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Entrevista.com, 30.01.2013
“A dimensão associativa ajuda-nos a crescer enquanto cidadãos e enquanto seres humanos”
UMinho
Carlos Videira é o atual presidente da Associação Académica da Universidade do Minho (AAUM). Empossado no passado dia 11 de janeiro, o aluno do Mestrado em Direitos Humanos e natural de Vila Praia de Âncora já era dirigente associativo desde 2011, em 2012, motivado pela vontade de servir e representar os estudantes candidatou-se à presidência da AAUM, função que assume como "o maior desafio que já abracei ao longo da minha vida".



O UMdicas esteve à conversa com o novo presidente para saber quais as ideias, dificuldades, projetos e ações da AAUM para o próximo ano, entre elas alguns pormenores sobre a Gata na Praia e Enterro da Gata.

Quem é Carlos Alberto Videira?

Acima de tudo, é um estudante como qualquer outro, ainda que neste momento seja Presidente da Associação Académica. Tenho 21 anos e sou natural de Vila Praia de Âncora. Ingressei na Universidade do Minho em 2009, no curso de Relações Internacionais que conclui no passado mês de Julho. Neste momento, frequento o 1º ano do Mestrado em Direitos Humanos. Paralelamente, tive a oportunidade de desenvolver um percurso associativo, quer no Centro de Estudos do Curso de Relações Internacionais (CECRI) do qual fiz parte entre 2010 e 2012, quer na Associação Académica da Universidade do Minho, cuja direcção integro desde o ano de 2011.

Ser presidente da AAUM era um sonho ou algo que aconteceu por acaso?

Quando, em Novembro de 2010, o Luís Rodrigues me convidou a integrar a direcção de 2011, como director do Departamento Social & Relações Internacionais, aceitei o desafio motivado pela oportunidade de poder representar os meus colegas e dar uma resposta aos problemas com que eles se batem no seu dia-a-dia. Desde então, fui desenvolvendo o meu trabalho em prol dos estudantes e da Associação Académica que foi reconhecido e valorizado pelos meus pares. Tendo isso em conta, e estando reunidas todas as condições pessoais, familiares e académicas para avançar para uma candidatura, tomei a decisão de encabeçar uma lista, que felizmente mereceu o voto de confiança da grande maioria dos meus colegas no passado dia 4 de dezembro.

O que te levou a apresentar a candidatura à Direção da AAUM?

No seguimento do que referi anteriormente, apresentei a minha candidatura motivado pela vontade de servir e representar os estudantes, bem como de contribuir para o crescimento que a Associação Académica tem percorrido ao longo dos últimos anos. O forte incentivo que recebi dos meus pares e também ex-dirigentes de grande prestígio foram também determinantes.

O que significa para ti ser Presidente da AAUM?

Ser presidente de uma instituição como a Associação Académica da Universidade do Minho é uma grande honra e uma grande responsabilidade. Representar cerca de 19 mil estudantes, numa das fases mais difíceis para o Ensino Superior e para o nosso país ao longo das últimas décadas, é certamente o maior desafio que já abracei ao longo da minha vida.



Quais as linhas orientadoras que propões para dirigir a AAUM?

Será um mandato muito virado para as questões sociais. Teremos que dar continuidade às reivindicações ao nível da ação social junto da tutela e de todas as entidades envolvidas nos processos de acção social. Estaremos atentos ao Fundo Social de Emergência a ser criado na Universidade do Minho, procurando contribuir para uma regulamentação justa e flexível do mesmo, bem como apoiar financeiramente a sua implementação. Temos ainda a intenção de avançar com packs de senhas ao nível dos transportes Braga-Guimarães, bem como baixar o preço dos packs de senhas de cantina, agindo junto da Reitoria e dos Serviços de Acção Social nesse sentido. Por fim, procuraremos ainda avançar com um estudo que ajude a adaptar as infra-estruturas da Universidade do Minho para alunos com mobilidade reduzida.

Depois, procuraremos também assegurar uma maior presença da AAUM em Guimarães: com mais iniciativas no campus, reivindicando melhores condições de acesso entre as residências universitárias e o campus de Azurém, trabalhando no estabelecimento efetivo da reprografia da Escola de Arquitetura e procurando promover a deslocalização de serviços da AAUM disponibilizados ao aluno, nomeadamente o Liftoff - Gabinete do Empreendedor e o Gabinete de Inserção Profissional.

Que inovações pretendes incutir no seio da Associação?

Uma das principais inovações que queremos implementar é ao nível do cartão de sócio da AAUM. Queremos estender o uso do cartão a um número maior de utilizadores. Temos que o tornar mais atrativo, aumentando o número de parcerias e, consequentemente, as vantagens comerciais e institucionais para os associados da AAUM. Além disso, queremos estender a utilização do cartão de sócio aos diversos serviços prestados pela AAUM, como por exemplo nos transportes intercampi e nas reprografias. Gostaríamos de ter tudo operacional aquando do início do próximo ano letivo, em setembro.

Já eras dirigente associativo. Quais são para ti os prós e contras do exercício deste papel?

Os prós estão muito ligados à motivação de construir e transformar coisas. Conceber e organizar actividades ou iniciativas que marcam o percurso académico de milhares de alunos (seja a nível desportivo, social, pedagógico, formativo, cultural, ou outros) é sempre muito gratificante, e representa um enriquecimento extracurricular que se revela muito útil no nosso crescimento enquanto estudantes e cidadãos. Os contras estão muitas vezes relacionados com a exigência deste papel, que faz com que tenhamos que sacrificar muito do tempo que gostaríamos de passar junto dos nossos amigos e familiares mais próximos. Mas acredito que, com esforço e abnegação, tudo é conciliável.

Quais pensas que serão as maiores dificuldades com que te vais debater enquanto Presidente da AAUM?

Acho que nunca como hoje, em democracia, o Ensino Superior passou por tantas dificuldades em Portugal. Temos um quadro de subfinanciamento que coloca a própria sustentabilidade das universidades em risco. Um nível de propinas absolutamente inaceitável e um sistema de acção social injusto e insuficiente face às necessidades dos estudantes. Uma rede de ensino superior confusa e a precisar de racionalização. Temos, ainda, níveis de desemprego qualificado assustadores e cada vez mais jovens a optar pela emigração. É um quadro muito preocupante e que, infelizmente, tende a agravar-se. Será, certamente, missão da AAUM e do movimento associativo nacional alertar para este estado de coisas e propor alternativas para contrariar este paradigma.



Na tua opinião quais devem ser as atitudes/qualidades fundamentais do Presidente de uma Associação Académica?

Em primeiro lugar, acredito que um presidente nunca se pode esquecer de que antes de ser dirigente associativo também é estudante. Deve ser disponível, saber ouvir, ser responsável pelos compromissos que assume, deve saber trabalhar em equipa e ter uma postura humilde, ou seja, deve estar sempre disponível para aprender cada vez mais. Depois, acho que um presidente nunca se deve esquecer de que está de passagem - pertence a uma instituição que é anterior a ele e que continuará depois dele. Por fim, acredito que quem decide abraçar um desafio destes só o deve fazer se tiver a predisposição para marcar e para ser marcado. A predisposição de trazer o seu tempo, as suas capacidades e o dinamismo para construir algo de novo e melhor. A predisposição de aprender com o que já foi feito, com os valores assimilados e com a herança recebida. A predisposição de se deixar identificar com uma história que passa a ser sua e de que passa a fazer parte. É sobretudo isto que as instituições nos dão se formos capazes de encontrar no passado a inspiração para um futuro que se quer cada vez melhor. E esse futuro alcança-se através de muito trabalho, de uma entrega genuína e altruísta, de uma dedicação voluntária, mas responsável.

Pensas que este percurso de dirigente associativo será relevante para a tua formação enquanto indivíduo e para o teu futuro?

É evidente que sim. A dimensão associativa ajuda-nos a crescer enquanto cidadãos e enquanto seres humanos. Aprendemos a ser mais tolerantes e mais respeitadores para com os nossos colegas e adversários. A lutar por objectivos e a trabalhar para os atingir. A valorizar o espírito de equipa como condição essencial do sucesso. A ser solidário nos bons e maus momentos. A reconhecer o mérito dos outros e a aprender com eles. São aprendizagens essenciais para a nossa vida pessoal e profissional e que não cabem em nenhum curriculum vitae.

Quais são os projetos mais importantes da AAUM e desta direção a médio/curto prazo?

Ao nível do desporto, queremos apostar na promoção do desporto de recreação e ter uma participação ativa no evento Guimarães 2013: Cidade Europeia do Desporto, nomeadamente através da organização dos Campeonatos Nacionais Universitários Individuais Concentrados. Em termos pedagógicos, queremos ter uma participação ativa na discussão do Regulamento Académico e na promoção dos processos de avaliação internos e externos da Universidade do Minho, continuando a reivindicar salas de estudo e bibliotecas abertas 24 horas por dia. Ao nível do Departamento de Saídas Profissionais & Empreendorismo, pretendemos intensificar atividades sectoriais junto das Escolas e Institutos. Daremos uma atenção especial aos alunos de pós-graduação, tendo em conta as suas necessidades específicas e criando um Conselho Consultivo do Departamento de Pós Graduação, composto por membros da direcção e representantes de diversos órgãos da Universidade que auxilie na definição e dinamização das suas linhas de ação. Manteremos a aposta na mobilidade, através da recém-criada Erasmus Students Network Minho, mas que conta já com um dinamismo assinalável e resultados muito promissores.

No teu entender a AAUM deve potenciar uma maior aproximação aos estudantes? De que forma pretendem fazer isto?

Sim, temos que procurar aumentar essa relação de proximidade. Teremos que estabelecer um contacto permanente com os núcleos de curso, comissões de residentes, grupos culturais e delegados e alunos representantes, auscultando as diferentes sensibilidades e problemas, concertando posições e articulando ações em conjunto. É fundamental que todos os estudantes vejam em cada dirigente associativo um aliado.



A anterior direção criou o Gabinete do Voluntário. Quais têm sido as mais-valias deste para a AAUM, para a Academia e para as entidades promotoras das mais variadas campanhas?

O voluntariado é um assunto muito querido à Associação Académica e certamente que esta direcção o procurará promover como exercício de cidadania essencial que é nos dias que correm. O Gabinete foi uma ideia lançada no ano passado mas que não chegou a ter uma implementação plena e terá que ser alvo de reavaliação por parte desta nova direcção, no sentido de encontrar a solução que melhor potencie o desenvolvimento do voluntariado na nossa academia.


Qual a tua opinião sobre o atual regulamento de atribuição de bolsas de estudo, e qual o teu feedback sobre o processo este ano na UMinho? A AAUM continua a debater-se por melhorar a situação dos estudantes? O que tem sido feito ou têm previsto fazer?

O actual regulamento, continua a ser manifestamente insuficiente face às crescentes necessidades dos estudantes carenciados do Ensino Superior, contendo critérios de atribuição geradores de injustiça e desigualdade de oportunidades. Parece-nos positiva a existência de um prazo de candidaturas mais alargado e não coincidente com o período de exames. No entanto, entendemos que existe ainda uma série de critérios que devem ser revistos ou revogados, sob pena de continuarmos a ter estudantes em grandes dificuldades. Existem princípios que não estão a ser respeitados, como o princípio da garantia de recursos que não é respeitado nas situações em que o aluno é excluído do direito à bolsa de estudo quando a família está numa situação de dívida, algo que não se deveria verificar, visto que a bolsa é um apoio directo do Estado ao estudante e não ao seu agregado familiar, bem como o princípio da boa aplicação dos recursos públicos que é posto em causa quando o regulamento permite que estudantes de agregados familiares com rendimentos elevados provenientes de participação em sociedades recebam bolsa, visto que os mesmos continuam sem ser contabilizados no cálculo de capitação do agregado familiar.


Consideramos ainda que o critério do aproveitamento é susceptívelde distorcer um sistema de acção social para um sistema de mérito, Por fim, a contabilização do património mobiliário continua a ser uma situação muito penalizadora para os estudantes e as suas respectivas famílias, dada a dupla contabilização dos rendimentos, entretanto transformados em poupanças, e a ausência de um escalão isento de taxação no caso das famílias com menores recursos. A AAUM, juntamente com o movimento associativo estudantil nacional, continuará a reivindicar estas e outras alterações junto da tutela de forma a garantir que nenhum estudante deixe o Ensino Superior por dificuldades financeiras.

Que futuro prevês para o Ensino Superior em Portugal?

Não prevejo um futuro risonho se o Estado continuar a cortar o financiamento público para as Instituições de Ensino Superior, tal como tem feito ao longo dos últimos anos, nem se as Universidades continuarem a sobrecarregar os estudantes e as suas respectivas famílias exigindo-lhe o pagamento da propina máxima, tal como tem sido hábito. Em 2013, assinalam-se dez anos da entrada em vigor da Lei de Financiamento do Ensino Superior. Penso que é tempo de fazer um balanço e admitir que essa mesma lei tem que ser alterada porque baseia-se numa falácia. Dizia-se que as propinas iriam ser utilizadas no incremento da qualidade do ensino, mas a verdade é que as mesmas servem para assegurar o regular funcionamento das instituições. E entretanto, o valor já subiu cerca de 200 € relativamente a 2003. Onde estaremos daqui a dez anos se nada for feito? É a pergunta que gostava de deixar no ar...

Qual a tua maior preocupação enquanto representante dos estudantes?

A minha maior preocupação será acautelar que não haja estudantes a deixar a Universidade por falta de verbas. O Fundo Social de Emergência, que entrará em vigor no segundo semestre, tal como avançou o Reitor da UMinho, será um instrumento importante para acudir alunos, comprovadamente, em situações limite que exijam uma resposta célere e flexível. A AAUM procurará garantir uma regulamentação adequada, acompanhar todo o processo de operacionalização do fundo e contribuir, na medida do possível, para o financiamento do mesmo.

Uma sede para a AAUM no Campus de Gualtar é um projeto há muito ambicionado. Quais são as perspetivas de concretização? O que tem faltado?

A nova sede da AAUM é um sonho antigo de várias direcções da Associação Académica e esta equipa procurará dar um novo impulso a este projecto. Muito sinceramente, acho que o que tem faltado é a vontade política de vários agentes envolvidos neste processo, que infelizmente têm menosprezado e menorizado esta necessidade crescente dos estudantes do Minho. Estou certo de que a crise económica e financeira que o país atravessa também não ajuda a avançar com um investimento tão avultado como este, mas há que encontrar soluções alternativas que desbloqueiem o actual impasse. A AAUM tem vindo a fazer um enorme esforço no sentido de garantir verbas para o avanço deste projecto e a mobilizar os diversos agentes para esta questão. Nesse sentido, mais do que nunca, a AAUM e os estudantes estarão atentos à sensibilidade dos diversos actores envolvidos nesta questão ao longo do ano.

A UMinho tem sido palco de eventos desportivos universitários nacionais e internacionais de grande relevo, organizados em cooperação com a AAUM, desde campeonatos mundiais, europeus, Fases Finais CNU´s. Quais são os objetivos principais destas organizações e o que pensas desta aposta que tem sido feita há já vários anos?

Não tenho dúvidas de que tem sido uma aposta ganha que terá continuidade este ano com a organização dos Campeonatos Nacionais Universitários Individuais Concentrados em Guimarães. A organização destes eventos desportivos tem como objectivo a promoção do desporto universitário na UMinho, como forma de enriquecimento extracurricular, bem como forma de fomentar hábitos de vida saudáveis. Além disso, há sempre uma envolvência que se cria neste tipo de organizações, com muitos estudantes a colaborar como voluntários, dando a conhecer a nossa Academia a quem nos visita e a tomar contacto com as várias modalidades em competição.

Gata na Praia. Para quando e onde decorrerá este ano a atividade?

A previsão é que decorra entre os dias 23 e 28 de Março, nas férias da Páscoa, tal como habitual. Quanto ao local, ainda estamos a estudar qual será a melhor opção.

Enterro da Gata. Quais as datas para o evento? Quais serão as novidades preparadas pela AAUM para este ano?

Estamos condicionados pela calendarização da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, sendo que estamos a articular essa questão com o Sporting Clube de Braga, no sentido compatibilizar ambas as actividades. Assim que esta questão estiver resolvida, a direcção dará essa informação a toda a Academia. Quanto a novidades, prefiro não desvendar nada por agora. O que posso garantir é que está tudo está a ser preparado com grande cuidado e sentido de responsabilidade.

Qual a relação da AAUM com a atual Reitoria?

É uma relação de total independência. São duas instituições autónomas que desenvolvem a sua acção de acordo com aquilo que consideram ser o melhor para a Universidade e para os estudantes. Nesse sentido, apesar dessa independência que se assume como basilar, há um diálogo constante e construtivo entre as mesmas no sentido de discutir problemas comuns e encontrar quadros de colaboração que permitam alcançar sinergias que possam levar a melhores soluções.

Que mensagem gostarias de deixar aos estudantes da UM?

Gostaria de apelar à participação dos estudantes na vida da academia, incentivando-os a assumirem uma postura criativa e empreendedora. Gostaria de dizer aos estudantes que a AAUM está cá para os servir e para complementar o seu percurso académico a todos os níveis - pedagógico, social, lúdico, cultural, desportivo, formativo, etc. - com as actividades e os projectos feitos a pensar neles. Porque só assim é que faz sentido. 


Texto: Ana Coimbra


Fotografia: Nuno Gonçalves



(Pub. Jan/2013)

Arquivo de 2013