrónica? Vi a sua infância como Licenciatura de Comunicações entre 2002/03 e 2006/07. Vi-o ajustar-se a Mestrado Integrado com os acordos de Bolonha (2006/07). Vi-o mudar de nome para Engenharia de Telecomunicações e Informática em 2014/15, reformular-se e ajustar-se ao futuro. Não tive praticamente papel nenhum em quase nenhuma dessas etapas e no entanto imagino-me como parte integrante de todas elas. Depois há a questão, para mim fundamental, de ser um curso com valências em várias áreas. Um engenheiro de telecomunicações de hoje em dia tem de ter uma bagagem que não é fácil de conseguir. Interdisciplinar. E, no entanto, estamos num mundo de hiperespecializados. É mais fácil uma formação vertical bem estreita que uma de banda larga. Mas será possível ser bom engenheiro, seja em que área for, sem que se doseie muito bem a abrangência de umas boas bases com a uma boa especialização?

As experiencias anteriores têm-no ajudado no cumprimento da sua função de diretor de curso?

Nunca se está verdadeiramente preparado para nada. Ter muitos anos de docente e muitos anos da casa ajuda sempre. Ter estado noutras comissões diretivas, também ajuda bastante.

Quais são as maiores dificuldades no cumprimento da sua função?

A maior dificuldade é conseguir estar próximo dos alunos. Ouvi-los e motivá-los. Mas se calhar isso é mesmo utópico. Recebemos os caloiros é certo, e isso é sempre um momento de orgulho, mas depois mal os conseguimos ver, e muito menos falar com eles. Estou mais próximo dos últimos anos e do NEECUM (Núcleo de Estudantes de Engenharia de Telecomunicações e Informática), porque sou docente deles, e porque há mais interações com o diretor de curso nos últimos anos por causa das disciplinas opcionais e das dissertações. Claro que podia convocar reuniões ou ir às salas, mas o curso é exigente, e estamos todos demasiado ocupados para falarmos. E as conversas também não se fazem com hora marcada. Outra dificuldade é motivar os docentes a encarar este curso do mesmo modo que encaram os cursos mais próximos dos seus departamentos! Esta é a parte mais negativa do modelo matricial. Alguns chegam ao ponto de passar o tempo com comparações. Os de "Eletrónica/Sistemas de Informação/Informática" (riscar conforme o caso) é que isto, mas vocês aquilo. Isto quando não aconselham mesmo os alunos a mudar de curso. É um bocado desgastante. E no mínimo inapropriado. A esses o que me apetecia mesmo era poder compará-los também com os outros docentes que encaram cada aula e cada turma como se fosse a primeira. E que felizmente ainda são bastantes. E poder dizer-lhes que fiquem lá onde tanto gostam de estar.

No seu entender, porque é que um futuro universitário deve concorrer ao Mestrado Integrado em Engenharia de Telecomunicações e Informática?

Bem, penso que este é um daqueles cursos que não precisam de grande publicidade. O nome diz praticamente tudo e desta vez, finalmente, sem espaço para equívocos! Quem gosta das tecnologias de informação e afins, sabe bem. E quem não gosta também sabe. Acrescento que tem desemprego zero! É uma das áreas onde a procura excede largamente a oferta. Sabemos bem como as telecomunicações são indispensáveis hoje em dia no nosso dia a dia. E há um exército de engenheiros que garantem que podemos estar sempre conectados, estejamos onde estivermos, com as mais diversas aplicações. Uma parte considerável deles são Engenheiros de Telecomunicações e Informática. Que especificam, operam e fazem manutenção de infraestruturas de telecomunicações. Que desenvolvem e operam serviços sobre essas infraestruturas. Que gerem as redes de computadores. Que criam e disponibilizam novos conteúdos e novas aplicações. Que desenvolvem novos sistemas de comunicações.

Quais são, na sua opinião os pontos fortes deste curso? E os pontos fracos?

Bom aqui se calhar tenho tanto que dizer que não vou dizer nem metade!JDestaco o essencial. É um curso de largo espectro que oferece formação abrangente integrando os domínios da eletrónica e da informática. Prepara especialistas multifacetados na área das tecnologias, com suporte específico de três departamentos, no cruzamento das áreas de eletrónica e informática. É um curso com uma forte componente laboratorial e que ainda funciona com turmas relativamente pequenas. Dá bem para aprender coisas quando se quer aprender. Com desemprego zero. Os pontos fracos são o reverso da medalha dos pontos fortes. Por ser abrangente tem dificuldade acrescida. Não é fácil para um aluno gostar ou ser afim a todas as matérias e/ou áreas. Há por isso abandonos e mudanças de curso. Sobretudo quando não é a primeira escolha. E já era bem altura de investir em novos equipamentos, novos laboratórios e mesmo nas salas normais do complexo de Azurém. Cujas carências são tão evidentes que nem preciso enumerar aqui!

O que caracteriza este curso da UMinho, relativamente aos cursos do Mestrado Integrado em Engenharia de Telecomunicações e Informática de outras universidades?

Durante a última avaliação externa do curso, feita pela entidade A3ES, fizemos um trabalho mais ou menos exaustivo de análise da oferta em Portugal nesta área. E fizemos comparações. Claro. Foi-nos recomendado que ajustássemos o nome do curso e queríamos fazê-lo como deve ser. Há basicamente duas variantes deste curso no nosso país. Telecomunicações e Informática e Eletrónica e Telecomunicações. De acordo com o plano curricular e alguma predominância da informática no currículo, também pelo historial de excelência reconhecido à Universidade do Minho na área de informática, e porque há dois departamentos na área de informática e sistemas de informação nos departamentos específicos do curso, pareceu-nos natural e lógico a primeira designação. Isso não quer dizer que não tenha eletrónica! Tem sim e em força. Não aparecer no nome não significa nada. Tem, e é assegurada pelo Departamento de Eletrónica Industrial que tem também um Mestrado Integrado de Eletrónica de grande prestígio a seu cargo! E que asseguram também as cadeiras mais nucleares de telecomunicações, como a Codificação, Transmissão, Sistemas de Telecomunicações, Propagação e Antenas. Estamos, pois, bastante tranquilos na comparação com o que de melhor se faz na área em Portugal.

Existem hoje em dia excesso de profissionais em determinadas áreas. O que podem esperar os alunos do Mestrado Integrado em Engenharia de Telecomunicações e Informática quanto ao mercado de trabalho?

Aqui a resposta é fácil. Não aplicável. Not applicable, em estrangeiroJNão temos preocupações a esse nível. Um aluno de MIETI pode estar preocupado com o que realmente quer fazer na vida, se é esta a sua vocação, se era isto que sonhava, se se imagina a fazer isto ao longo dos muitos anos de vida profissional, como todos os jovens da mesma idade. Mas nessas preocupações não entra o mercado de trabalho.

Quais são os maiores desafios de um recém-formado do Mestrado Integrado em Engenharia de Telecomunicações e Informática?

Distinguir os empregadores oportunistas que exploram contratos de estágio financiados sem nenhumas perspetivas de futuro, dos bons empregadores. Identificar as propostas que mais os desafiem como engenheiros e como pessoas. Encontrar a sua própria área dentro da área. Manter-se atualizado, sempre, ao longo da vida. Que é muito difícil.

Quais são as prioridades do curso nos próximos tempos?

A prioridade nos próximos tempos é essencialmente a estabilidade! Vivemos duas reformulações nos últimos anos, a última das quais na sequência de uma avaliação muito positiva da A3ES, precisamos apenas de estabilidade nos próximos tempos. Deixar amadurecer os novos alinhamentos de conteúdos, melhorar a procura essencialmente nas primeiras escolhas dos alunos, motivar o corpo docente e discente, envolver e comprometer mais e de forma mais assertiva todos os departamentos, sobretudo os três departamentos específicos do curso, mostrar à envolvente o que é o curso e a sua importância no portfólio de cursos da Escola de Engenharia e da Universidade do Minho, aumentar o número de publicações resultantes de trabalhos das dissertações.

Quais os principais desafios do Curso?

Apoiar-se e rejuvenescer-se em permanência na investigação de qualidade que se faz na casa. Nunca se deixar cair no esquecimento por parte da instituição que o criou, ou sequer deixar que se instale a ideia que é apenas mais um a compor o ramalhete da Escola ou dos Departamentos. É um curso pequeno é certo, mas extremamente importante para o futuro da região e do país e consequentemente para a Universidade do Minho.


Texto: Ana Coimbra

Fotografia: Nuno Gonçalves


(Pub. Fev/2017)

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