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Entrevista.com, 29.04.2011
“…o ato de conhecer é indissociável do ato de interrogar e, assim, o ensino não se compreende separado da investigação…”
UMinho
Pró-reitora para o Ensino, Paula Cristina Martins é Professora Auxiliar do Departamento de Psicologia Aplicada da Escola de Psicologia da Universidade do Minho (UMinho). Desde Março de 2006, desempenhou as funções de Vice-Presidente do Instituto de Estudos da Criança. Actualmente faz parte da equipa reitoral.


É Pró-Reitora para o pelouro do Ensino. Qual é a essência desta pasta?

O ensino constitui a pedra angular da Universidade, no duplo sentido de fundamento e de missão. As Universidades são contextos privilegiados de transmissão, apropriação e construção de conhecimento, sendo o ato de conhecer indissociável do ato de interrogar e, assim, o ensino não se compreende separado da investigação.

Por outro lado, é uma atividade de interação, direta e mediada, que envolve diferentes atores, tendo como protagonistas os estudantes e os professores.

Ao nível organizacional, implica o funcionamento articulado das Escolas e Institutos com os diversos serviços da Universidade e, mais amplamente, com os contextos sociais considerados relevantes.

Em suma, trata-se de uma "pasta" com um conteúdo  - a oferta educativa - um conjunto de processos que, globalmente, podemos denominar como pedagógicos e com uma estrutura organizativa que deve propiciar as condições necessárias ao desenvolvimento deste projeto.

Quais são os principais objectivos dopelouroque lidera até 2013?

De uma forma global e focando as três dimensões acima enunciadas, centraria os nossos objetivos:

. na qualificação da oferta educativa - trata-se de uma tarefa, por definição nunca terminada, que envolve a consideração de diversos parâmetros, entre os quais salientaria:

a) a qualidade científica e pedagógica dos conteúdos ministrados;

b) a sua adequação às solicitações sociais e às necessidades e expetativas dos estudantes;

c) a sua atualidade e inovação, promotoras da sua reformulação contínua numa lógica proativa, necessariamente baseada na melhor investigação;

d) a sua relevância, aferida não só por critérios pragmáticos, de utilidade prática imediata, mas também de utilidade simbólica e como valor crítico, diferenciador da formação pessoal e cívica dos estudantes;

e) a sua economia, traduzida numa oferta eficiente, que permita racionalizar tanto o investimento dos docentes como o dos alunos, maximizando as possibilidades de aprendizagem destes e salvaguardando o tempo necessário àqueles para investirem no seu desenvolvimento profissional nas diversas vertentes da sua atividade.

. na qualificação dos processos pedagógicos nos 3 ciclos de ensino - tradicionalmente, a importância atribuída à dimensão pedagógica do ensino tendo sido inversamente proporcional à idade do aprendiz, pressupondo-se, em última análise, que um adulto dispõe das competências necessárias para aprender de forma autónoma e eficiente. Este entendimento conduziu à saliência da competência científica do professor universitário, em detrimento da sua aptidão pedagógica, um viés que as condições de progressão na carreira e da sua avaliação vieram acentuar. Todavia, a democratização do acesso ao Ensino Superior, a emergência e diferenciação de novos públicos, a proliferação de mediações pedagógicas múltiplas, em particular de caráter tecnológico, e a progressiva atenção conferida ao sucesso académico estão, atualmente, a contribuir para a revalorização da vertente pedagógica do professor universitário como um elemento fundamental do seu estatuto e do seu papel.

. na eficiência da coordenação entre as escolas e os serviços relevantes - o incremento exponencial dos cursos oferecidos nos últimos anos e o consequente aumento do número de estudantes requerem a reequação das modalidades de integração das atribuições das Unidades Orgânicas de Ensino e Investigação e das Unidades de Serviços, um processo em que a capacidade técnica e informática desempenha um papel crítico para a qualidade da prestação junto dos alunos, dando resposta às suas necessidades e expetativas progressivamente mais exigentes.

A evolução nestes níveis permitir-nos-á certamente atingir o objetivo de atratividade, baseada na qualidade reconhecida, que se pretende crescente, da Universidade, de estudantes que procurem uma formação diferenciada e que, reciprocamente, prestigiem a Universidade pelo seu mérito académico.


Um dos vectores centrais do Programa de acção para o quadriénio 2009-2013 é Valorizar a oferta educativa e a educação integral. O que tem sido feito neste âmbito?

A Universidade do Minho tem adotado um conjunto de estratégias que, de forma conjunta e sinérgica, nos permitem evoluir no sentido pretendido. Saliento pela sua atualidade:

- a acreditação da nossa oferta formativa junto da Agência de Avaliação A3ES, com o sucesso que conhecemos;

- a racionalização desta oferta, que implica um debate profundo das Escolas e Institutos proponentes da mesma;

- o desenvolvimento do Sistema Interno de Garantia da Qualidade, que institui procedimentos de auto-monitorização da qualidade do ensino, entre outras dimensões de prestação da Universidade, permitindo-lhe maior autonomia na gestão da sua oferta e o consequente reconhecimento externo da sua qualidade;

- a elaboração do portefólio de cursos e unidades curriculares que não só constituirá a matriz da oferta educativa da UM, como facilitará a visilibilidade externa da mesma.

A revisão extensiva da oferta educativa permite a identificação de áreas lacunares e de outras redundantes e o seu confronto com os diferentes perfis de desempenho profissional, em que a flexibilidade e o domínio de competências e saberes básicos fundamentais, necessários ao funcionamento adaptativo e mesmo criativo em contextos de trabalho diversos, se conjugam com a necessidade de especialização e de mobilização de conhecimentos e competências específicas e avançadas.

Um dos desafios estratégicos propostos são uma "claraaposta no crescimento da Universidade". Para além da abertura em horário pós-laboral quais têm sido as outras oportunidades exploradas ou a explorar?

O que está em causa é o papel que a Universidade quer, pode e deve ter como agente de promoção e desenvolvimento social, contribuindo com a geração e transferência de conhecimento para a produtividade e crescimento económico e para recriação da cultura que constitui o tecido identitário da sociedade, conjugando-se reciprocamente na coesão social. Neste sentido, uma Universidade não cresce sozinha, mas arrasta consigo na sua dinâmica positiva de valorização individual e social todos quantos com ela se envolvem. Em tempos particularmente difíceis, qualificação e conhecimento são as armas do desenvolvimento e da paz.

O crescimento da Universidade pressupõe um incremento do número de estudantes nos 3 ciclos de ensino, a diferenciação de modalidades de acesso e a diversificação da oferta educativa.

No ano letivo em curso verificou-se um investimento mais consistente e focalizado nos cursos de 1º ciclo em horário pós-laboral, o que representou o início de um percurso que se pretende desenvolver e aprofundar, quer do ponto de vista do melhoramento das condições de funcionamento proporcionadas aos alunos, quer do ponto de vista da diversificação dos cursos oferecidos neste horário.

Pretende-se ainda aumentar a captação de recursos humanos ativos, designadamente mediante a modalidade dos Maiores de 23 e de titulares de cursos médios, superiores e pós-secundários.

Por outro lado, e de acordo com a legislação vigente, a Universidade do Minho oferece um amplo leque de unidades curriculares que poderão ser frequentadas de forma isolada por potenciais interessados em saberes específicos, numa lógica de valorização pessoal, de atualização de conhecimentos ou de redefinição de competências.

A esta aposta na captação de novos públicos corresponde a diferenciação das áreas de saber, de que é exemplo notável o desenvolvimento do domínio dos estudos artísticos, com uma oferta inovadora, progressivamente mais ampla.

Procura-se ainda criar instrumentos de suporte, como aqueles facilitadores da regularização de dívidas anteriormente contraídas com a UM por antigos alunos, de forma que estas não constituam obstáculos à continuação ou retoma dos seus estudos.




O Centro de Apoio ao Ensino já foi criado? Quais serão os seus objectivos e utilidade?


O Gabinete de Apoio ao Ensino (GAE) constitui um serviço especializado constante do Regulamento Orgânico das Unidades de Serviços da Universidade do Minho, aprovado pe lo Despacho RT-49/2010.

A adopção do modelo de Bolonha, o aumento e diversificação de públicos das Instituições de Ensino Superior, a crescente diversificação da oferta formativa, a introdução de novas tecnologias de e-learning , assim como o reconhecimento da relevância da actividade de pedagógica na avaliação dos docentes, conferem uma nova relevância à actividade de ensino na Universidade.

A promoção da competência pedagógica dos docentes, incluindo a utilização de tecnologias de apoio à leccionação, constitui assim uma dimensão do desenvolvimento da profissionalidade docente no ensino superior em que a Universidade do Minho pretende investir, reconhecendo-se a sua relação com a qualidade da aprendizagem dos estudantes.

O Gabinete de Apoio ao Ensino pretende concretizar este desiderato, constituindo-se como uma unidade dedicada à formação dos professores do Ensino Superior, nas vertentes tecnológica e pedagógica, nas diferentes áreas do saber, e ao apoio à utilização proficiente dos recursos tecnológicos mais avançados de suporte e mediação da actividade docente.

Igualmente atento aos processos de aprendizagem e adaptação dos alunos, procurará promover o desenvolvimento de projetos que visem a facilitação destes processos, a promoção das competências de aprendizagem dos estudantes e o desenvolvimento de competências académicas transversais.

Um dos objectivos era generalizar o uso de plataformas e-learning . Isto é já uma realidade? De que formas tem sido aplicado?

A utilização transversal da plataforma de e-Learning como instrumento de apoio ao ensino presencial atingiu um patamar de generalização notável, especialmente impulsionado pelos procedimentos instituídos pelo SIGAQ e pela inscrição do Dossiê de Unidade Curricular (DUC) neste suporte.

O recurso a este ambiente de aprendizagem tem conduzido a um prolongamento das interações realizadas em regime presencial, através do uso de variadas ferramentas de comunicação e colaboração, quer síncronas ou assíncronas, e consequentemente à realização de aprendizagens a distância.

Uma das medidas propostas a nível do ensino era a educação à distância. Esta aposta já está em acção ou para quando a sua implementação?

A Universidade tem uma experiência discreta na oferta de ensino pós-graduado em formato misto (b-learning), em que se pode salientar o Mestrado em Ciências da Educação - Área de Especialização em Tecnologia Educativa, do Instituto de Educação; o Curso de Formação Especializada em Espanhol/Língua Estrangeira (ELE), do Instituto de Letras e Ciências Humanas; o EURHEO - European Masters in Engineering Rheology, da Escola de Engenharia; o Online Teaching and Learning & Professional Development of Teachers na República das Maldivas, oferecido pelo Instituto de Educação e patrocinado pela UNICEF e ainda o projecto PostCaVET com as universidades de Timor Leste e Cabo Verde.

Esta é uma experiência que pretendemos desenvolver, incrementando consideravelmente o recurso ao b-learning.

Em que moldes isto será feito e quais os projectos-piloto?

Considerado ultrapassado, de uma forma geral, o primeiro desafio da integração e aceitação das tecnologias no processo de ensino-aprendizagem, foi já iniciado o levantamento das experiências metodológicas, pedagógicas e de gestão existentes. É neste contexto que o GAE, em colaboração com a TecMinho, iniciou um projecto de caraterização das práticas e-learning, internas e externas, no contexto do 2º ciclo de ensino, com o objectivo de identificação de boas práticas nos diversos contextos de ensino superior, no sentido de fornecer material de suporte à transição e adaptação dos modelos de ensino presencial exclusivo para os modelos semipresenciais. Como referido já existem diversas experiências na própria UM, com modelos distintos e em áreas do saber com características particulares, sendo que neste momento existe a necessidade de organizar, analisar e destacar o que de bom se realiza internamente bem como externamente de modo a apoiar futuras iniciativas.

Texto: Ana Coimbra
anac@sas.uminho.pt

(Pub. Abr/2011)
Arquivo de 2011