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Entrevista.com, 24.02.2011
“…os estudantes que nos procuram vêm em busca dos créditos nacionais e internacionais que temos firmado.”
UMinho
Miguel Bandeira, presidente do Instituto de Ciências Sociais (ICS), afirma que a escola tem na sua diversidade de valências e competências o seu maior "trunfo". Sendo os recursos humanos e algumas instalações o "calcanhar de Aquiles" para a plena realização da missão do ICS.


O Instituto está organizado em Centros/Núcleos de Investigação e Departamentos, contando com uma população estudantil de cerca 900 alunos, distribuídos por cinco licenciaturas - Arqueologia; Ciências da Comunicação;   Geografia e Planeamento;   História  e Sociologia. Tem ainda sob a sua responsabilidade 446 estudantes  de pós-graduação, 340 de Mestrado e 106 de doutoramento.


Como caracteriza a função de Presidente da Escola?

É um misto de desafio e de aventura dirigir hoje uma Escola Universitária, porque, enquanto presidentes, somos convocados a fazer cada vez mais com cada vez menos recursos, em cenários também eles mais instáveis e imprevisíveis. Contudo, o desiderato não é tanto e somente uma questão de racionalidade, como uma visão simplista pode à primeira vista sugerir, mas, o de permanente reinvenção de processos e metodologias, de mediação de vontades e de testemunho de confiança, para continuar a desempenhar a nossa alta missão de serviço público.

É um desafio serPresidente do Instituto de Ciências Sociais?

Como afirmei, é mais do que isso, sobretudo, tratando-se das Ciências que têm por fim último o estudo centrado na condição humana e nas sociedades, na formação de referências e de valores das mulheres e dos homens de amanhã. Tanto mais desafio, porque hoje em dia sobressai uma tendência hegemónica nos diversos centros de poder económico-político que tende a subalternizar o contributo inestimável das ciências sociais e das humanidades, constrangendo-as actuar com menos recursos, em condições mais ingratas e com exigências redobradas por comparação aos domínios tecnológico-financeiros.

Ainda assim, as perspectivas são auspiciosas, enquanto houver Universidade, porque é dos exercícios crítico-reflexivos que se ensinam e investigam no ICS que se gera o conhecimento inovador, a criatividade e as ideias transformadoras. É no ICS que privilegiadamente se lavram os mais vanguardistas conhecimentos nos domínios da identidade e da memória, da cultura e da história, das ciências da comunicação, da sociedade e das suas organizações, do desenvolvimento do território.

Quais são as maiores dificuldades que sente no cumprimento da sua função?

Desde logo a dificuldade em vislumbrar no futuro próximo um quadro de estabilidade e serenidade no ensino superior e na investigação, suficientemente claro e sustentado para não nos dispersarmos por outras preocupações que não sejam as que decorrem do cumprimento da nossa missão. Se tivesse, porém, de eleger a principal dificuldade, a prioridade ia direitinha para a falta de recursos humanos, tanto docentes como, particularmente, não docentes. Salientando a não renovação daqueles que, por aposentação, nos vão deixando.


Quais são na sua opinião os pontos fortesdo Instituto de Ciências Sociais?

As ofertas formativas do ICS são das mais procuradas, por parte dos estudantes dos mais diversos graus, idades e condição; apresenta uma diversidade considerável de especializações formativas, que procuram responder às necessidades do país; os seus membros têm elevadas qualificações, assim como reconhecimento nacional e internacional; o número de projectos científicos, em que o Instituto se encontra envolvido, tem crescido consideravelmente (actualmente tem 16 projectos de investigação financiados por instituições externas); a visibilidade pública dos seus membros tem-se expandido, em parte devido à liderança de sociedades profissionais/científicas nacionais e internacionais; à intervenção cívica dos seus membros; e à mobilidade de docentes e estudantes, especialmente, nos espaços europeu mediterrânico, ibero-americano e lusófono tem aumentado todos os anos.

Se tivesse que escolher um destes pontos fortes como o mais importante, aquele que melhor projecta o ICS, qual seria?

Sem hesitar, a sua diversidade de valências e competências. O ICS, embora sendo uma Escola de média dimensão, ostenta uma diversidade de domínios científicos e formativos que perpassam diversas áreas disciplinares e especialidades, tais como a antropologia, a arqueologia, a informação e comunicação, geografia, história, sociologia, e ainda, tem presentes especialistas nas áreas da arte e da cultura, dos audiovisuais, dos estudos culturais, das ciências da terra, da demografia, da história de arte, do jornalismo (imprensa escrita, rádio, televisão e multimédia), da psicologia social, da publicidade e das relações públicas, entre outros.

E os pontos fracos?

Algumas das preocupações presentes do ICS: os recursos humanos docentes e não docentes são insuficientes, face às exigências dos desafios que a Universidade enfrenta; as instalações não atendem às novas solicitações da missão do ICS; e, em particular, as instalações do ICS em Azurém permanecem provisórias, desde 1996; o atraso na construção e equipamento do centro multimédia, central ao ensino e investigação de algumas áreas do ICS; ou a insuficiente valorização das carreiras, que trespassa a universidade portuguesa.

Qual tem sido a evolução doICSno decorrer destes anos? O que na sua opinião mais o tem feito evoluir?

Algumas competências de afirmação do ICS têm sido: uma apetência estratégica na captação de "novos públicos", sobretudo através da criação de ofertas pós-laborais de licenciaturas e mestrados; a contínua afirmação externa dos seus membros, pelo reconhecimento científico nacional e internacional; o desenvolvimento de redes de pesquisa, a partir dos contactos e inserções internacionais; destacando-se a propensão para aprofundar relações universitárias no espaço luso-afro-brasileiro e ibero-americano, como resultados positivos em termos de afirmação de competitividade; a facilidade de relacionamento com a comunidade local e regional; o prestígio social local e nacional dos seus membros; e o desenvolvimento de projectos de interacção com a sociedade através de investigações que apresentam um impacte real na vida das populações.




O que o caracteriza relativamente às outras escolas/institutos do país?

O ICS da Universidade do Minho é mais do que uma Escola de Ciências Sociais em comparação com outras ofertas congéneres mais próximas. Tem um corpo de docentes e investigadores de origem formativa diversificada, tanto nacional como oriunda do estrangeiro, e beneficia do potencial gerado pelo sistema orgânico da UM que facilita a articulação de projectos com outras Escolas.

Estes elementos diferenciadores serão motivos suficientes para que os alunos escolham o ICS da UMinho?

Para além do potencial endógeno de estarmos situados numa das regiões portuguesas mais povoadas, com ligações culturais e económicas às mais diversas partes do mundo, temos consciência que os estudantes que nos procuram vêm em busca dos créditos nacionais e internacionais que temos firmado.

O que podem esperar os nossos estudantes doICS, em termos de qualidade de ensino e de inserção no mercado de trabalho?

Relembramos que o ponto de vista organizacional interno, o ICS integra de 4 departamentos: Ciências da Comunicação, Geografia, História e Sociologia. E dispõe de 3 centros de investigação, reconhecidos e creditados favoravelmente pela Fundação para a Ciência e Tecnologia: Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), Centro de Investigação em Ciências Sociais (CICS) e o Centro de InvestigaçãoTransdisciplinar Cultura, Espaço e Memória (CITCEM) . O primeiro destes centros foi classificado como o melhor do País.


A partir dessas estruturas o ICS lecciona actualmente 5 cursos de 1º ciclo (licenciatura), 13 de 2º ciclo (mestrado) e 6 de 3º ciclo (doutoramento); assim como cerca 270 unidades curriculares em outros cursos da UMinho.

Ao longo dos últimos 3 anos nos cursos de 1º ciclo inscreveram-se 2 693 alunos, numa média de aproximadamente 897 alunos por ano; e concluíram o 1º ciclo, nos últimos 3 anos, 657 estudantes (o que perfaz uma média de 219 diplomados por ano). Relativamente ao 2º ciclo, os dados disponíveis mostram que nº de inscritos entre 2007/08 e 2009/10 foi de 899, tendo-se nesse período diplomado 199 estudantes. No caso do 3º ciclo o número de orientações em curso no final de 2009 era de 116 estudantes tendo sido graduados, 22 estudantes entre 2007/2007 e 2008/2010.


Os estudantes diplomados nas áreas de Ciências Sociais da Universidade do Minho são o melhor exemplo do valor e do alcance dos projectos e realizações do ICS. A inserção destes no mercado de trabalho tem correspondido às expectativas projectadas pelas diferentes direcções de curso. Tal avaliação é aferida pela escola através dos contactos com as empresas e instituições que acolhem os nossos alunos em estágio; pela sua inserção, cada vez mais frequente, em projectos de investigação científica; ou pelo acompanhamento que fazemos do percurso dos nossos alumni .

Sem negar os problemas estruturais que afectam a economia nacional, e que naturalmente se repercutem em todas as ofertas de ensino superior em Portugal, a preocupação em repensar as formações prestadas no ICS é uma constante. E constitui orientação do Instituto desenvolver cursos, cada vez mais, flexíveis de modo a responder aos novos perfis de estudantes e às solicitadas do mercado de trabalho. Uma das tendências do ensino em Ciências Sociais na UMinho é a preocupação em desenvolver perfis de formação de ?banda larga?, no 1º ciclo, coerentes com a oferta de qualificações mais segmentadas, especializadas e profissionalizantes num 2º e 3º ciclos.

Os estudantes podem encontrar no ICS a oportunidade de desenvolverem as suas competências profissionalizantes e de pensamento, beneficiando de um corpo diversificado de especialistas residentes.

O Instituto, como a própria Universidade tem sofrido alterações a vários níveis nos últimos tempos. Qual a estratégia do ICSpara os próximos anos?

O ICS enfrentou, ao longo dos anos, alguns desafios como: a reorganização do processo de ensino-aprendizagem, com a reforma de Bolonha; a reorganização interna, com a reforma universitária imposta pelo RJIES; o crescimento da competitividade ao nível da investigação, com a transferência de verbas do Ministério para essa valência universitária; a quebra na procura dos nossos cursos, transversal às universidades portuguesas; ou a exclusão das Ciências Sociais das prioridades estratégicas das universidades e das políticas governamentais.

 As orientações estratégicas para os próximos anos são:

Para o ensino: (1) consolidação da oferta formativa da escola, particularmente no que se refere aos 2º e 3º ciclos; e (2) captação de "novos públicos", através de um reforço das ofertas pós-laborais, de cursos livres e de curta duração;

Para a investigação: (1) reforço da internacionalização da investigação científica em Ciências Sociais; e (2) desenvolvimento da ligação dos investigadores a projectos e redes de pesquisa nacionais e transnacionais.

Para a interacção com a sociedade: (1) aprofundamento das relações com as empresas, instituições e ONGs da região e do país, em sectores de reconhecida competência do ICS; (2) reforço da prestação de serviços especializados e de qualidade à comunidade, numa lógica de contribuição para o desenvolvimento do país.

Números de docentes da Escola a trabalhar a tempo integral?

O ICS constitui uma Escola de média dimensão com 1 263 estudantes (35,2% de pós-graduação); 83 docentes/investigadores, correspondendo a 77 docentes em tempo integra (81% com grau de doutor); e 15 trabalhadores não docentes.

Texto: Ana Coimbra
anac@sas.uminho.pt

Fotografia: Nuno Gonçalves
nunog@sas.uminho.pt


(Pub. Fev/2011)

Arquivo de 2011