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Entrevista.com, 04.12.2015
“O meu segredo é treinar, continuar sempre a trabalhar para evoluir.”
UMinho
Joana Cunha, aluna da Licenciatura em Gestão, é mais um dos "grandes trunfos" que a UMinho adicionou este ano ao seu "naipe" de atletas de excelência. Na sua primeira representação pelas cores da academia minhota, em novembro deste ano, Joana conquistou a medalha de prata no Campeonato Europeu de Taekwondo que se realizou na Croácia. Ao serviço da Seleção Nacional, a futura gestora contabiliza já outros importantes títulos internacionais, como a medalha de ouro no Europeu de Sub-21 e a de prata nas Universiadas de 2015.

Com que idade iniciaste a prática competitiva do Taekwondo e onde?

Comecei a praticar Taekwondo em 2009, com 14 anos, no Clube de Taekwondo Lobos Negros.

Achas que o taekwondo ajudou no teu desenvolvimento enquanto indivíduo?

Sim, o desporto em geral ajuda bastante no desenvolvimento de cada individuo. O Taekwondo em especial ajudou-me a confiar mais nas minhas capacidades, a ser mais trabalhadora e dedicada. Fez-me também conhecer diferentes países e culturas, o que me ajudou a crescer como pessoa.

Qual foi o papel da tua família no teu percurso enquanto atleta de alta competição?

Foi praticamente graças ao meu irmão que descobri esta modalidade. Levou-me para o ginásio para praticar exercício com ele, e nesse mesmo ginásio existiam aulas de Taekwondo, que foi onde comecei a treinar. Os meus pais sempre me apoiaram incondicionalmente, e com o passar do tempo começaram-se a interessar ainda mais pela modalidade.

Quantas vezes treinas por semana, e quanto tempo?

Treino seis vezes por semana, cada treino com a duração de duas horas.

Algumas pessoas associam as artes marciais a comportamentos violentos. O que tens a dizer a essas pessoas?

Acho que esse pensamento já mudou muito desde há uns anos atrás. As pessoas começam a ter mais conhecimento e informação sobre as artes marciais e percebem que fazem associações erradas e porventura até se interessam pelas mesmas, ao terem noção dos benefícios que ganham ao praticá-las.

Para as pessoas que ainda têm esse pensamento, convido-as a experimentar. Às vezes só quando fazemos as coisas por nós mesmos é que temos noção de como são. Eu considero-me uma pessoa calma, tranquila, e o Taekwondo não afetou em nada esse meu estado, nem me levou a ter comportamentos violentos.

A maneira como tu lidas com a pressão e a ansiedade antes dos combates é algo que tu consegues trabalhar e treinar, ou simplesmente é algo com que apenas lidas na hora em que entras no tatami?

Sim, é algo que treino. Quando comecei a competir ficava muito ansiosa e não lidava muito bem com isso. Com a participação em mais competições comecei a tentar arranjar algo que me acalmasse nesse aspeto, para que isso não afetasse o meu desempenho. Obviamente que agora ainda sinto um bocado, da adrenalina e principalmente antes do primeiro combate da competição, mas já controlo muito melhor do que no início. Ouço música, ou simplesmente converso com as pessoas, dependendo de como me sentir no dia.

Qual foi para ti o combate mais difícil que tiveste até hoje?

O combate mais difícil que tive até hoje foi este ano, no Campeonato do Mundo. No meu segundo combate da prova, combati contra a experiente atleta Húngara Edina Kotsis. Nesse dia, o jogo imposto por esta atleta foi superior ao meu, e não consegui responder de forma a ultrapassar as dificuldades.



És atualmente Campeã Nacional Sénior e Vice-Campeã Europeia Universitária. Qual é para ti a grande diferença entre a competição federada e a competição universitária?

A grande diferença é o número de competições e atletas em cada prova e o nível. Na competição federada realizo mais competições ao longo da época, e com mais atletas na minha categoria.

Algumas das atletas da minha categoria do top do ranking mundial e olímpico são profissionais, daí não participarem em competições universitárias, o que faz com que o nível seja superior nas federadas.

As Universiadas, onde conquistaste a tua primeira medalha numa grande competição mundial, o que representaram para ti?

A conquista da medalha de prata nas Universíadas foi espetacular. Nessa prova venci a atleta Húngara que me derrotou no Campeonato do Mundo e de seguida a atleta Sueca que me tinha derrotado nos primeiros Jogos Europeus. Considero-as adversárias difíceis e com muita experiência, estão no topo do ranking, e vencer a ambas nessa prova foi bastante gratificante porque demonstrou que evoluí e corrigi erros cometidos nas competições anteriores num curto espaço de tempo.   

Neste último Europeu Universitário, que decorreu na Croácia, conseguiste a medalha de prata. Foi difícil? Qual é a sensação de conquistar algo tão importante logo no teu primeiro europeu universitário?

Foi uma honra representar a Universidade do Minho neste meu primeiro Europeu Universitário. Fiquei feliz por ter conseguido conquistar a medalha de prata, de forma a recompensar a ajuda que a UM me tem dado e pela confiança que depositaram ao convocarem-me.

Este Europeu Universitário teve umas regras diferentes das normais, em que cada categoria estava dividida por grupos e tinha-se de combater uns contra os outros (no mesmo grupo), passando para as meias-finais quem tivesse mais vitórias, o que me permitiu realizar mais combates.

Com os excelentes resultados individuais de todos os atletas da equipa, a UM venceu o troféu de melhor universidade.

Sei que este não foi a tua primeira grande conquista em termos de europeus, pois já arrebataste o ouro no Europeu de Sub-21. Ainda te recordas de como foi esse dia e o que significou para ti?

Sim, foi um dia de muitas emoções. Foi a primeira vez que subi ao pódio e escutei e cantei o Hino Nacional, é um orgulho enorme representar o nosso País e terminar o dia de competição desta forma. É um título muito especial para mim, porque fui a primeira mulher Portuguesa no Taekwondo a conquistá-lo.

Qual é o teu segredo para tantos sucessos desportivos?

O meu segredo é treinar, continuar sempre a trabalhar para evoluir. Tenho a sorte de ter pessoas magníficas na minha vida que me ajudam diariamente para que isso seja possível.



Os Jogos Olímpicos de 2020 são o teu grande sonho?

Os Jogos Olímpicos são o meu grande sonho. Neste momento, são os Jogos Olímpicos de 2016. Em Janeiro do próximo ano ocorrerá o Apuramento Europeu para o Rio 2016, em que os dois finalistas de cada categoria são apurados para os jogos, e estou a trabalhar para ser uma delas. 

O que te levou a escolher a UMinho e o curso de Gestão? Está a correr tudo bem?

Escolhi a UMinho porque tenho amigos que estudam cá e sempre me falaram muito bem da Universidade, nas condições que têm de estudo e de treinos, e Gestão porque é um curso com boa saída profissional, na qual a UMinho está bem classificada e é uma área que me suscita interesse e curiosidade.

Para muitos atletas de alta competição torna-se difícil conciliar os estudos com a prática desportiva. Como é que tu consegues gerir esta nem sempre fácil "relação"?

Aproveito os tempos livres entre as aulas e os treinos para estudar. Quando tenho de faltar para ir às competições, tento estudar durante as viagens e quando chego peço os apontamentos das aulas aos meus colegas.

A UMinho iniciou em Portugal um programa pioneiro no que diz respeito ao apoio aos atletas de alta competição, o TUTORUM. O que pensas desta iniciativa e do programa em si?

É um programa muito importante para todos os atletas de alta competição conseguirem conciliar os estudos com a prática desportiva, que sem a existência do mesmo, tornar-se-ia mais difícil.

Já recebeste apoio através do TUTORUM? Se sim, em que áreas?

Sim, quando fui para o Campeonato Europeu Universitário faltei a um exame, e através deste apoio consegui marcar uma nova data para o realizar. Como só estou na UM desde Setembro, ainda não necessitei de apoio noutras áreas.

Os teus objetivos pessoais passam por uma carreira profissional no taekwondo ou os estudos vêm em primeiro lugar?

Ter uma carreira profissional no Taekwondo como atleta é difícil. Vou fazer os possíveis para continuar a conciliar o Taekwondo com os estudos, concretizar o meu sonho, e quando concluir os estudos, arranjar um emprego na área.

Descreve-me um dia na vida da Joana.

Durante a semana, o que faço durante um dia é basicamente o seguinte: acordo, tomo o pequeno-almoço, vou para as aulas, regresso a casa, almoço, estudo, vou para o treino, janto, estudo e quando o cansaço já não permite mais, vou dormir. Ao fim-de-semana, depois do treino de sábado, regresso a casa (Mozelos, Santa Maria da Feira) para passar algum tempo com a minha família e amigos e ao fim do dia de Domingo regresso a Braga.

Texto e Fotografia: Nuno Gonçalves

(Pub. Dez/2015)

Arquivo de 2015