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Entrevista.com, 29.12.2015
“…chega uma altura em que temos de assumir se queremos ou não ser parte da solução”
José Mendes nasceu em Braga em 1962. Licenciado em Engenharia Civil, Doutorado e Agregado em Planeamento do Território pela Universidade do Minho, é professor catedrático de Sistemas Regionais e Urbanos na Universidade do Minho, onde ocupou entre 2009 e 2015 o cargo de Vice-Reitor para a Valorização do Conhecimento. A sua chegada a Secretário de Estado Adjunto e do Ambiente com as pastas das políticas urbanas, os transportes urbanos e a habitação, chega através do XXI Governo Institucional, que tem na sua liderança António Costa. O ex-Vice-reitor, que não é filiado em qualquer partido entendeu ser esta a altura ideal para a sua entrada na política, acreditando que pode ser uma mais-valia para este governo e para o país


Quem é José Mendes?

A linha condutora da minha vida profissional está indelevelmente marcada pela Universidade do Minho. Foi e será a minha casa-mãe enquanto académico, quer investigador quer professor que teve o prazer de contribuir para a formação de muitos engenheiros. Mas este académico nunca descurou outras atividades. Fui empreendedor e empresário, consultor em entidades nacionais e internacionais, comentador político em jornais e canais de televisão e, desde 26 de novembro, aceitei o desafio patriótico de integrar o XXI Governo Constitucional. Como pessoa, sou alguém de hábitos simples, focado na família, que mantém amizades antigas e que se interessa, como espetador e como praticante, pelo desporto, pela gastronomia e pela música.

Qual a sua formação e trajeto académico?

Completei o doutoramento em Planeamento Territorial em 1993, seis anos após a licenciatura em Engenharia Civil na Universidade do Minho. Na preparação da tese, fiz estudos "sanduíche" nos Estados Unidos. Depois fui progredindo, através de concursos públicos até chegar a catedrático, em 2003. Pelo meio, leccionei no Brasil, em Moçambique, na Polónia e, em Portugal, também na Universidade de Coimbra. Fui ainda investigador convidado por um ano na Universidade de Bolonha, em Itália.

Devido à diversidade de funções, atualizei sempre os conhecimentos. Sendo engenheiro de formação, aquilo que faço hoje é gestão. Assim, voltei aos bancos da universidade e fiz pós-graduações curtas em governação pública (Univ. Harvard), inovação (Univ. North Carolina e Univ. San Francisco) e gestão (ISCTE).

Era Vice-reitor da Universidade do Minho, como surgiu a sua ligação à política?

Servi na Reitoria da Universidade do Minho em duas  ocasiões, com dois reitores diferentes. Até há um mês, antes de sair para o governo, era o professor no ativo com mais experiência em funções reitorais em toda a universidade. A minha chegada à política nada tem a ver com a universidade. Não sendo filiado em qualquer partido, fui por várias vezes desafiado para entrar na política, quer pela esquerda quer pela direita, na perspetiva dos meus méritos profissionais. Recusei sempre. Desta vez, entendi que estavam criadas as condições para a minha entrada na política.


Como viu esta sua nomeação para Secretário d e Estado Adjunto e do Ambiente do XXI Governo Institucional?

Com enorme orgulho e sentido de responsabilidade. A minha posição na Universidade era bem mais confortável, mas chega uma altura em que temos de assumir se queremos ou não ser parte da solução. O convite do senhor primeiro-ministro e do ministro do Ambiente foi colocado em termos que considerei irrecusáveis, quer porque me revejo no quadro ideológico da esquerda moderada, quer porque acredito, sem qualquer vaidade, que posso ser uma mais valia para este governo.

O que o motivou a aceitar fazer parte do Governo, principalmente tendo em conta a situação que o país atravessa?

Acredito firmemente que Portugal tem futuro. O enorme potencial desta nossa nação, do território às pessoas, está ainda por realizar. As oportunidades são incomensuráveis. Se o primeiro-ministro achou que eu podia ser útil, então só me restava estar disponível para ajudar a construir um melhor país, capaz de oferecer um projeto de vida para os nossos filhos. Sendo eu um produto integral do sistema público de educação, para o qual contribuí e do qual usufrui, é ainda mais intensa esta minha vontade de dar de volta o tanto que recebi.

Como tem sido esta transição de responsável universitário para Secretário de Estado?

São dois mundos bem diferentes. A Universidade tem um contexto de gestão pouco escrutinado pela comunidade académica, que se sente distante de uma equipa que não elegeu diretamente. O sistema de representação através de um Conselho Geral é demasiado imperfeito para ser efetivo. Já no governo, um Ministro ou um Secretário de Estado estão permanentemente sob o olhar do Parlamento e dos órgãos de comunicação social. Mesmo na estrutura governativa, as relações com o Ministério das Finanças estão omnipresentes em tudo o que se faz.

A Universidade do Minho viu dois dos seus professores nomeados para este governo. Qual a ilação que podemos tirar disto?

Trata-se de dois professores que integram o governo pelo seu percurso pessoal e pelas suas competências. Embora contribua para prestigiar a Universidade do Minho, não aconteceu por qualquer tipo de influência ou relevância da Universidade.

Quais serão no essencial as suas funções?

As pastas que me foram atribuídas incluem as políticas urbanas, os transportes urbanos e a habitação. No caso dos transportes, trata-se de uma tutela que estava no Ministério da Economia e regressa agora ao Ministério do Ambiente. Trata-se, portanto, de temáticas que estudei e em que trabalhei grande parte da minha vida. Estou certo que a minha experiência no terreno, quer ao nível internacional, quer ao nível regional e local, poderá acrescentar valor a um governo que considero de elevada qualidade.

Perante as circunstâncias que o país atravessa, Portugal precisava desta mudança de Governo?

Com certeza. A maioria parlamentar que suporta o governo mostra que assim é. É preciso perceber que foram e são ainda necessárias medidas duras para ultrapassar a situação difícil das finanças nacionais. O problema é que esta necessidade foi levada pelo anterior governo a um extremo que brutalizou uma boa parte da sociedade e fez estagnar a economia. Basicamente, foi imposto um aumento de impostos nunca visto, foram penalizados de forma desproporcional os reformados e os funcionários públicos, foram alienados ativos importantes do Estado e os mais jovens, por sinal com formação superior, foram empurrados para a emigração. Em paralelo, a dívida pública aumentou substancialmente. Valeu-nos o Banco Central Europeu, que foi capaz de manter os juros da dívida soberana a níveis anormalmente baixos. O que a coligação PSD/CDS não percebeu foi que a interpretação dos resultados da eleição de 4 de outubro seria feita no quadro da sua governação nos últimos quatro anos. É legítimo acreditar que há outro caminho e que o país precisa de novas políticas.

Quais são as suas principais ideias de governação para a pasta que terá pela frente?

Terei oportunidade de trabalhar em dois dos sectores que mais afetam a qualidade de vida dos portugueses: os transportes e a habitação. Vivem-se, em ambos os casos, tempos de mudança. Deverá ser reequacionado o papel do Estado no que se refere ao modelo de gestão e operação dos transportes urbanos nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, bem como ao novo enquadramento das autoridades de transporte em todo o país. Na habitação, a tónica será colocada na reabilitação urbana e no arrendamento, prevendo-se soluções que satisfaçam as necessidades daqueles que nos últimos anos perderam o acesso a um alojamento condigno devido à redução dos seus rendimentos. Noutra dimensão, será cumprido o desígnio da progressiva descarbonização da economia, com uma aposta forte na transferência modal do transporte motorizado individual para o transporte coletivo, os modos suaves e a mobilidade elétrica. O acordo saído da recente cimeira COP21, em Paris, reforça a necessidade destas políticas e a centralidade da fiscalidade verde.

Quais são para si os maiores desafios deste Governo?

Há duas crises em Portugal. A crise social, que afeta uma boa parte da população, sobretudo os ativos que têm que se governar com salários mais baixos. Para esses, há que fazer um esforço para que tenham algo mais de rendimento ao fim de cada mês. O aumento do salário mínimo, a devolução de parte dos cortes salariais e algum alívio da sobretaxa de IRS são certamente importantes e ajudam a dinamizar o consumo interno. Já a crise financeira, que afeta o défice orçamental e a dívida pública, demanda o crescimento da economia, algo que passará seguramente pelo aumento das exportações e do investimento. Só assim aumentará a receita fiscal e se reduzirá o desemprego, com poupanças também ao nível das prestações sociais. O governo precisará de estabilidade e, também, de um contexto internacional favorável. São desafios exigentes, mas estou convicto de que estaremos, governo e portugueses, à altura da situação.

Texto: Ana Coimbra

Fotografia: Nuno Gonçalves

(Pub. Dez/2015)

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