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Entrevista.com, 20.05.2016
“… a recente remodelação do curso teve como objetivo a introdução de um novo percurso em Física Médica”.
UMinho
O UMdicas esteve à conversa com Francisco Macedo, para quem ser diretor de curso "é um trabalho muito exigente se o quisermos fazer bem". Para o diretor, uma das grandes prioridades do curso, no muito curto prazo, será a divulgação do novo percurso em Física Médica, um "produto novo" que será lançado para o mercado. Quando ao curso e aos seus alunos, conta que a licenciatura precisa de se dar a conhecer e abrir ao exterior, sendo que os seus alunos não têm sentido problemas de empregabilidade, uma vez que têm sido absorvidos pelo mercado de trabalho sem grande dificuldade.

Qual a sua formação e trajeto académico?

Sou Licenciado em Física pela Universidade de Aveiro (1990) e Doutorado em Física pela Universidade do Minho (2001). Entre o final da Licenciatura e o meu ingresso na UMinho, tive uma experiência profissional de curta duração, mas sempre ligado à Física.

Como caracteriza a sua função de diretor de curso?

É um trabalho muito exigente se o quisermos fazer bem. Existem várias áreas de atuação bastante diferenciadas, mas que exigem uma atenção e disponibilidade permanente. No caso da Licenciatura em Física, pela singularidade de estarmos a lançar um novo percurso, em Física Médica, há todo um trabalho intenso de preparação, que está a ser feito agora, para que tudo esteja em condições ótimas de funcionamento no início do próximo ano. Tirando este aspeto mais complexo, mas também mais estimulante, há o trabalho contínuo de gestão corrente, analisando e resolvendo todas as solicitações e pedidos que vão surgindo, há a questão fundamental da divulgação e da interação com a academia e com a sociedade (incluindo entrevistas ao UMDicas?), e a atenção permanente que é necessário dispensar aos alunos do curso, tentando estar atento aos problemas de modo a conseguir antecipar soluções.

O que o motivou a aceitar "comandar" este curso?

Conheço bastante bem o Curso. Lecionei durante vários anos diferentes UCs em diferentes anos letivos. Participei como membro em várias Comissões deste Curso e quando, no ano passado, surgiu o convite para assumir a direção, aceitei-o com normalidade. Tinha participado ativamente na elaboração do processo de reestruturação do curso e senti também alguma ?obrigação? em dar continuidade a todo um trabalho anterior em que também fui estando envolvido. O facto de saber à partida que poderia contar com os outros membros que compõe a atual direção foi também bastante importante na decisão.

As experiencias anteriores têm-no ajudado no cumprimento da sua função de diretor de curso?

Certamente. E acima de todas as outras uma que já referi no ponto anterior relacionada com o contacto próximo que fui tendo com os alunos ao longo dos anos.

Quais são as maiores dificuldades no cumprimento da sua função?

Na conjuntura atual à Comissão de Curso pede-se a quadratura do círculo. Numa altura em que é necessário lançar um "produto novo" para o mercado, os recursos que temos para o fazer são extremamente limitados, quando existem. Há todo um trabalho de organização e divulgação do curso, na sua nova forma, que está seriamente ameaçado por essa escassez de recursos. O estado de debilidade financeira do departamento do qual dependemos condiciona fortemente a nossa ação. Tentamos recorrer à imaginação, mas não chega para podermos fazer um trabalho "profissional" nessa vertente.

Um outro aspeto que condiciona recorrentemente a nossa ação é a burocracia, ainda demasiado pesada. Embora agora numa forma mais "eletrónica", continua a ter o mesmo efeito paralisante. São precisos demasiados passos e autorizações para resolver o que quer que seja e por mais simples que seja.

No seu entender, porque é que um futuro universitário deve concorrer à Licenciatura em Física?

Porque vai escolher uma Licenciatura que lhe vai proporcionar um conjunto de conhecimentos e de instrumentos que o vão preparar solidamente para os embates de uma futura vida profissional. Um curso que lhe vai dar opções de escolha, não o confinando à partida a uma profissão específica e que lhe vai permitir aceder a um mundo novo no que concerne ao seu entendimento da Natureza e do seu funcionamento.

A Física, na sua abrangência, é uma ciência integradora do conhecimento científico e tecnológico, intimamente ligada a outros domínios do saber como são a Matemática, a Química, a Biologia, as Ciências de Computação, as Engenharias e outras.

Quais são na sua opinião os pontos fortes deste curso? E os pontos fracos?

A qualidade dos alunos que temos formado ao longo dos anos é o nosso ponto mais forte. Temos um número significativo de antigos alunos espalhados pelo mundo, a trabalhar em ambientes muito competitivos e com resultados assinaláveis. Esse é o melhor indicador do trabalho que tem sido feito, assente num corpo docente estabilizado e com grande competência.

O ponto mais fraco reside na nossa crónica incapacidade de mostrarmos e valorizarmos o trabalho que fazemos. Um Licenciado em Física ainda continua a ser visto pela sociedade como ?uma ave rara?. A Física sempre foi vista pela comunidade como um edifício fechado. Algo demasiado esotérico, só ao alcance de alguns. E não tem de ser assim, porque isto nos limita na nossa capacidade de atrairmos os melhores.

O que caracteriza este curso da UMinho relativamente aos cursos de Física de outras universidades?

Há algumas marcas distintivas, embora assumamos uma postura cautelosa uma vez que pretendemos Licenciados em Física e não em qualquer outra área. Temos uma identidade forte nesse aspeto. Isso não nos impede de abrir outros caminhos. Ainda a recente remodelação do curso teve como objetivo a introdução de um novo percurso em Física Médica. É uma opção inovadora a nível de Licenciaturas em Portugal. Um outro fator que cremos ser distintivo é a grande componente laboratorial associada à Licenciatura. Os nossos alunos "mexem na Física", o que introduz na sua formação uma mais-valia assinalável que podem explorar em contexto profissional. 


Existem hoje em dia excesso de profissionais em determinadas áreas. O que podem esperar os alunos da Licenciatura em Física quanto ao mercado de trabalho?

Este não é, manifestamente, o caso. O número de licenciados em Física é relativamente baixo e têm sido absorvidos pelo mercado de trabalho sem grande dificuldade. Além disso, a formação de um Licenciado em Física não o limita a uma área específica, antes lhe fornece um conjunto de conhecimentos e instrumentos que lhe permitem facilmente a adaptação a diferentes realidades. A capacidade de equacionar e resolver problemas, partindo de uma formação sólida de Física e Matemática, acaba por se tornar, com frequência, um valor acrescentado para os licenciados em Física. As carreiras seguidas pelos antigos alunos da Licenciatura mostram um espetro largo de saídas profissionais, que vão desde laboratórios de investigação em instituições públicas e privadas, empresas, industrias, hospitais.

Quais são os maiores desafios de um recém-formado da Licenciatura em Física?

O maior desafio é o de se afirmar perante um mercado de trabalho que, em grande medida, desconhece o que é o trabalho de um físico e qual o potencial e a capacidade destes licenciados. É frequente percebermos que muitos dos ?empregadores? com quem contactamos tem uma grande falta de informação a este respeito, muitas vezes na fronteira da ignorância, achando que estes jovens "cientistas" não cabem nos perfis que entendem adequados para as suas empresas ou instituições. Há ainda a ideia que os cientistas são para as Universidades, e que nas empresas não se pode perder tempo a pensar, num contraponto errado entre o pensar e o executar. Mudar esta mentalidade é fundamental para o próprio país, mas é um processo geracional complexo.

Obviamente que há já empresas que reconhecem e procuram os jovens físicos. No entanto, num contexto do crescimento do número de licenciados nesta área, esse número tem necessariamente de crescer.

Quais são as prioridades do curso nos próximos tempos?

No muito curto prazo, a divulgação do novo percurso em Física Médica. Sendo um novo "produto" precisa de ser divulgado e dado a conhecer aos potenciais interessados e à sociedade em geral. Num contexto que ainda é de grandes restrições e dificuldades, esta não é uma tarefa menor.

Independentemente desse aspeto, há a necessidade permanente de captar novos e bons alunos, tentando sempre chegar aos potenciais candidatos mostrando-lhes as boas razões para virem para este curso e para esta Universidade.

Quais os principais desafios desta licenciatura?

Dar-se a conhecer, abrir-se para o exterior. O de tentarmos ver e ser vistos para além do horizonte que tem sido o nosso. O esforço que temos feito para concretizar este objetivo tem sido enorme.

Estarmos sempre atentos aos novos desafios. Hoje, tudo muda muito rapidamente e a Universidade, onde a Licenciatura se inclui, tem que ser capaz de acompanhar estes novos ritmos.

O maior desafio de todos será certamente o de conciliar a resposta a esses novos desafios com uma marca distintiva de qualidade e rigor que cremos já ser nossa. Só esses atributos, comprovados pela alta qualidade dos nossos licenciados, nos permitirão cimentar a nossa credibilidade perante a comunidade.

Com a descoberta das "Ondas gravitacionais", o mundo foi ainda agora confrontado com mais um extraordinário avanço no conhecimento, com consequências ainda difíceis de imaginar. Mais uma vez a Física estava lá. É essa a mensagem que temos de passar. A Licenciatura tem de se assumir como parte deste processo de evolução do conhecimento, para que quem pensa vir estudar Física também possa sentir que faz parte e que pode ser ator desse mesmo processo.

Texto: Ana Coimbra

Fotografia: Nuno Gonçalves

(Pub. Mai/2016)

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