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Entrevista.com, 28.07.2016
“…é o melhor curso de Medicina do país”
UMinho
O UMdicas esteve à conversa com Nuno Sousa, para quem o diretor de curso "É uma função absolutamente crítica em qualquer projeto pedagógico...". Para o diretor, este curso é um projeto "from scratch" que garante uma formação muito holística, centrada nos aspetos relevantes da medicina e com uma sólida base científica, o qual garante ao seu graduado, conhecimentos ("sabe"), competências ("sabe fazer") e que tem uma atitude profissional correta ("sabe estar").

Qual a sua formação e trajeto académico?

Foi aluno do liceu Alexandre Herculano no Porto, onde fiz o meu ensino secundário. Depois entrei para a faculdade de medicina do Porto onde fiz a minha licenciatura (1986/1992), ao fim da qual a carreira se bifurcou, com uma carreira clínica (fiz o internato geral e depois o internato especial em neurorradiologia no Hospital de J. João) e em paralelo fiz o meu doutoramento. Em 2000 vim para a ECS-UMinho, onde em 2009 fiz a minha agregação.       

Como caracteriza a sua função de diretor de curso?

É uma função absolutamente crítica em qualquer projeto pedagógico, é o garante da responsabilidade fiduciária de que a instituição está a cumprir com a sua missão e de que o faz com qualidade (qualidade formativa, qualidade do contexto profissional, qualidade do ambiente de trabalho). Para além disso, tem responsabilidades estratégicas na definição daquilo que perspetiva como o futuro e as necessidades formativas de futuro na área, de forma a assegurar que os alunos de um determinado momento e futuros graduados estão definitivamente preparados para os desafios que vão encontrar. É uma figura central, que às vezes não é devidamente valorizada.

O que o motivou a aceitar "comandar" este curso?

O desafio, o projeto, a possibilidade de termos aqui um projeto "from scratch". O trabalhar sem heranças tem duas vertentes: uma negativa que é facto de não haver heranças (e há muitas coisas boas nas instituições que vão ficando e perdurando), mas também tem o aspeto muito positivo, que é o facto de não haver vícios. Assim, na ECS-UMinho pudemos lançar um projeto pedagógico muito inovador que garante uma formação de grande qualidade para os médicos. Queremos também combinar isso com um fortíssimo investimento na área da investigação, na capacidade de estabelecer pontos entre a formação e a geração do conhecimento, e em última análise fazer isto enquadrado numa lógica de que isto gera valor, sobretudo para a população que em determinada fase da vida apresenta doença.

As experiencias anteriores têm-no ajudado no cumprimento da sua função de diretor de curso?

Claro que sim. O capital de experiência prévio é obviamente fundamental para estar minimamente preparado para as funções. Costumo dizer que somos no presente aquilo que foi a nossa construção no passado, não apenas de um individuo, mas do conjunto de indivíduos e do contexto.


Quais são as maiores dificuldades no cumprimento da sua função?

Primeiro as dificuldades dos próprios desafios, senão não eram desafios. Muitas vezes estamos a trilhar caminhos de que não estamos 100% seguros que são os melhores e isso é uma dificuldade, mas isso acaba por ser interessante, pois se estivermos numa estrutura que tem capacidade flexível para se ajustar às necessidades, obviamente vai encontrar as melhores soluções num determinado momento (mas que podem não ser as melhores no momento subsequente). Depois um conjunto de dificuldades externas, que passam por coisas como a suborçamentação, falta de cultura estratégica de investimento partilhado, falta de massa crítica, mas estes são desafios habituais de quem trabalha nesta área do contexto nacional. Depois há um conjunto de pequenas dificuldades que são específicas da medicina e que obviamente tentamos ultrapassa-las da melhor maneira possível.

No seu entender, porque é que um futuro universitário deve concorrer ao Mestrado Integrado em Medicina?

Porque este é o melhor curso de Medicina do país. Porque acho que garante uma formação muito holística, centrada nos vários aspetos que são relevantes da medicina e com uma sólida base científica, centrado na aquisição de um conjunto de competências muito relevantes para a prática da medicina, que incluiu um grande enfoque na geração de conhecimento científico, ou seja, na investigação e centrado nos pacientes. Portanto muito orientado para garantir que tornamos as nossas populações mais saudáveis.

Quais são, na sua opinião os pontos fortes deste curso? E os pontos fracos?

Os pontos fortes são então, um ensino que está centrado em última análise no paciente, que está centrado na aquisição de competências clínicas relevantes, muito alinhado com as linhas mais inovadoras internacionais, grande exigência e rigor científico para os alunos e para os docentes, garantindo que o nosso graduado é um graduado que tem conhecimentos (sabe"), que tem competências ("sabe fazer") e que tem uma atitude profissional correta ("sabe estar"). É este trajeto que torna este curso de grande qualidade, tal como está evidenciado em escrutínios, nacional e internacional. Não é por acaso que os nossos alunos quando fazem o exame nacional se seriação para acesso à especialidade em Portugal no final da sua formação, são em média sempre os melhores classificados do país, quando à entrada não o eram. O que significa que alguma coisa de muito bom se está a fazer na ECS-UMinho.

Os pontos menos fortes resultam do facto de Portugal ser um país ainda pequeno, de por exemplo em Portugal não ser permitido, na medicina, aceitar alunos internacionais o que retira pluralidade à formação que nós podíamos ter; também o facto de termos alguma sub-orçamentação que faz com que alguns projetos tenham que ser levemente atrasados ou não tenham a velocidade que gostaríamos e depois algum comodismo, pois é preciso que continuamente renovemos os nossos votos de dedicação e de tentativa melhorar para garantirmos que não ficamos muito "aburguesados".

O que caracteriza este curso da UMinho, relativamente aos cursos de Medicina de outras universidades?

O facto de trabalharmos num modelo de formação muito integrado, este é um aspeto absolutamente formidável para a formação dos nossos alunos e que não é muito comum; o segundo é que essa integração não é só horizontal mas também vertical, o que é ainda menos comum; terceiro porque tem um grande enfoque na cultura e na prática da investigação científica; o quarto porque se define aquilo que nós chamamos um "Core Curriculum" mas depois dá espaço para que cada aluno depois construa o seu próprio curriculum; o quinto porque está claramente desenhado à volta das competências clinicamente relevantes; e o sexto porque está centrado nos pacientes e portanto os prepara para a vida real. Este conjunto de aspetos faz com que eu ache que este seja uma oferta muitíssimo interessante para quem quer seguir esta área do conhecimento.

Existem hoje em dia excesso de profissionais em determinadas áreas. O que podem esperar os alunos do Mestrado Integrado em Medicina quanto ao mercado de trabalho?

A Medicina ainda é uma área bastante distinta das restantes áreas do saber, onde as taxas de empregabilidade são bastante elevadas mas começam a surgir algumas "sombras" no horizonte. Eu continuo a achar que é uma área com um enormíssimo potencial e onde toda a gente pode encontrar uma especialidade onde se sinta realizado e, portanto, feliz. E nesse sentido penso que é uma excelente opção.

Quais são os maiores desafios de um recém-formado do Mestrado Integrado em Medicina?

São os mesmo que qualquer outro recém-graduado. É o facto de deixarem de estar a trabalhar num ambiente controlado, onde parece que tudo acontece sempre com a supervisão de alguém que está por perto e começarem a ter de eles próprios trilhar o seu caminho, ganharem novas responsabilidade e portanto sentirem que passam a ser agentes muito ativos do desenho da sua prática profissional. Daí decorre que uma formação de qualidade, que torna as pessoas mais capacitadas para enfrentarem esses desafios, é fundamental.

Quais são as prioridades do curso nos próximos tempos?

As principais prioridades nos próximos tempos é garantir que nós conseguimos adaptar-nos às contínuas modificações na prática da medicina e dentro do possível, e se possível antecipá-las. Por exemplo, garantir que conseguimos incorporar na nossa formação, de uma forma muito mais vincada, um conjunto de competências que nós sabemos que são muitíssimo relevantes. É muito importante que os graduados de futuro sejam graduados competentes, por exemplo, no uso das novas tecnologias, porque essas novas tecnologias estão a invadir (no sentido positivo) o campo da medicina e eles vão ter que ser proficientes no seu uso. Ter um conjunto de competências que lhe permitam ser gestores da própria atividade profissional e terem um conjunto de competências de gestão (para as quais tipicamente não somos devidamente preparados); terem competências por exemplo na área da educação médica continua, que é um aspecto muito relevante porque os conhecimentos estão permanentemente a ser alterados e por isso, alguém que deixe de fazer formação, rapidamente fica desatualizado; competências na área do "Health advocacy", para serem agentes muito ativos na educação das populações e portanto conseguirem refocar a prática clínica para dois tipos de cuidados: a gestão da doença crónica e por outro lado, a prevenção.

Quais os principais desafios do Curso?

Os dois aspetos (prioridades e desafios) estão interligados. É garantir principalmente garantir que no portfolio formativo desta comunidade pedagógica essas competências possam ser adquiridas, treinadas, e retrinadas para que as pessoas sejam capacitadas para o exercício profissional. 


Texto: Ana Coimbra

Fotografia: Nuno Gonçalves


(Pub. Jun/2016)

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