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Entrevista.com, 04.03.2013
"A Licenciatura em Matemática é um curso de banda larga"
UMinho
O UMdicas esteve à conversa com Thomas Kahl para quem ser diretor da Licenciatura em Matemática é assegurar o normal funcionamento do curso e propor medidas que visem ultrapassar dificuldades funcionais. Para este o curso é uma mais-valia pois dota os seus alunos de capacidades de rigor e de análise que ser-lhes-ão muito úteis no seu futuro profissional, enveredem pela área de matemática ou outra área qualquer.


Qual a sua formação e trajeto académico?

Estudei Matemática em Berlim, Alemanha, e fiz o meu doutoramento na área da Topologia Algébrica na Université Catholique de Louvain, na Bélgica, em 1998. Depois do doutoramento dei aulas na Universidade de Lille, em França. Desde o ano letivo 2001/2002 estou na UM, onde sou Professor Auxiliar.

Como caracteriza a sua função de diretor de curso?

A função principal do Diretor de Curso é assegurar o normal funcionamento do curso e propor medidas que visem ultrapassar dificuldades funcionais encontradas. Enquanto Diretor de Curso sou um elo de comunicação privilegiado entre os alunos, os docentes e o Departamento.

O que o motivou a aceitar "comandar" este curso?

O convite foi-me dirigido pelo Diretor do Departamento de Matemática e Aplicações, o Prof. Rui Ralha. Como já pertencia à anterior Comissão de Curso da Licenciatura em Matemática, aceitei este convite com naturalidade.

 As experiencias anteriores têm-no ajudado no cumprimento da sua função de diretor de curso?

Como pertencia à Comissão de Curso anterior, estava bem preparado para o cargo. Para além disso, fui durante muitos anos Coordenador Erasmus do meu Departamento. Nesta função elaborei muitos planos de equivalência para alunos da Licenciatura em Matemática. Esta experiência ajuda-me claramente agora nesta tarefa.

Quais são as maiores dificuldades no cumprimento da sua função?

Sentimos os efeitos da crise orçamental. Por falta de verbas não podemos implementar certas medidas de melhoria do curso. Por exemplo, gostaríamos de oferecer um apoio tutorial para os alunos do 1º ano, mas não podemos contratar os monitores necessários para isto.

Outro problema é que a crescente integração informática na Universidade não conduz sempre à simplificação dos processos. Tivemos, por exemplo, recentemente um problema com o calendário de exames. A Comissão de Curso tinha proposto ao Conselho Pedagógico um calendário de exames sem quaisquer sobreposições de exames. O calendário de exames final, feito usando um programa informático, não contemplou isto e houve exames de UCs diferentes que tiveram lugar ao mesmo tempo. Tenho dificuldades em imaginar que não houve salas disponíveis para poder implementar o nosso calendário de exames.


No seu entender, porque é que um futuro universitário deve concorrer à Licenciatura em Matemática?

Esperamos sempre que os nossos alunos estejam motivados pelo gosto pela Matemática. A licenciatura, sobretudo quando completada por um mestrado, fornece aos alunos o conhecimento em Matemática e as técnicas matemáticas necessárias para modelar e resolver problemas de âmbito científico ou tecnológico do mundo empresarial e da investigação. As capacidades de rigor e de análise que os alunos desenvolvem durante os seus estudos ser-lhes-ão, certamente, muito úteis no seu futuro profissional.

Quais são na sua opinião os pontos fortes deste curso? E os pontos fracos?

Como ponto forte destacava o facto de termos um corpo docente estável, experiente e com formação avançada nas áreas lecionadas no curso. Os docentes estão, em geral, muito disponíveis para os alunos e existe uma grande variedade de apontamentos e outros elementos de apoio ao estudo elaborados pelos docentes. Outro ponto forte do curso é o número significativo de UCs com componente laboratorial a funcionar em laboratórios de computação bem equipados.

Um ponto fraco do curso é a articulação com os Mestrados do Departamento de Matemática e Aplicações. Muitas vezes o Departamento não consegue abrir os Mestrados que os alunos preferem. Neste momento, o DMA está a repensar a sua oferta ao nível de mestrados.

O que caracteriza este curso da UMinho relativamente aos cursos da Licenciatura em Matemática de outras universidades?

A Licenciatura em Matemática é um curso de banda larga, fornecendo os conhecimentos básicos em Matemática, quer na sua componente fundamental quer na sua componente aplicada. O plano de estudos contempla as diversas áreas básicas, e grande parte das áreas complementares, internacionalmente consideradas essenciais numa formação de 1º ciclo em Matemática. O que diferencia o curso da UM de outros é o relevo dado à utilização de software de cálculo simbólico, numérico e de Estatística.

Existem hoje em dia excesso de profissionais em determinadas áreas. O que podem esperar os alunos da Licenciatura em Matemática quanto ao mercado de trabalho?

Existem diversos setores da economia que necessitam de profissionais com conhecimentos avançados em Matemática. Um exemplo é o setor financeiro como os bancos e os seguros. Também as tecnologias de segurança informática e de comunicações na Internet baseiam-se em Matemática sofisticada. É óbvio que os professores de Matemática precisam de uma formação sólida em Matemática. Este setor encontra-se infelizmente praticamente fechado neste momento. Os matemáticos estão de facto habilitados para trabalhar em muitas áreas porque as capacidades de raciocínio lógico, de abstração e de análise de estruturas complexas que têm, pela sua formação, são competências que os qualificam para as mais diversas tarefas de organização de processos como, por exemplo, de produção ou logísticos.

Antes de iniciar a vida profissional, muitos alunos optam, e isto é, na minha opinião, muito razoável, por estudar mais dois anos e fazer um Mestrado a fim de aumentar as suas qualificações. A Licenciatura em Matemática dá acesso a diversos Mestrados da UMinho e de outras universidades na área da Matemática e noutras áreas como, por exemplo, na Economia. O Departamento de Matemática e Aplicações tem atualmente vários mestrados: temos o Mestrado em Matemática, que é um mestrado generalista, e temos mestrados especializados em subáreas da Matemática, como o Mestrado em Estatística e o Mestrado em Matemática e Computação que está na interface entre a Matemática e a Informática. Como já disse, a oferta de Mestrados do DMA está a ser repensada neste momento.


Acompanhou o período das reformas de Bolonha, marcado por uma profunda alteração do modelo de ensino. Como o avalia?

A principal alteração introduzida pelo processo de Bolonha no ensino superior foi a divisão das antigas licenciaturas de 5 anos em cursos de 1º ciclo de 3 anos e cursos de 2º ciclo de 2 anos. A atual Licenciatura em Matemática sucede, quase diretamente, à licenciatura pré-Bolonha em Ensino de Matemática. O plano de estudos desse curso misturava disciplinas de Matemática e disciplinas de Educação, tendo sido o peso total das disciplinas de Matemática essencialmente de três quintos. O efeito de Bolonha é a concentração da parte da Matemática nos três primeiros anos. Quem quiser hoje fazer uma formação correspondente à antiga Licenciatura em Ensino de Matemática tem de fazer primeiro a Licenciatura em Matemática e depois um Mestrado adequado em Educação. Assim, no caso da nossa licenciatura, a diferença é que a escolha da especialização é feita mais tarde, depois de 3 anos de formação de base em Matemática. Visto as dificuldades económicas atuais, esta alteração parece-me positiva.

Em relação às metodologias de ensino, estas não se alteraram significativamente com o processo de Bolonha. As aulas teóricas continuam a ser dadas no quadro, e os alunos resolvem exercícios em casa e nas aulas práticas. Na minha opinião é bom que não se tenha alterado este modelo clássico do ensino da Matemática que é aplicado com sucesso em todo o mundo.

Quais são as suas prioridades para o curso nos próximos tempos?

É muito provável que o curso seja avaliado no próximo ano letivo pela A3ES, a Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior, e é obviamente muito importante conseguir que o curso seja bem avaliado e continue acreditado. Outra prioridade é a estabilização da procura do curso. Depois de alguns anos difíceis, o curso conseguiu este ano letivo encher na primeira fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior público. De facto, temos muitos alunos com boas médias e que escolheram o curso como primeira opção. Esta situação deve-se certamente também ao esforço que o Departamento de Matemática e Aplicações e a Escola de Ciências têm feito ao nível da divulgação dos cursos. Devemos trabalhar no sentido de continuar com uma boa procura do curso por alunos bons e motivados.

Quais são para si os principais desafios?

É vital para o curso melhorar a articulação entre a licenciatura e a oferta educativa do Departamento de Matemática e Aplicações ao nível do 2º ciclo . Verifica-se, de facto, que muitos alunos estão interessados no Mestrado em Matemática Económica e Financeira que é um curso que o DMA tem em conjunto com a Escola de Economia e Gestão e cuja abertura o DMA não tem conseguido concretizar nos últimos anos. Temos de sensibilizar os alunos para os Mestrados que o DMA pode abrir e temos de reestruturar a nossa oferta de cursos de 2º ciclo indo ao encontro das expectativas dos alunos. O DMA está consciente destes problemas e está a trabalhar para encontrar soluções.


Texto: Ana Coimbra

Fotografia: Nuno Gonçalves


(Pub. Mar/2013)

Arquivo de 2013