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Entrevista.com, 04.01.2016
“(…) em vez de aprenderem estudando, aprendam fazendo (…)”
UMinho
O UMdicas esteve à conversa com Elisiário Miranda, para quem ser diretor de curso é ser interlocutor entre várias áreas, é ser um mediador para que o curso funcione e tenha a melhor qualidade possível. Para o diretor, a prática da Arquitetura é a combinação de vários mundos, situando-se "no meio de muitas coisas". Apontando o ponto mais forte do curso, a sua componente eminentemente prática, refere que neste aprende-se sobretudo fazendo.


Qual a sua formação e trajeto académico?

Sou arquiteto. Fiz o curso de arquitetura na Escola de Belas Artes do Porto, tendo-o concluído já na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP). Posteriormente ingressei na Universidade do Minho, como assistente estagiário. Em 2005 fiz cá as provas de aptidão pedagógica e capacidade científica, e em  2013,  o doutoramento.

Como caracteriza a sua função de diretor de curso?

A função de diretor de curso acaba por ser um trabalho mais executivo, em que temos de representar as comissões de curso, coordenar reuniões, organizar as provas de mestrado, despachar trabalho administrativo, bem como outras tarefas que nos são confiadas  pela Presidência e pelo  Conselho Pedagógico.

O que o motivou a aceitar "comandar" este curso?

Não foi bem uma questão de motivação, mas sim uma obrigatoriedade. É algo que alguém tem de fazer, e desta vez coube-me a mim.

As experiencias anteriores têm-no ajudado no cumprimento da sua função de diretor de curso?

Penso que sim. O trabalho de um diretor de curso é um trabalho que envolve a coordenação de várias pessoas, somos interlocutores entre várias áreas, somos mediadores. Na minha vida profissional como arquiteto tive de coordenar várias áreas, de fazer sínteses  entre vários especialistas.  Essa formação tem sido muito útil para um melhor desenvolvimento do meu trabalho como diretor de curso, que no fundo consiste em  articular o trabalho de  várias pessoas para que o curso funcione e tenha a melhor qualidade possível.

Quais são as maiores dificuldades no cumprimento da sua função?

Fundamentalmente é a falta de tempo. Estamos sempre a correr entre as várias atividades que fazemos. Como diretor de curso exerço  um cargo de gestão,  mas simultaneamente continuo a lecionar e a fazer investigação (atividades que  faço com maior gosto), uma multiplicidade de atividades que concorrem com o cargo de diretor de curso.

No seu entender, porque é que um futuro universitário deve concorrer ao Mestrado Integrado em Arquitetura?

Penso que há neste curso uma componente de expressão artística mas também tecnológica e cultural que é importante para um aluno que queira praticar uma profissão que combine um pouco de vários mundos e estabeleça sínteses entre várias áreas do saber,  e arquitetura é um pouco isso, situa-se no meio de muitas coisas.

Quais são na sua opinião os pontos fortes deste curso? E os pontos fracos?

O ponto mais forte reside na sua componente  eminentemente prática. Aos alunos que estão no curso são-lhes propostas situações de trabalho  que simulam a realidade, como se estivessem num atelier profissional,  o que lhes permite que, em vez de aprenderem estudando, aprendam  fazendo -  isto nas cadeiras de projeto, claro. Ou seja, os alunos saem  da Escola com um método de trabalho, um método de projeto que é extremamente sólido, que é reconhecido em termos internacionais como um bom método de trabalho, que lhes permite projetar o que quer que seja.  Saem de cá com competências generalistas que lhes permitem resolver  várias áreas e escalas de projeto.

O ponto fraco na minha opinião  (uma vez que acompanhei a fase pré-Bolonha e pós-Bolonha)  resulta da adaptação da estrutura do curso antes de Bolonha aos requisitos pós-Bolonha, o que levou a uma transformação curricular muito grande, que  compactou excessivamente os primeiros 3 anos do curso, sobrepondo-lhe depois um mestrado de dois anos.

O que caracteriza este curso da UMinho relativamente aos cursos de Arquitetura de outras universidades?

A minha comparação é principalmente com os cursos que conheço melhor, e falo do curso da FAUP - Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto  e o da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Estes três cursos têm coisas em comum, têm métodos comuns de ensino. Ambos, Coimbra e Guimarães, saíram do curso do Porto, são spin-offs do curso do Porto, depois, cada um deles foi seguindo o seu caminho. No entanto têm semelhantes metodologias de ensino,  do aprender fazendo, do desenho como método de pensamento.  No entanto, na UMinho o curso estabelece mais pontes com as questões de natureza tecnológica. Este curso foi criado  por docentes da FAUP em conjunto com docentes da Escola de Engenharia  da Universidade do Minho, o que   reforça a componente tecnológica  do ensino. O curso da UMinho está, a pouco e pouco a construir a sua própria identidade dentro deste conjunto  de três escolas de arquitetura.

Existem hoje em dia excesso de profissionais em determinadas áreas. O que podem esperar os alunos do Mestrado Integrado em Arquitetura quanto ao mercado de trabalho?

Infelizmente,  com a crise que se abateu sobre o país e com a  paralisação das obras públicas, da engenharia e da construção civil,  grande parte dos escritórios de arquitetura fecharam ou sobrevivem sem contratar novos licenciados. Espero que seja uma situação temporária,  até porque já há alguns sinais de retoma.  Os arquitetos portugueses são muito conceituados em termos internacionais, e há um património do conhecimento baseado na experiência, no trabalho de escritório, que se não continuar a existir vai desaparecer.

Quais são os maiores desafios de um recém-formado no Mestrado Integrado em Arquitetura?

O primeiro desafio é conseguir fazer um estágio profissional, os arquitetos portugueses têm de fazer um estágio de 9 meses (um estágio à  Ordem), o que obriga os nossos recém-licenciados, antes de serem arquitetos, a terem de trabalhar 9 meses num gabinete de arquitetura.  Quando saem do curso a primeira coisa que fazem é inscreverem-se no centro de emprego (por isso a taxa de desemprego é tão alta) para poderem arranjar estágio, só após o qual são reconhecidos pela Ordem como arquitetos.

Quais são as prioridades para o curso nos próximos tempos?

Resolver esta articulação entre o 1º e o 2º ciclo, entre o curso antigo e o curso novo, que me parecem continuar pouco  articulados entre si. Criar uma continuidade, conquistar horas de trabalho prático, horas de projeto, tentar simplificar um pouco esta estrutura extremamente complexa que foi criada com a reforma de Bolonha.

Quais os principais desafios desta licenciatura?

É difícil responder a isto, mas penso que um dos grandes desafios  seria facilitar a transição dos recém-formados para o mercado de trabalho. Isto poderia passar por o próprio curso criar mais estágios para os seus alunos, criar condições para termos mais centros de investigação, para recebermos mais bolseiros, por equacionarmos uma maior relação de proximidade entre a Academia e o mercado de trabalho, por estabelecermos pontes  com a sociedade civil, com as empresas do tecido económico da região Norte.


Texto: Ana Coimbra

Fotografia: Nuno Gonçalves


(Pub. Jan/2016)

Arquivo de 2016