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Entrevista.com, 28.01.2008
"A ideia da maioria das artes marciais é transmitir aos seus praticantes valores, como a responsabilidade, a integridade e o auto-controlo"
UMinho
Pedro Fernandes, aluno de Engenharia Biomédica, apesar de ainda muito jovem, conta já no seu currículo com quatro títulos de campeão nacional e mais dois de campeão nacional universitário. Graças a sua performance nas competições universitárias, Pedro esteve em representação de Portugal nas Universiadas de 2007 (Jogos Olímpicos Universitários) onde se classificou entre os 10 melhores do mundo.
Com que idade é que iniciaste a prática competitiva do Taekwondo e onde?
Comecei a praticar por volta dos 6 anos no Ginásio Koryo em Braga, actual Konceito, que tem alguma tradição nesta modalidade, mas, apenas comecei a fazer competição de combates aos 12 anos.
Achas que o taekwondo ajudou no teu desenvolvimento enquanto indivíduo?
Completamente. Todas as decisões que tomei na minha vida que me fizeram evoluir como pessoa foram baseadas nos princípios que adquiri no Taekwondo e na prática desportiva. Se foram as melhores, não sei mas, foi graças a elas que sou como sou hoje.
Qual foi o papel da tua familia no teu percurso enquanto atleta de alta competição?
A minha família tenta ajudar em tudo que pode e como o Taekwondo não é um desporto onde o dinheiro seja abundante, foi muitas vezes devido ao esforço dos meus pais que me pude deslocar a vários sítios para treinar, competir e evoluir. Tirando isso, a minha mãe nunca me viu combater, diz que fica muito nervosa e por isso prefere não ver.
Quantas vezes treinas por semana, e quanto tempo?
Faço cerca de 12 treinos por semana, com cerca de 1h30min cada um. É só fazer as contas?
Algumas pessoas associam as artes marciais a comportamentos violentos. O que tens a dizer a essas pessoas?
Penso que esse preconceito que algumas pessoas têm esta errado. Não digo que não existam casos desses mas, como a ideia da maioria das artes marciais é transmitir aos seus praticantes valores, como a responsabilidade, a integridade e o auto-controlo, é de esperar que eles melhorem como indivíduos e não actuem de maneira errada. Na parte que me toca, nunca me meto em confusões e a violência não é, de certeza, a posição que eu tomo para resolver qualquer tipo de problema.
A maneira como tu lidas com a pressão e a ansiedade antes dos combates é algo que tu consegues trabalhar e treinar, ou simplesmente é algo com que apenas lidas na hora em que entras no tatame?
Num combate de Taekwondo, em que somos estimulados a raciocinar muito e rápido para adequar as estratégias que devemos aplicar, é fundamental que se entre para o tatami com um nível de ansiedade óptimo que não afecte as decisões que se tomam lá dentro. Por isso, tento que este factor seja trabalhado em treinos, competições menos importantes e qualquer tipo de oportunidade que tenha, para que cada vez mais me sinta confortável e consiga reagir da melhor forma possível, seja num Campeonato regional ou num Campeonato do Mundo.    
Qual é para ti a grande diferença entre a competição federada e a competição universitária?
Em termos internacionais o nível dos dois tipos de competição é bastante semelhante. No âmbito nacional ainda existe alguma diferença, devido ao baixo número de atletas que se apresentam nas competições universitárias mas, atendendo à evolução que a modalidade está a ter em Portugal é perfeitamente natural que as competições universitárias nos próximos anos melhorem significativamente.
O facto de competires pelo teu actual clube condicionou a tua escolha de Universidades quando concorreste? Porque?
Condicionou bastante. Se fosse para outra Universidade, noutra região, dificilmente teria a mesma qualidade dos treinos que tenho no clube onde estou e iria perder um apoio importante que é a família o que complicaria muito a minha possibilidade de sucesso.
Para muitos atletas de alta competição torna-se difícil conciliar os estudos com a prática desportiva. Como é que tu consegues gerir esta nem sempre fácil "relação"?
Esta relação é mesmo muito complicada. A Universidade no formato que está agora exige muita dedicação porque, há sempre trabalhos para entregar, frequências a meio dos semestres e se não houver um acompanhamento constante das matérias rapidamente nos perdemos. Com uma vida desportiva em paralelo torna-se ainda mais difícil, com o volume de treinos que tenho e o desgaste que eles provocam é complicado manter a concentração na altura de estudar e ir às aulas, mesmo assim, tento ser o mais organizado possível. Reduzo um pouco às cadeiras que faço por semestre e assim tento equilibrar um pouco as coisas de forma a ter sucesso nas duas áreas.
Em ano de Jogos Olímpicos e após a tua participação nas Universiadas, que balanço fazes da tua participação nesta grande competição? E os Jogos Olímpicos de Pequim, são um sonho ou uma possível realidade?
As Universiadas foram uma experiência fantástica. O contacto que se tem com outras modalidades e a experiência e conhecimento que se adquire é muito enriquecedor. No que diz respeito à minha participação, fiquei bastante satisfeito, mediante o nível da competição saí-me bem, aprendi bastante e de certeza que evolui muito, para que numa próxima oportunidade o sucesso seja ainda maior. Os Jogos Olímpicos de Pequim são um sonho já impossível de atingir uma vez que para sermos apurados no Taekwondo temos de nos classificar nos 3 primeiros lugares de um dos dois torneios de Pré-Qualificação Olímpica, que se realizam um a nível mundial e outro a nível continental. Consegui estar presente no Pré-olimpico mundial que se realizou em Setembro, em que cada país apenas podia levar dois atletas de cada género (masculino ou feminino) mas, infelizmente não consegui o apuramento, agora em Janeiro irá realizar-se o Pré-olimpico Europeu que não vou ter oportunidade de participar uma vez que estive ausente da competição durante os dois últimos meses devido a uma lesão. Mas espero que oportunidades não faltem e em 2012 possa estar presente.
A UMinho iniciou em Portugal um programa pioneiro no que diz respeito ao apoio aos atletas de alta competição, o TUTORUM. O que pensas desta iniciativa e do programa em si?
Este programa é nitidamente uma mais-valia para ajudar na tão difícil relação estudos/desporto e como qualquer ajuda é bem-vinda, é obviamente de louvar este tipo de iniciativa.
Em áreas já recebeste apoio através do Tutorum?
Graças ao Tutorum estou a ter a oportunidade de trabalhar mais com a área da psicologia desportiva o que está a ser bastante benéfico.
Os teus objectivos pessoais passam por uma carreira profissional no taekwondo ou os estudos vêm em primeiro lugar?
A nível desportivo tenho vários objectivos e sonhos importantes que quero atingir e muito provavelmente enquanto sentir que tenho condições para os alcançar talvez aposte mais no Taekwondo que nos estudos.
Texto e Fotografia: Nuno Gonçalves
Arquivo de 2008