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Cultura, 30.10.2015
Bomboémia: a caixa de ritmos da Academia!
UMinho
Com mais de uma década de existência, sempre com muito ritmo e animação, os Bomboémia foram, e ainda são, uma lufada de ar fresco dentro no panorama cultural da academia minhota. Um bom exemplo disso foi a recente organização do festival "Do Bira ao Samba", que encheu de cor e ritmos quentes do outro lado do oceano a "velha Bracara Augusta".


Quando e como nasceram os Bomboémia?

Os Bomboémia surgiram da reestruturação do Grupo de Cabeçudos, Gigantones e Zés - Pereiras. Isto foi há 11 anos, desde que um pequeno grupo de amigos cheios de força se uniu para criar aquele que hoje se apresenta como o grupo mais original e energético da Universidade do Minho.

Na altura do seu nascimento foi um grupo inovador na academia... ainda hoje o é?

Hoje mais do que nunca! Foi sem dúvida inovador aquando da sua criação, pois mesmo em terras de grande tradição de cabeçudos e grupos de bombos, não havia esta ligação à academia que depressa moveu os alunos a perpetuar a percussão tradicional. A Universidade do Minho é ainda a única que conta com um grupo de percussão como grupo cultural!

Foi logo no início que os "laranjinhas", como somos frequentemente apelidados, deixaram claro que havia muita energia e muita vontade de fazer a diferença. Desde os bombos, timbalões, caixas e tarolas, passando pelos instrumentos construídos a partir dos mais diversos materiais, d'jambés, shekeres e bidões até às latas e sininhos, não há nada que nos limite a criatividade e a vontade de chegar mais longe com o nosso som e espetáculo musical.

Hoje, assumimos novos ritmos que inevitavelmente também são o resultado da nossa sociedade multicultural. Das nossas chulas minhotas partimos à descoberta de outros ritmos, incorporando as batucadas no nosso reportório musical. São cada vez mais os instrumentos que tocamos e fundimos com os nossos bombos, o que nos permite oferecer diferentes espetáculos mediante o público para o qual atuamos. É para nós muito importante mostrar a nossa flexibilidade e capacidade em surpreender. Aos alunos do Minho preparamos sempre que possível uma surpresa nas nossas atuações, pois gostamos de lembrar que há coisas diferentes a acontecer, bem perto deles e ao alcance de qualquer pessoa que tenha gosto pela percussão.

O que na vossa opinião é o segredo de sucesso deste grupo?

O sucesso é o resultado do conjunto de pessoas que se juntam para ensaiar todas as semanas. É o produto de uma sinergia que se constrói e que se sente entre os nossos membros, e que impele cada um de nós a levar mais longe o nome Bomboémia e fazer cada vez mais e melhor. Há paixão, há energia, há prazer e dedicação! Tem de haver um misto destes ingredientes para que possamos evoluir. Somos um grupo muito grande e heterogéneo, sendo que cada elemento contribui com diferentes competências. Quem se junta a nós percebe que somos mais do que amigos, e que entre festas e convívios levamos a nossa missão com seriedade.

Dar a conhecer as nossas tradições de forma mais atual e adaptada a públicos mais jovens é um fator que nos distancia dos demais. Ajuda também ao sucesso fazer parte de uma magnífica associação, a ARCUM - Associação Recreativa e Cultural Universitário do Minho, que trabalha em prol dos vários grupos que a constituem. Isto faz de nós uma parte de um todo que visa essencialmente divulgar as tradições académicas e da região minhota em Portugal e no estrangeiro.




Vocês já por diversas vezes subiram a palco com outros grupos da academia, fazendo uma mistura da vossa percussão com o som desses grupos. Como têm sido essas experiências?

Ésempre excelente atuar com outros grupos, sejam eles da academia ou não. Significa aprendizagem e flexibilidade. Sugere-nos diferentes possibilidades e é também uma forma de mostrar aos mais céticos que não fazemos apenas barulho. Recentemente juntámo-nos ao coro da academia que comemorou os seus 25 anos e apresentámos uma versão de um dos temas da Adele. Também com a Tuna Universitária do Minho a nossa colaboração é frequente. Aliás, há uma espécie de partilha de recursos humanos com diferentes saberes musicais entre os grupos que constituem a nossa associação e isso é uma mais-valia. Não somos apenas uma "escola" de formação musical, mas também de formação pessoal, e a partilha de experiências e de conhecimento com pessoas de outros grupos é fundamental para este processo de desenvolvimento.

O vosso percurso teve altos e baixos. Como tem sido esse trajeto ao longo destes últimos 10 anos?

Os altos estão sem dúvida em maioria, e o nosso crescimento e reconhecimento é prova disso mesmo. Temos 11 anos e com eles vieram muitas alegrias, muitas atuações e muita gente com vontade de fazer melhor. Como sempre acontece em qualquer contexto, houve momentos menos bons e alguns obstáculos ao longo do caminho, mas com eles vieram também novas aprendizagens e hoje somos mais capazes graças a eles. De forma geral, é fácil dizer que o trajeto foi sempre a subir e não reconhecemos limites ao que podemos ainda oferecer.

Alguns dos vossos pontos altos foram as digressões e viagens ao estrangeiro. Como é que são esses momentos e qual é a importância deles para o grupo?

Polónia, Espanha, Irlanda, Suíça, França, Holanda, Bélgica e Tunísia foram os países que nos receberam além-fronteiras. Quando nos é transmitido tanto carinho no estrangeiro, o verbo partir torna-se vício. Reconfortamos emigrantes portugueses e deliciamos turistas, atuamos na rua e em palco, carregamos os instrumentos e perdemo-nos nas cidades, mas no fim de cada dia, aquele apreço pela nossa arte é tão bom que nos carrega "baterias" para o dia seguinte.

Sendo a nossa missão dar a conhecer as tradições minhotas, é um privilégio sair de Portugal e contribuir para o enriquecimento cultural nos mais diversos países. Também nós saímos mais ricos destas viagens, quer a nível pessoal, quer musical. Sentimos o dever de bem representar Portugal e isso exige muito trabalho de cada um de nós.

O convívio nas digressões que fazemos, a amizade e o respeito que regulam o nosso comportamento dentro do grupo, é também um fator que explica o nosso sentimento de pertença aos Bomboémia. As viagens que partilhamos são momentos e lições que ficam para sempre!


Por falar em estrangeiro, vocês devem ser provavelmente o único grupo cultural da academia com alunos Erasmus. Como é que se deu a entrada do primeiro aluno de intercâmbio  no grupo?Como é que tem sido essa experiência com os Erasmus?

Como fazemos muitas atuações no início do ano a convite da Associação Académica, temos o privilégio de atuar para os novos alunos. Também porque os nossos ensaios são por baixo do Bar Académico que é o ponto de encontro para muitos Erasmus que se querem aventurar nas noites académicas, acabamos por receber visitas inesperadas que de esporádicas se fazem assíduas. Espanha, Polónia, Bélgica, Grécia, Brasil e Índia, são os países de origem daqueles que até então recebemos nos Bomboémia. Não só ficamos muito contentes por receber Erasmus, como alunos ao abrigo de outros programas de mobilidade jovem, pois proporcionam a todo o grupo momentos de convívio e partilha que nos ajudam a crescer e que moldam o que somos e aquilo que oferecemos ao nosso público.



Se um aluno quiser entrar para os Bomboémia o que é que tem de fazer?

Aparecer! Segundas e quintas-feiras às 21.30h por baixo do B.A. Não tem de ter formação musical ou qualquer outro requisito para além do gosto pela percussão. Vem e experimenta. Costuma resultar e ser o suficiente para tornar os interessados em membros da nossa "família". É ótimo receber novos membros e, com mais ou menos tempo, todos são capazes de contribuir para a nossa música, seja no bombo, caixa, timbalão ou outro. Depois também temos os que querem dançar! Com a introdução dos nossos ritmos brasileiros, vieram as sambistas e por isso não há desculpas! Temos de tudo e para todos os gostos!

Dos membros fundadores, ainda há algum, ou alguns, que estejam no ativo?

"Quem é Bomboémia, é-o para sempre". Ser Bomboémico acarreta um sentimento único que, de pertença a paixão e entrega, faz com que a nossa ligação à Universidade do Minho e ao grupo perdure no tempo. Não é por acaso que muitos de nós já estão nos Bomboémia há muitos anos, e que uma parte significativa do grupo seja constituída por trabalhadores e ex-alunos. Do pequeno grupo fundador dos Bomboémia, não temos ninguém que venha aos ensaios com regularidade, mas muitos já têm quase uma década de dedicação "a esta causa". Ainda no mês passado fomos atuar no casamento da nossa primeira Diretora, o que demonstra o vínculo e os laços que se criam nos Bomboémia.

Relativamente ao Festival "Do Bira ao Samba"... o balanço é positivo?

O balanço é extremamente positivo! Foi possível criar um novo conceito em Braga e deixar uma marca enorme logo na primeira edição. Um conceito que faltava a Braga ou não fosse Braga a cidade do Baixo Minho que povoou o Brasil quando ainda a nau portuguesa descobria e redescobria o mundo. A edição de 2016 já se começa a preparar e os Bomboémia prometem trazer uma "Do Bira ao Samba" ainda maior.

Vamos ter grupos vindos do estrangeiro?

Ainda estamos a aguardar confirmações pelo que para já não foi fechado o cartaz. No entanto não vai faltar o calor do Brasil.

Como preveem o futuro do grupo?

Maior. Melhor. Mais longe. Desde a nossa formação que nos temos mantido num crescendo constante, apesar dos obstáculos. É a única forma que conhecemos de fazer percussão e que nos define como grupo. Há ainda muitos caminhos a percorrer, tanto literais como figurativos: novos ritmos a interiorizar, novos eventos a organizar, novas cidades e países a conhecer, e onde dar a conhecer o nosso nome e a nossa cultura. E são bem-vindos todos aqueles que quiserem partilhar connosco esta viagem.


Texto: Nuno Gonçalves


(pub. Out/2015)

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